Celso Galli Coimbra, quem nem tem argumento usa de fal�cias. Lei abaixo, publicado ontem:http://www.tribunadaimprensa.com.br.Cuba como refer�ncia de dignidade nacionalUm espet�culo de dignidade, um exemplo para os que se acovardam � primeira careta do sistema internacional. Esta a li��o que registro ao retornar de uma viagem de seis dias a Havana, a convite da Assembl�ia Nacional Popular de Cuba, em companhia de outros parlamentares fluminenses de diversos partidos, inclusive do PFL e do PSDB. E curiosamente sem a presen�a de um s� representante do PT, que sempre fez quest�o de visitar a ilha rebelde. Esses dias de intensa atividade, que me fizeram mergulhar nos perigosos novos desafios da revolu��o cubana, me proporcionaram elementos de ju�zos n�o apenas sobre a gin�stica e os �xitos do governo de Fidel Castro, mas tamb�m, por ila��o, sobre a pr�pria realidade brasileira. Porque ao retornar ao Brasil, ap�s seis dias fora, fui tomado por uma sensa��o de p�nico: o governo do presidente Lula vai de mal a pior e, dominado pelo imobilismo e a incompet�ncia, est� se perdendo na reprise da mesma ladainha do seu antecessor, com os agravantes do seu envelhecimento. Os jornais de domingo, tanto de S�o Paulo como do Rio de Janeiro, falam de um clima de iminente crise institucional. Li mat�rias, inclusive, lembrando os dias que levaram � deposi��o do presidente Jo�o Goulart. E fiquei perplexo com o bate-boca entre petistas sobre mais um gesto infeliz - a utiliza��o da trucul�ncia policial na rela��o com os descontentes, expediente que, por si, desqualifica qualquer governo que se pretende popular, democr�tico e progressista. Mais uma li��oAntes de fazer esta que foi minha quarta viagem a Cuba desde o triunfo de sua revolu��o, tive muitas d�vidas se era o caso de ausentar-me do Pa�s, at� porque tamb�m tenho um programa di�rio de r�dio com o mesmo esp�rito de combate e a participa��o direta dos ouvintes. Agora, h� poucas horas do retorno, digo que essa ida foi a melhor coisa que poderia fazer. Eu tamb�m precisava aprender mais sobre a arte de governar um pa�s em confronto desigual com a maior pot�ncia do mundo, aquela que em tr�s semanas derrubou um regime de apelo popular e mant�m acuados os outros, que tremem nas bases a um simples mau olhado de seus governantes. N�o estou aqui para tecer loas a Fidel Castro ou para alardear deslumbramentos sobre seu desempenho. A vida me ensinou a conservar uma prud�ncia cr�tica sobre tudo, de forma a medir cada palavra, considerando a responsabilidade de quem exerce algum tipo de influ�ncia sobre a opini�o p�blica. Mas � justo que eu diga, como testemunha ocular dos fatos, que o governo revolucion�rio de Cuba, ao contr�rio do que propalam as cassandras, est� vencendo a mais enigm�tica de suas batalhas: apesar do bloqueio impiedoso capitaneado pelos Estados Unidos, agravado com o desaparecimento dos seus aliados do campo socialista, com os quais mantinha 87% de sua rela��o comercial, favorecida por imperativos pol�ticos, a economia cubana refloresce com a reativa��o de seu potencial tur�stico e a reavalia��o de suas rela��es com os pa�ses capitalistas da Europa. Essa repactua��o acontece sem comprometer a proposta central da revolu��o, por conta de uma op��o estrat�gica que torna Cuba praticamente invulner�vel: o investimento na educa��o, que significa eleva��o do n�vel de conhecimento do seu povo, � sua maior cidadela. Hoje, com todas as dificuldades, que quase estrangulavam seu povo, Cuba exibe os mais alentadores �ndices de escolaridade do mundo: n�o tem um �nico analfabeto, seus cidad�os t�m no m�nimo a nona s�rie e uma boa parte da popula��o tem n�vel universit�rio. Gra�as � prioridade na educa��o, Cuba registra hoje uma rela��o de 1 professor para cada 15 alunos no ensino m�dio. Esse �ndice � quase o dobro da m�dia dos pa�ses desenvolvidos, inclusive os Estados Unidos e a Europa. Para uma popula��o de 11 milh�es de habitantes, conta com 22 faculdades de