Caríssimo Marcos,
 
Mais uma vez vc nos brinda com um texto formidável. Se este grupo de discussão é interessante, vc o tem tornado mais ainda com essas suas intervenções.
 
Avbraços,
 
Silvio Caldas.
-----Mensagem original-----
De: Marcos Sarvat <[EMAIL PROTECTED]>
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Data: Quarta-feira, 16 de Fevereiro de 2000 8:23
Assunto: [otorri.] Médicos & sociedades doentes

    Aos colegas de grupo, envio texto muito pertinente para nós, por nossa atividade e pela estanha sociedade em que vivemos. Serve, a meu ver, de ânimo para quem acha que ninguém percebe o que deveria ser prioritário. 
    E é com muito orgulho (que às vezes falha, ninguém é perfeito...) que divulgo essas palavras do meu primo Arnaldo Jabor.
    Marcos Sarvat

    Duas  Vidas

    "Será que a opinião  pública está tão interessada assim na visão que Narcisa Tamborindeguy ou Adriane Galisteu tem da vida? A julgar pelo  espaço que a mídia dedica a esse tipo de formador (?) de opinião, o Brasil virou um imenso castelo de Caras. Adriane Galisteu, após o seu casamento relâmpago, falou às páginas  amarelas de Veja e deu aula magna de insensibilidade, egoísmo e  sinceridade!
    Estranha mistura, mas a moça tem razão quando se diz sincera. Ela não engana, revela-se de corpo (e que corpo!)  inteiro, e o retrato que aparece é assustador!
    Adriane teve uma  infância atribulada, perdeu o pai aos 15 anos, ainda pobre, e um  irmão com AIDS quando já não era tão pobre. "Eu  não tinha um tostão, não tinha dinheiro para comprar um  pastel. Meu irmão estava
doente. Minha mãe ganhava 190 reais do  INSS, meu pai já tinha morrido. Eu sustentava todo o mundo e não  tinha poupança alguma."
 
    Peço licença a Adriane,  mas vou falar de outra infância triste de mulher, a de Rosa Célia  Barbosa. Seu perfil - admirável - surgiu em reportagem recente da Vejinha  sobre os melhores médicos do Rio.
    Alagoana, pequena, 1,50m,  começou a sua odisséia aos sete anos, largada num orfanato em  Botafogo (RJ). Rosa chorou durante meses. "Toda a mulher de saia eu achava  que era a minha mãe que vinha me buscar, depois de um tempo  desisti...".
    Voltemos a Adriane. Ela é rica, bem sucedida, e  "nem na metade da escada ainda". A escada, boa imagem para  alguém que - como uma Scarlet O'Hara de tempos neoliberais - resolveu que  nunca mais vai passar fome. Até aí, tudo bem; mas é  desconcertante ver como o sofrimento pode levar à total insensibilidade.  Pergunta a repórter a Adriane se ela faria algo para o bem do outro:
    " Para o bem do outro? Não,  só faço pelo meu bem. Essa coisa de dar sem cobrar, dar sem pedir  não existe. Depois, você acaba jogando isso na cara do outro.
     Você nunca cede então?
     Cedo, claro que cedo. Já cedi em  coisas que não afetam a minha vida. Ele gosta de dormir em lençol  de linho e eu gosto de dormir em lençol de seda. Aí dá pra  ceder...
    Rosa Célia fez vestibular de medicina, morava de favor  num quartinho e trabalhava para manter-se. Formou-se e resolveu dedicar-se  à cardiologia neonatal e infantil, quando trabalhava no Hospital da  Lagoa.
    Sem saber inglês, meteu na cabeça que teria que  estudar no National Heart Hospital, em Londres, com Jane Sommerville, a maior  especialista mundial na área. Estudou inglês e conseguiu uma bolsa  e uma carta da Dra.Sommerville.
    Em Londres era gozada pelos colegas  ingleses por causa de seu inglês jeca. Ganhou o respeito geral  quando acertou um diagnóstico difícil numa escocesa, após  examiná-la por oito horas seguidas. "Ela falava um inglês ainda pior do que o meu", lembra divertida.
 
