Contrastes,meu caro Sarvat.....
Marca registrada da triste �poca que vivemos.
Algo semelhante ao lucro do Banco Itau e o valor pago por procedimentos m�dicos feitos pelos convenios.
Os sonhos de nossas infancias,que nos fizeram m�dicos,tornaram-se pesadelos de nossa vida adulta.
Enfim,se o presente est� de cabe�a para baixo,talvez o futuro esteja de cabe�a para cima.
Esperan�a......
Um abra�o,Teeve
----- Original Message -----
Sent: Wednesday, February 16, 2000 8:15 AM
Subject: [otorri.] M�dicos & sociedades doentes

    Aos colegas de grupo, envio texto muito pertinente para n�s, por nossa atividade e pela estanha sociedade em que vivemos. Serve, a meu ver, de �nimo para quem acha que ningu�m percebe o que deveria ser priorit�rio. 
    E � com muito orgulho (que �s vezes falha, ningu�m � perfeito...) que divulgo essas palavras do meu primo Arnaldo Jabor.
    Marcos Sarvat

    Duas  Vidas

    "Ser� que a opini�o  p�blica est� t�o interessada assim na vis�o que Narcisa Tamborindeguy ou Adriane Galisteu tem da vida? A julgar pelo  espa�o que a m�dia dedica a esse tipo de formador (?) de opini�o, o Brasil virou um imenso castelo de Caras. Adriane Galisteu, ap�s o seu casamento rel�mpago, falou �s p�ginas  amarelas de Veja e deu aula magna de insensibilidade, ego�smo e  sinceridade!
    Estranha mistura, mas a mo�a tem raz�o quando se diz sincera. Ela n�o engana, revela-se de corpo (e que corpo!)  inteiro, e o retrato que aparece � assustador!
    Adriane teve uma  inf�ncia atribulada, perdeu o pai aos 15 anos, ainda pobre, e um  irm�o com AIDS quando j� n�o era t�o pobre. "Eu  n�o tinha um tost�o, n�o tinha dinheiro para comprar um  pastel. Meu irm�o estava
doente. Minha m�e ganhava 190 reais do  INSS, meu pai j� tinha morrido. Eu sustentava todo o mundo e n�o  tinha poupan�a alguma."
 
    Pe�o licen�a a Adriane,  mas vou falar de outra inf�ncia triste de mulher, a de Rosa C�lia  Barbosa. Seu perfil - admir�vel - surgiu em reportagem recente da Vejinha  sobre os melhores m�dicos do Rio.
    Alagoana, pequena, 1,50m,  come�ou a sua odiss�ia aos sete anos, largada num orfanato em  Botafogo (RJ). Rosa chorou durante meses. "Toda a mulher de saia eu achava  que era a minha m�e que vinha me buscar, depois de um tempo  desisti...".
    Voltemos a Adriane. Ela � rica, bem sucedida, e  "nem na metade da escada ainda". A escada, boa imagem para  algu�m que - como uma Scarlet O'Hara de tempos neoliberais - resolveu que  nunca mais vai passar fome. At� a�, tudo bem; mas �  desconcertante ver como o sofrimento pode levar � total insensibilidade.  Pergunta a rep�rter a Adriane se ela faria algo para o bem do outro:
    " Para o bem do outro? N�o,  s� fa�o pelo meu bem. Essa coisa de dar sem cobrar, dar sem pedir  n�o existe. Depois, voc� acaba jogando isso na cara do outro.
     Voc� nunca cede ent�o?
     Cedo, claro que cedo. J� cedi em  coisas que n�o afetam a minha vida. Ele gosta de dormir em len�ol  de linho e eu gosto de dormir em len�ol de seda. A� d� pra  ceder...
    Rosa C�lia fez vestibular de medicina, morava de favor  num quartinho e trabalhava para manter-se. Formou-se e resolveu dedicar-se  � cardiologia neonatal e infantil, quando trabalhava no Hospital da  Lagoa.
    Sem saber ingl�s, meteu na cabe�a que teria que  estudar no National Heart Hospital, em Londres, com Jane Sommerville, a maior  especialista mundial na �rea. Estudou ingl�s e conseguiu uma bolsa  e uma carta da Dra.Sommerville.
    Em Londres era gozada pelos colegas  ingleses por causa de seu ingl�s jeca. Ganhou o respeito geral  quando acertou um diagn�stico dif�cil numa escocesa, ap�s  examin�-la por oito horas seguidas. "Ela falava um ingl�s ainda pior do que o meu", lembra divertida.
 
