Aluna do Pedro II é a única mulher a ganhar medalha de ouro na olimpíada
mundial de matemática, na China

 

Audryn Karolyne e Diego Amorim

 

Colégio conquista 11 premiações na competição, que reuniu 1.100 estudantes
de vários países

 

27/11/2019 - 04:30 / Atualizado em 27/11/2019 - 08:49

 

RIO — Em sua primeira viagem internacional, a adolescente de Adrieny
Teixeira trouxe como souvenir uma medalha de ouro da China. 

 

Estudante do 9º ano do Colégio Pedro II, unidade Centro, e moradora de
Vicente de Carvalho , Zona Norte do Rio, ela foi a única mulher brasileira e
da categoria avançada (para menores de 20 anos) da World Mathematics Team
Championship, uma olímpiada internacional de Matemática, a ganhar um ouro.
Um detalhe que torna a equação da vida de Adrieny ainda mais complexa: por
ter completado 15 anos há apenas dois meses, Adrieny teve que competir junto
com estudantes do ensino médio, já que a competição dividia os competidores
por idade, e não por série escolar. Além de Adrieny, todos os dezoito alunos
das unidades Centro e São Cristóvão que participaram foram premiados.

 

Apesar de ter realizado seu feito do outro lado do mundo, a ficha só caiu
quando ela viu sua mãe do outro lado do portão de desembarque do Aeroporto
Internacional Tom Jobim (Galeão) nesta terça-feira.

 

— A prova foi de um nível muito elevado, mas eu me esforcei, me dediquei e
cheguei lá. Eu consegui um bom resultado, meus amigos também, então a gente
trouxe um bom resultado para o Brasil — afirmou Adrieny, muito tímida.

 

Os estudantes chegaram no Brasil com uma medalha de ouro, três pratas, sete
bronzes e sete menções honrosas. A competição contou com 1.100 atletas do
Brasil, China, Austrália, Filipinas, Malásia e Bulgária, sendo 164
brasileiros de 11 estados, acompanhados de 60 professores.

 

Devido ao ótimo desempenho que tiveram na Olimpíada Internacional Matemática
Sem Fronteiras , em abril deste ano, os alunos foram convidados inicialmente
para representar o Brasil na Olimpíada Internacional de Matemática da Ásia
(AIMO) em Taiwan . No entanto, por falta de verba, eles não tiveram como
participar da disputa. Apesar da tristeza, os "matematletas" não desistiram
e correram atrás do dinheiro.

 

Durante a campanha para arrecadar o dinheiro necessário para a viagem, os
jovens venderam palhas italianas, brigadeiros e bolos, sempre na companhia
dos pais. Além disso, eles criaram uma vaquinha virtual que arrecadou R$
14.845 na web. Os estudantes também receberam como doação uma camisa
assinada pelo treinador e ex-jogador de vôlei Bernardinho, com a qual
fizeram uma rifa. Outra forma de conseguir o dinheiro foi dar aulas
particulares a colegas de classe.

 

A competição foi realizada na capital chinesa, Pequim, entre os dias 21 e 25
deste mês, com provas individuais, de revezamento e em grupo. Os estudantes
tiveram até 40 minutos para resolver os problemas matemáticos de diferentes
graus de dificuldade. Além disso, era preciso saber inglês ou chinês, já que
as questões estavam nestes idiomas.

 

Segundo o professor de Matemática e chefe da delegação da Unidade Centro,
Ivail Muniz, o idioma e o fuso horário — China e Brasil tem uma diferença de
11 horas entre si — tornam a competição ainda mais difícil, somados a
fatores como o nível de dificuldade e o tempo para solucionar o conteúdo.

 

— Junto com o cansaço mental, você tem um cansaço físico. Mas esses alunos,
além de gostarem de Matemática, também são talentosos. A gente mostrou que
sabe fazer e tivemos bons resultados. Essa é a prova que exige mais
velocidade de todas as olímpiadas de Matemática — explica o professor.
Segundo ele, em uma das etapas os estudantes tinham em torno de um minuto
para resolver cada questão. No Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) , os
candidatos tem cerca de 3 minutos para cada enunciado.

 

Emocionadas, as famílias dos estudantes aguardaram no aeroporto com flores,
placas, camisas personalizadas e chapéus de palha feitos especialmente para
lembrar a China. Foram seis dias de expectativa e saudade, além da
dificuldade de se comunicar com os filhos, devido ao fuso horário e à falta
de sinal de internet.

 

A mãe de João Mateus Nascimento, estudante de 17 anos do 3º ano do ensino
médio da unidade São Cristóvão, estava no mercado quando soube que da
vitória do filho:

 

— Quando me falaram que o João tinha sido medalha de prata, comecei a chorar
no meio do supermercado. Comi uma barra de chocolate inteira — disse Josina
Nascimento, enquanto ainda aguardava o filho chegar.

 

Além dos da olímpiada, João tinha outro problema para resolver: como
assistir à final da Libertadores da China? O flamenguista, quando percebeu,
às 4h da manhã, que a partida não estava passando na televisão do hotel,
recorreu a uma amiga, que conseguiu uma transmissão através do WeChat , uma
espécie de WhatsApp chinês. No final, o nervosismo por ambas as competições
valeu a pena:

 

— Em 24 horas, o Flamengo ganhou dois títulos, eu visitei a Muralha da China
e ainda ganhei uma medalha — disse um João sorridente, com a camisa do
Flamengo por baixo da que os pais mandaram confeccionar.

 

Além de Adrieny, do campus Centro, foram premiados João Victor de Andrade
com uma prata, Ana Catarina dos Santos, Ana Júlia dos Reis, Arthur Siqueira,
Isabel Fernandes e Luiz Carlos Ferreira com um bronze, Gabriela da Silva e
Samuel Soares com menção honrosa. De São Cristóvão, junto com João Mateus,
Rafaela Franco recebeu a prata, Gustavo Oggioni e Bruna Romero o bronze, e
Beatriz Ferreira, Deisianny Santos, Gabriel Henrique, Gabriel Lopes e Tauat
Lara uma menção honrosa.

 

A professora e coordenadora de Matemática do Campus Centro, Andreia Maciel,
explica que foi realizada uma seleção para que a equipe final fosse formada,
onde foram consideradas notas em Matemática e Inglês e o desempenho em
olimpíadas.

 

— Esses adolescentes se destacam também pelo excelente desempenho acadêmico
em toda a formação. A comunidade escolar se mobilizou em prol desse desafio.
Nossa delegação, além de ter o melhor desempenho do Brasil e todos os
integrantes premiados, contou com uma expressiva participação por parte das
meninas, o que é muito importante em um universo quase que exclusivamente
masculino — destacou.


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