    Adriane está rica  mas nao confia em ninguém, salvo na mãe. Nem nos amigos. Vejam:  "Eu nao posso sair confiando nas pessoas. Não tenho motorista, nem segurança, por isso mesmo. É mais gente para te trair. Eu confio  mais nos bichos do que nas pessoas. Ainda existem pessoas que acham que eu tenho amnésia. Muitas das que convivem comigo hoje já me viraram a cara  quando estava por baixo. Mas você pensa que eu as trato mal? Trato com a  maior naturalidade. Porque elas podem até me usar, mas eu vou  usá-las também. É uma troca."
    De Londres, Rosa  Célia ia direto para Houston, nos Estados Unidos.Fora escolhida para a  Meca da cardiologia mundial. Futuro brilhante a aguardava.Uma gravidez  inesperada atrapalhou o sonho. Pediu 24 horas para pensar e optou pelo filho, voltando ao Rio. Reassumiu seu cargo no Hospital da Lagoa e abriu  consultório, mas todos os anos viaja para estudar. Passa pelo menos um mês no Children's Hospital em Boston, trabalhando 12 horas por  dia.
    Você gosta de dinheiro (Adriane)?
     Adoro dinheiro e detesto hipocrisia. Gasto, gosto de gastar, gosto de nao fazer conta, de viajar  de primeira classe. Tem gente que fala: esse dinheiro que ganhei eu vou doar. O  meu eu nao dôo não. O meu eu dôo é para a minha conta. Eu adoro fazer o bem, mas também tenho minhas prioridades: minha casa, minha família. Primeiro vou ajudar quem está mais próximo. Mas faço minhas campanhas beneficentes.
    Rosa chefia um centro sofisticadíssimo, a cardiologia pediátrica do Pró-Cardíaco. Lá são tratados casos limite, histórias tristes... O hospital é privado e caríssimo, mas ela achou um  jeito de operar ali crianças sem posses. Criou uma ONG, passa o chapéu, fala com amigos, empresários. O Projeto Pró-Criança já atendeu mais de 500, e 120 foram operadas. "Sonhei a vida inteira e fiz. Não importou ser pobre, mulher, baixinha e  alagoana. Eu fiz."
    Voltemos a Adriane e esbarraremos, brutalmente,  na frustraçao: "Já tive vontade de viajar e não podia.  Queria ter carro e não tinha. Eu queria ter feito faculdade e não  tive dinheiro. Não que eu sinta falta de livros, porque livro a gente  compra na esquina, e conhecimento a gente adquire na vida. Eu sinto falta de  contar para os amigos essas histórias que todo o mundo tem, do tempo da  faculdade".
    Duas vidas, dois perfis fora da normalidade, matéria-prima dos órgãos de`imprensa. Mas qual é o  mais valorizado pela mídia hoje em dia? É fácil constatar e chegar à conclusao de que há algo muito errado com a nossa  sociedade. Pode ser até que o leitor tenha interesse mórbido em saber o que as louras e morenas burras ou muito espertas andem fazendo, mas a  mídia nao deve limitar-se a refletir e a conformar-se com a
mediocridade, o vazio, o oportunismo e a falta de ética. Os órgãos de imprensa devem ter um papel transformador na sociedade e, nesse sentido, estaríamos melhor servidos se houvesse mais Rosa Célias nos  jornais, nas revistas e TVs que nos cercam.
    Voltando ao castelo de Caras, as belas Adrianes, Narcisas, Lucianas, Suzanas ou Carlas, certamente  encontrarão lá um espelho mágico. Se for mesmo mágico dirá que Rosa Célia é mais bela do que todas vocês.
    Arnaldo Jabor
 

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