    Adriane est� rica  mas nao confia em ningu�m, salvo na m�e. Nem nos amigos. Vejam:  "Eu nao posso sair confiando nas pessoas. N�o tenho motorista, nem seguran�a, por isso mesmo. � mais gente para te trair. Eu confio  mais nos bichos do que nas pessoas. Ainda existem pessoas que acham que eu tenho amn�sia. Muitas das que convivem comigo hoje j� me viraram a cara  quando estava por baixo. Mas voc� pensa que eu as trato mal? Trato com a  maior naturalidade. Porque elas podem at� me usar, mas eu vou  us�-las tamb�m. � uma troca."
    De Londres, Rosa  C�lia ia direto para Houston, nos Estados Unidos.Fora escolhida para a  Meca da cardiologia mundial. Futuro brilhante a aguardava.Uma gravidez  inesperada atrapalhou o sonho. Pediu 24 horas para pensar e optou pelo filho, voltando ao Rio. Reassumiu seu cargo no Hospital da Lagoa e abriu  consult�rio, mas todos os anos viaja para estudar. Passa pelo menos um m�s no Children's Hospital em Boston, trabalhando 12 horas por  dia.
    Voc� gosta de dinheiro (Adriane)?
     Adoro dinheiro e detesto hipocrisia. Gasto, gosto de gastar, gosto de nao fazer conta, de viajar  de primeira classe. Tem gente que fala: esse dinheiro que ganhei eu vou doar. O  meu eu nao d�o n�o. O meu eu d�o � para a minha conta. Eu adoro fazer o bem, mas tamb�m tenho minhas prioridades: minha casa, minha fam�lia. Primeiro vou ajudar quem est� mais pr�ximo. Mas fa�o minhas campanhas beneficentes.
    Rosa chefia um centro sofisticad�ssimo, a cardiologia pedi�trica do Pr�-Card�aco. L� s�o tratados casos limite, hist�rias tristes... O hospital � privado e car�ssimo, mas ela achou um  jeito de operar ali crian�as sem posses. Criou uma ONG, passa o chap�u, fala com amigos, empres�rios. O Projeto Pr�-Crian�a j� atendeu mais de 500, e 120 foram operadas. "Sonhei a vida inteira e fiz. N�o importou ser pobre, mulher, baixinha e  alagoana. Eu fiz."
    Voltemos a Adriane e esbarraremos, brutalmente,  na frustra�ao: "J� tive vontade de viajar e n�o podia.  Queria ter carro e n�o tinha. Eu queria ter feito faculdade e n�o  tive dinheiro. N�o que eu sinta falta de livros, porque livro a gente  compra na esquina, e conhecimento a gente adquire na vida. Eu sinto falta de  contar para os amigos essas hist�rias que todo o mundo tem, do tempo da  faculdade".
    Duas vidas, dois perfis fora da normalidade, mat�ria-prima dos �rg�os de`imprensa. Mas qual � o  mais valorizado pela m�dia hoje em dia? � f�cil constatar e chegar � conclusao de que h� algo muito errado com a nossa  sociedade. Pode ser at� que o leitor tenha interesse m�rbido em saber o que as louras e morenas burras ou muito espertas andem fazendo, mas a  m�dia nao deve limitar-se a refletir e a conformar-se com a
mediocridade, o vazio, o oportunismo e a falta de �tica. Os �rg�os de imprensa devem ter um papel transformador na sociedade e, nesse sentido, estar�amos melhor servidos se houvesse mais Rosa C�lias nos  jornais, nas revistas e TVs que nos cercam.
    Voltando ao castelo de Caras, as belas Adrianes, Narcisas, Lucianas, Suzanas ou Carlas, certamente  encontrar�o l� um espelho m�gico. Se for mesmo m�gico dir� que Rosa C�lia � mais bela do que todas voc�s.
    Arnaldo Jabor
 

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