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Jornal do Comércio - Porto Alegre - Opinião
A MORTE
CLÍNICA
Dom Dadeus Grings
Arcebispo metropolitano de Porto
Alegre
Os problemas, que se colocam nos limites, são sempre
mais difíceis de resolver. Mas não é por eles que se podem projetar
soluções para os demais casos. Temos muitas dúvidas acerca de muitas
questões. Isto, porém, não tira o valor das certezas nos demais campos do
saber. Duvidar se o ultra-vírus é ser vivo ou não vivo, não afeta nossas
certezas acerca da existência de seres vivos diferentes dos não-vivos; o fato de
incorrermos em em erros frequentes não invalida a existência de algumas verdades
absolutas e indubitáveis. Um problema que não pode
deixar indiferente a humanidade é o da morte. Ninguém duvida dela. A
dúvida refere-se ao exato momento, tanto do surgimento da vida como da morte,
mais grave quanto implica em medidas a serem tomadas, tanto para preservar a
vida como para dar destino ao cadáver. O senso comum verifica, com
bastante clareza, os casos de morte, após certo período de desenlace. Os
sentidos acusam a partida, tanto pelo tato, como, após algum tempo pelo
olfato. Mas, como neste caso sempre se requer maior segurança, as
sociedades humanas apelam para um atestado médico. Cabe a ele verificar a
morte clínica para se proceder ao sepultamento ou retirada de órgãos.
Mesmo assim, não confia plenamente nesses vereditos. Na Europa, mantêm-se legislações que determinam que o corpo seja
velado, pelo menos, por 48 horas, depois do atestado de morte, antes de se lhe
dar a acomodação definitiva. Neste campo, requer-se absoluta
segurança.
Sabemos que, em tempos idos, se falava muito de morte
aparente e que as pessoas eram enterradas sem estarem realmente mortas.
Houve casos em que alguém pedia que, no caso de morte, antes de lhe dar
sepultura, fosse transpassado seu coração. Mas isto significaria que, se
não estivesse morto, o matassem, para não morrer asfixiado no
sepulcro.
O Professor Herbert Praxedes, da
Faculdade de Medicina da Universidade Federal Fluminense, não aceita o critério
da morte cerebral, como suficientemente comprovada para merecer
credibilidade universal. Além do mais, afirma que não é aplicável a
crianças, abaixo dos dois anos, e menos ainda aos fetos. Estamos aqui no
campo científico. Que os especialistas deste campo se
entendam e forneçam critérios abalizados para proteger a vida contra qualquer
tentativa de frustá-la. A moral nos manda zelar por ela e a
bioética quer garantir-nos o direito de nascer, viver e morrer com
dignidade. Cristo quer que todos tenham vida e vida em
abundância.
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