A SOCIEDADE ASSASSINA
Poucos dias depois de um latrocida receber suave pena de
tr�s anos, por um crime horrendo, f�til, contra cidad�o trabalhador e
tradicional de nossa sociedade � beneficiado que foi por sua idade e por um
texto legal no m�nimo permissivo e destoante da realidade �, outro criminoso �
julgado (agora n�o mais por usar uma arma de fogo, mas um ve�culo e uma
atitude anti-social de dirigir em alta velocidade, na contram�o e
perigosamente � atitude, ali�s, da qual sobram exemplos em nossa cidade) e
sentenciado a apenas um ano de pris�o (embora, j� decidido, n�o v� cumpri-la
em decorr�ncia da excessiva delonga da Justi�a, ao julgar tal caso seis anos
depois de ocorrido!). O soberano Tribunal do J�ri entendeu que dito indiv�duo,
mesmo a despeito de todos os agravantes (alta velocidade, dirigir na contram�o
etc.), n�o agiu com dolo, mas apenas com culpa (imprud�ncia, neglig�ncia ou
imper�cia); assim, foi-se uma vida, levianamente ceifada � toa, sem qualquer
penalidade. Dois casos, dentre milhares que transitam em todos os tribunais do
pa�s, permitindo, com suas leves penas e suas decis�es in�cuas, a impunidade
e, por via de conseq��ncia, a multiplica��o incentivada da pr�tica delituosa.
A sociedade em geral �, em suas a��es, criminosa. Mata-se atrav�s da pobreza
impingida a setores marginalizados, enquanto uma insignificante parcela
esbanja riqueza e frivolidade. Mata-se ao cercear-se a educa��o b�sica,
fundamental, ao indiv�duo de menores posses (ou de nenhuma?), condenando-o �
marginalidade, ao sofrimento, � fome, � falta de trabalho, ao limbo social.
Mata-se no tr�nsito, diuturnamente, ao som de pesados roks, regado por farta
bebida e incentivado pela certeza de saber-se que, contra esse tipo de ato,
n�o haver� castigo. Mata-se, lentamente, atrav�s da extors�o silenciosa de
pesadas regras tribut�rias, banc�rias e financeiras em geral. Mata-se mediante
a implementa��o de sistemas de sa�de p�blica falhos, inoperantes, ineptos, mas
arrecadadores de imensas fortunas que fogem pelo ralo da leviandade pol�tica e
governamental. Mata-se por motivo f�til, por briga de galo, por d�vida de R$
10,00, por uma pedra de crack, por 5 gramas de coca�na falsa, por meio metro
de diferen�a em propriedades vizinhas, ou, simplesmente, por mero prazer de
matar. Se a pol�cia mata um assassino, estuprador, latrocida, a sociedade
crucifica o desmando policial, o abuso de autoridade. Se um marginal da pior
esp�cie apanha para dar informa��es, os eternos defensores dos Direitos
Humanos se pronunciam (embora, s� o fa�am quando o alvo � um marginal, n�o
quando a v�tima � um cidad�o decente, ordeiro, trabalhador). Se o fac�nora
mata um policial, um �brilhante� advogado ir� salva-lo de uma puni��o mais
extrema, e, talvez, um corpo de jurados mais condescendente acabe por entender
que �o fac�nora n�o teve inten��o de matar�, aliviando a pena. A sociedade �
assassina em muitas de suas a��es, mesmo que veladas ou travestidas de postura
comportamental sadia, obediente, profissional, ou seja, l� qual for o adjetivo
que se lhe queira dar. A sociedade � assassina ao vender seu voto; ao dar
esmola (ao inv�s de trabalho); ao se omitir, quando teria que reclamar; ao se
esconder, quando teria que denunciar; ao mentir, quando a verdade viria em
benef�cio de outrem e qui�� evitasse uma trag�dia, ou, no m�nimo, minorasse as
dores de outro algu�m; ao inocentar, quando deveria condenar (e vice-versa);
ao individualizar seus interesses, quando deveria ver o coletivo como
priorit�rio. A sociedade �, em suma, seu pr�prio e implac�vel algoz, numa
situa��o bizarra de conv�vio que, certamente, nem o mais brilhante soci�logo
saberia explicar.