Medicina p�blicas e gratuitas, espalhadas por suas 14 prov�ncias, garantindo a maior rela��o entre m�dicos e popula��o: para cada 30 habitantes, h� um m�dico, que presta servi�o a todos os cidad�os, balizando uma pol�tica de sa�de corajosa, com recursos que se refletem num dos mais baixos �ndices de mortalidade infantil do mundo, numa expectativa de vida de 79 anos e numa cobertura de saneamento b�sico para toda a popula��o. Uma pol�tica que concentrou seus investimentos no homem criou uma esp�cie de defesa p�trea contra a maior guerra j� patrocinada pelos Estados Unidos: durante os 44 anos de revolu��o, o gigante que controla "o mercado" e faz amarelar os governos sa�dos de um discurso de esperan�as tem sido derrotado rotineiramente pelo povo da pequena ilha. Al�m de investir milh�es no patroc�nio ostensivo da contra-revolu��o, al�m de tentar forjar "dissidentes" e de envolver outros pa�ses na sua "cruzada", os norte-americanos recorreram at� � guerra bacteriol�gica, conforme den�ncias formuladas por Havana aos organismos internacionais. Numa delas, quase foram dizimados todos os su�nos do pa�s, e a carne de porco, diante da crise de abastecimento, � fundamental na alimenta��o de sua popula��o. Foi exatamente por acreditar no seu potencial humano que Cuba est� saindo da mais terr�vel de suas dificuldades, o "per�odo especial", que se seguiu ao fim da Uni�o Sovi�tica, respons�vel pelo abastecimento de petr�leo, pela compra de toda a safra de a��car e pelas rela��es comerciais que impediam o colapso imaginado pelos estrategistas do bloqueio econ�mico. Nos anos 90, Cuba ficou praticamente a p� e submetida a "apag�es" decorrentes da sua depend�ncia de combust�vel importado. Al�m disso, com a queda dos pre�os do a��car no mercado internacional e os problemas na ind�stria a�ucareira, o pa�s ficou sem meios de gerar as divisas necess�rias para redirecionar suas rela��es externas em condi��es favor�veis. Para qualquer economista, ortodoxo ou n�o, Cuba estava numa "sinuca de bico" da qual n�o poderia escapar. Os norte-americanos se ouri�aram, recrudesceram o investimento nos advers�rios internos e externos da revolu��o e calcularam que em pouco tempo voltariam ao controle da ilha. Gra�as a uma for�a m�gica produzida pelos anos de revolu��o, o sentimento patri�tico alimentado pela certeza de que a lideran�a tinha um compromisso f�rreo com a sorte do seu povo, a educa��o e a transpar�ncia na distribui��o do sacrif�cio, Cuba suportou priva��es para al�m dos limites imaginados. Durante um per�odo, foi uma popula��o de ciclistas - mais de um milh�o de bicicletas passaram a ser meio de transporte dos cidad�os e os transportes coletivos tiveram de ser adaptados -, um ve�culo com capacidade para 300 passageiros, conhecido como "camelo" ainda serve �s cidades do pa�s, que ainda tem nos transportes coletivos suas maiores defici�ncias. Pode ser que eu tenha que falar muito a respeito de Cuba e das proezas do seu povo. Haja espa�o, at� porque tenho compromissos com nossas pr�prias causas imediatas. No entanto, a enuncia��o dos "milagres" de sua revolu��o me parece cair como uma luva para que possamos cobrar de todos os governantes deste in�cio de s�culo a prioriza��o dos interesses nacionais, independente da cartilha do FMI. Ao transmitir minhas impress�es de Cuba, o fa�o como um observador privilegiado. Fui a Havana pela primeira vez em 1960, quando tinha 17 anos e era dirigente estudantil. Em 1961, j� rep�rter de "Ultima Hora" e de "O Dia", larguei tudo e fui trabalhar na R�dio Havana, onde dirigi o seu Departamento de L�ngua Portuguesa. Tendo voltado ao Brasil em 1962, visitei a ilha novamente em 1986. Esse contato com o povo cubano talvez tenha sido um dos grandes segredos da minha f� na capacidade de sobreviv�ncia da dignidade e da soberania dos povos conduzidos por lideran�as firmes. � como se atrav�s de Cuba tenha ganho pessoalmente muitas sobrevidas. 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