A história de uma criança que
matou
Jornalista investiga em livro a vida de
Mary Bell, inglesa condenada à prisão perpétua, aos 11 anos de idade, pelo
assassinato de dois meninos
Se a multiplicação dos casos de crimes
brutais envolvendo jovens tem colocado a sociedade em estado de perplexidade, o
que dizer quando os réus envolvidos nem sequer chegaram à adolescência. Um dos
episódios mais marcantes desta natureza ocorreu na primavera de 1968, quando
causou alvoroço na Inglaterra o assassinato de dois meninos, de três e quatro
anos de idade, por Mary Bell (11 anos) e Norma Bell (13 anos). O rumoroso
acontecimento, ocorrido na pequena cidade de Newscastle, foi relatado
minuciosamente no livro Gritos no vazio, da escritora e jornalista Gitta Sereny,
lançado no Brasil no final do ano passado.
Sereny acompanhou o julgamento e a condenação à prisão perpétua de Mary
Bell num tribunal de adultos, durante nove dias do mês de dezembro de 1968. Em
seguida, investigou sua vida como detenta, a liberdade condicional, obtida em
1983, e a vida da mulher, já adulta e casada, após todos os fatos. Além de
revelar a tragédia que envolveu a menina e suas vítimas, a jornalista procura
analisar a postura do sistema judicial britânico quando os réus em questão são
crianças.
Discernimento
Em
suas considerações, a autora se mostra convicta de que pessoas com menos de 12
anos de idade "não têm necessariamente o mesmo discernimento que adultos com
relação ao bem e ao mal, verdades e inverdades e, certamente, quanto à morte". O
que não significa, apressa-se em ressalvar, que intencione oferecer uma desculpa
para crianças que cometem crimes violentos. "Mesmo que não saibam de fato a
extensão do erro que cometem, elas sempre sabem que estão fazendo algo de
errado", afirma em um dos trechos do livro. Com base em seu estudo, Sereny crê
firmemente que em tais casos deve-se antes de tudo procurar compreender com
profundidade a vida pregressa do acusado, mas nunca abdicando da punição. "Causa
e efeito é a lógica do mundo e as crianças devem aprender isso",
explica.
Somente na Inglaterra, desde o caso de Mary Bell, outras cinco crianças
se envolveram em crimes de homicídio e, recentemente, dois garotos, de 11 e 13
anos, foram acusados de estuprar uma menina de nove no banheiro da escola.
Sereny cita também episódios acontecidos fora das fronteiras inglesas: ela faz
alusão ao polêmico massacre comandado por meninos de 11 e 13 anos, no Estado de
Arkansas (EUA). Após invadir o pátio de seu colégio munidos de um verdadeiro
arsenal, eles mataram quatro alunas e uma professora, além de ferir 11 outros
jovens.
A
jornalista constata ainda que, talvez pelo crescimento no número de casos, o
índice de meninas e meninos submetidos a tribunais de adultos tem crescido muito
nos últimos 30 anos. E justificado a adoção da tese da diminuição da idade da
responsabilidade penal. Países escandinavos consideram a idade de 15 anos; na
Alemanha, o mínimo é de 14; na França, 13; e, na Holanda, 12. Nos EUA, varia, de
acordo com o estado, entre 11 e 14 anos.
Sereny, porém, apóia o relatório formulado por uma comissão de seis
especialistas britânicos, ligados às áreas de Justiça e psiquiatria, cujas
conclusões indicam que:
- crianças com idade inferior a 14 anos não deveriam
ser levadas a julgamentos públicos em tribunais
adultos;
- os casos devem ser ouvidos por um grupo de
magistrados, e não por um júri;
- a sentença de prisão perpétua para pessoas entre
10 e 18 anos condenadas por assassinato deve ser
abolida;
- crianças consideradas culpadas de homicídio devem
ficar detidas em uma unidade de segurança para jovens transgressores, e não
transferidos para uma prisão de adultos.
Quando apresenta suas conclusões sobre a crescente seqüência de casos, a
avaliação da escritora vai ao encontro da opinião do psiquiatra forense Sander
Fridman. "São uma conseqüência de pressões sofridas por muito tempo, que, enfim,
levam a criança a um ponto de ruptura. Não se pode, porém, desvincular o aumento
desses crimes das mudanças ocorridas na sociedade. As incertezas quanto aos
nossos valores morais e espirituais têm causado uma quebra da redoma de
segurança na qual gerações anteriores protegiam as suas crianças de um
crescimento prematuro", considera. (M.M.)
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