Governo sem controle
Cl�udio Baldino Maciel
Presidente da AMB


 

 
 
Segunda-feira, 22 de Mar�o de 2004
 
Folha de S. Paulo publica artigo de presidente da AMB 
 
    O jornal Folha de S. Paulo publicou
hoje (22/03) artigo do presidente da AMB,
desembargador Cl�udio Baldino Maciel, sobre
o controle externo do Poder Judici�rio.
Veja a �ntegra do artigo abaixo:
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=Governo sem controle=

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CL�UDIO BALDINO MACIEL
 

   S� ing�nuos acreditam que o governo escolheu
o controle externo como reforma pol�tica fundamental
com o fim de aprimorar o Poder Judici�rio.
O objetivo � bem outro. Trata-se de um primeiro
passo para redimensionar os Poderes da Rep�blica,
aumentando o tamanho do Executivo e diminuindo
o do Judici�rio, de tal forma que seja este menos
capaz de impedir o desrespeito do governo �s leis
e � Constitui��o Federal, j� que o Legislativo, ap�s
a cria��o das medidas provis�rias e das maiorias
congressuais constru�das com favores pol�ticos
e enquadramento, politicamente encolheu.
 

   O governo brasileiro � exercido sem efetivo
contradit�rio, quase sem oposi��o, amparado
por setores d�ceis da m�dia � custa de cr�ditos
e verbas p�blicas. Para completar o c�rculo da
pot�ncia soberana do Executivo, s� falta governar
com Judici�rio e Minist�rio P�blico atrelados
e politicamente controlados. Estes s�o hoje,
com todas as suas insufici�ncias, a pedra
no sapato de um governo quase imperial. 
 

   O governo brasileiro � exercido sem efetivo
contradit�rio, quase sem oposi��o, amparado
por setores d�ceis da m�dia.
 

   O poder do governo federal nunca foi t�o
grande. Tentando abafar crise �tica e pol�tica
deflagrada por obscuro caso de corrup��o,
o governo n�o somente manejou sem pudor
o Parlamento para impedir investiga��o por CPI,
como praticou manobra diversionista para adotar
agenda positiva. Bingo! Proibiram, num estalar
dos dedos do presidente, uma atividade
at� ent�o considerada l�cita.
 

   Muito al�m de saber que os bingos s�o
prejudiciais ao pa�s, o que importa � que o governo
trata o assunto com oportunismo pol�tico.
Pretendia antes regulamentar, mas proibiu.
Queria ser s�cio da banca, mas a fechou para acabar
com assunto que n�o lhe convinha: investigar os
companheiros. Suprimiu milhares de direitos
e de empregos, tornando do dia para a noite
o l�cito em il�cito, transformando �gua em vinho
ou vice-versa, tudo para tirar da sala o sof�
maculado. Age por vontade soberana e
incontrast�vel, atrav�s de uma �nica canetada,
sem debate, porque o Congresso Nacional, que ali
deveria estar, com quase 600 parlamentares,
exatamente para decidir tais quest�es,
at� agora nem sequer foi ouvido.
 

   N�o houve lei, n�o houve debate parlamentar.
Nada, somente a vontade unipessoal do presidente.
Editou-se, em segundos, medida provis�ria sem
atendimento aos m�nimos requisitos constitucionais
de urg�ncia e relev�ncia. � certo que advir�
rapidamente o �bvio am�m do Parlamento.
Amanh� a mais rasteira conveni�ncia, num novo
piscar de olhos, retransformar� o il�cito em l�cito,
ficando o dito pelo n�o dito. Em vez dos requisitos
constitucionais, presentes s� os pressupostos
do arranjo pol�tico conjuntural. Vivemos,
definitivamente, tempos que lembram
o absolutismo.
 

   � preciso refletir, por um minuto ao menos,
que por motivos outros, mas atrav�s da mesma
forma imperial, poder�o ser suprimidos amanh�
outros direitos essenciais ou at� mesmo os que
estiverem consagrados em decis�o judicial.
Queixar-se a quem? O Judici�rio, por obra do
mesmo governo que quase tudo pode, j� n�o
ser� sombra de poder da Rep�blica e restar�
inapto para cumprir sua fun��o de proteger,
em nome do povo constituinte, os direitos dos
cidad�os contra o abuso e a ilegalidade de
governantes autorit�rios e contra a falta
de quaisquer limites na atua��o dos mercados,
formais ou informais, l�citos ou criminosos.
 
 

   O Executivo, incensado por parcela da m�dia
e empurrado pelo pr�prio perfil messi�nico,
j� estar� com os dois p�s dentro do Judici�rio,
atrav�s do que chamam de controle externo.
Rompida a barreira da independ�ncia dos
Poderes com a cria��o de �rg�o externo de tutela
do Judici�rio, o que se pretende �, em brev�ssimo
tempo, transform�-lo em bra�o do governo,
formado por representantes direta ou
indiretamente por ele indicados.
 
 

   � razo�vel supor que em breve l� ter�o
acento, para demitir ju�zes por meio de r�pidos
processos administrativos, entidades do movimento
social e, quem sabe, do sistema financeiro,
com os aplausos do FMI, j� que a elite econ�mica
nunca esteve t�o pr�xima do poder como do atual
governo neoliberal. E ousem os magistrados julgar
com serenidade uma a��o de reintegra��o de posse
ap�s uma invas�o de terras, ou fixar em sua
decis�o juros menos extorsivos do que os ilegais
praticados por parcela do mercado, ou ainda
colocar na cadeia algum assessor corrupto
instalado no Pal�cio do Planalto.
 
 

   Por tr�s da cortina de fuma�a das reais
e s�rias defici�ncias do Judici�rio, ter-se-� ent�o
consolidado projeto pol�tico muito mais profundo:
o de governar o pa�s com min�sculos limites
constitucionais, ou seja, sem nenhum controle.
 
 

Cl�udio Baldino Maciel, 48, desembargador
do Tribunal de Justi�a do Rio Grande do Sul,
� o presidente da Associa��o
dos Magistrados Brasileiros.

 


 
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