Prezada Heloisa, Com todo o respeito, gostaria fazer um comentário sobre este trecho de sua mensagem: "Uma idéia, defendida pela Marina no nosso debate, e por Kim Kataguiri ontem num debate, é permitir candidaturas individuais, que competiriam diretamente com estruturas partidárias viciadas. Ótima idéia..."
Discordo de sua opinião de que seja uma "ótima ideia" essa proposta defendida pelo histriônico Kim Kataguri, de candidaturas individuais a cargos eletivos, competindo diretamente com as "estruturas partidarias viciadas". Isso a meu ver apenas aumentaria a personalização, o individualismo e a busca do auto-interesse existente na política institucional brasileira, que já é alarmante, considerando os vários "partidos de aluguel", muito fisiológicos, sem articulação com grupos da sociedade, que não raro existem apenas para servir de balcão de negócios e plataforma legal para amparar candidaturas e captar recursos para campanhas eleitorais de seus donos. Partidos políticos ainda são fundamentais no modelo de democracia representativa em que vivemos. Isso é corroborado na teoria política moderna e na experiência histórica. Às iniciativas de enfraquecimento ou desmantelamento de sistemas partidários (o conjunto dos partidos e não de um ou outro específico) geralmente segue o enfraquecimento do próprio regime democrático, com a ascensão ao poder de grupos políticos radicais (de variados matizes ideológicos), que passam a impor suas ideias e políticas sem a devida discussão e deliberação democrática, ou seja, sem a mediação de instituições como os partidos e o parlamento. Infelizmente esse rapazote, Kim Kataguri, tem ganhado muitos holofotes nos últimos meses em razão de seus comentários ácidos e propostas inconsequentes para a política brasileira. Isso porque nos falta novas lideranças políticas mais consistentes e porque boa parte da mídia corporativa assumiu abertamente uma postura de "quanto pior, melhor" como objetivo de tirar do poder o atual grupo político que aí está (e apesar de todos os seus muitos defeitos, tem legitimidade pois foi eleito democraticamente). Nesse contexto, adolescentes desvairados e vaidosos como Kim Kataguri passam a ter espaço em editoriais de grandes jornais para apoiar coisas como "a refundação da República" com base na eliminação da estrutura estatal e na extinção dos bens e serviços públicos. Um ultra-neo-liberalismo de botequim com vernizes intelectuais. Uma democracia política poderá existir um dia sem o modelo convencional de partidos políticos criado e desenvolvido ao longo dos séculos 19 e 20? Penso que sim e apoio iniciativas como o Podemos (Espanha) e a Raíz Movimento Cidadanista que está surgindo neste momento no Brasil, que buscam construir essas alternativas de organização política mais horizontal, participativa, aberta. Mas acredito que a solução para crise da democracia representativa no Brasil passa pelo revigoramento do atual sistema partidário criado no fim da ditadura de 1964-1985 e não pelo seu esvaziamento ou eliminação, com base numa ideia de que indivíduos isolados seriam melhores representantes dos anseios da sociedade. Saudações, João Francisco Resende. _______________________________________________ okfn-br mailing list [email protected] https://lists.okfn.org/mailman/listinfo/okfn-br Unsubscribe: https://lists.okfn.org/mailman/options/okfn-br
