Publicado no Jornal
do Brasil de
13.01.1998
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EM BUSCA DA
MORTE
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Cícero Galli
Coimbra*
__________________________________________
"Em
1987, o pesquisador e médico californiano
Alan Shewmon qualificou
os procedimentos destinados
a diagnosticar a morte encefálica como
IMORAIS,
pela possibilidade de incluírem pacientes
recuperáveis
entre os caracterizados como
mortos."
__________________________________________Tal
como ocorre, por exemplo,
com um tornozelo contundido, ao sofrer
uma
lesão o cérebro incha progressivamente.
Como se encontra no interior de
uma caixa
óssea rígida (o crânio), o cérebro não encontra
espaço
suficiente para acomodar o volume
adicional provocado pelo inchaço, o
qual é
chamado de edema cerebral pelos médicos.
Assim, em poucas
horas a pressão no interior
do crânio eleva-se, comprimindo os
vasos
sanguíneos e dificultando a circulação.
Ao cair
aproximadamente à metade,
a quantidade de sangue circulante não é
mais
suficiente para sustentar a atividade do cérebro,
mas é ainda
capaz de manter a sua vitalidade.
Em outras palavras, nessa
situação
o cérebro encontra-se inerte, sem função
detectável, mas
ainda vivo.
O indivíduo encontra-se em coma e
seu
eletroencefalograma pode também não mostrar
atividade
elétrica.
Pode ser erradamente diagnosticado como
em estado de
morte cerebral principalmente
se forem utilizados critérios
estabelecidos em 1968,
quando se acreditava que a completa
ausência
das funções neurológicas ao longo de algumas horas
podia
ter como única causa a morte do cérebro.
___
Até há
alguns anos, a medicina não dispunha
de recursos eficazes para o
tratamento do edema
cerebral.
Assim, nos indivíduos portadores
de lesões cerebrais
mais severas, o agravamento do edema
levaria
invariavelmente à piora da deficiência circulatória.
Ao
atingir níveis inferiores a um quinto do normal,
a irrigação sanguínea
passa a ser insuficiente
para manter a vida do tecido cerebral,
levando
à destruição das células nervosas.
As células cerebrais
poderiam sustentar-se vivas
por tempo indefinido recebendo um
volume
de sangue situado entre a metade e um quinto
dos valores
normais.
Infelizmente, no entanto, ao manter-se inativo,
o
cérebro deixa de produzir e liberar na corrente
sanguínea substâncias
que mantêm ativo o coração,
de tal forma que em alguns dias sobrevém a
parada
cardíaca e a morte do indivíduo.
Incompreensivelmente, a
parada do coração
que ocorre somente a esse tempo, tem sido
lembrada
como evidência de que o indivíduo
já se encontraria morto por ocasião
do
desaparecimento dos sinais de atividade neurológica.
Ao
contrário do que esperariam os defensores
dessa hipótese, no entanto,
uma publicação
da mais prestigiosa instituição de saúde
norte-americana
( o NIH ) em 1980, sobre o resultado de 146
autópsias
realizadas nesses pacientes, relatou que diversos
deles
não se encontravam com o cérebro difusamente
destruído, mesmo
por ocasião da parada cardíaca.
Em 1987 o pesquisador e médico
californiano
Alan Shewmon qualificou os procedimentos destinados
a
diagnosticar a morte encefálica como IMORAIS,
pela possibilidade de
incluírem pacientes recuperáveis
entre os caracterizados como
mortos.
__
Em março de 1997, uma alternativa simples
e eficaz
foi demonstrada para solução do problema.
Utilizando um recurso a
que recorre qualquer
desportista ao aplicar bolsas de gelo sobre uma
torção
do tornozelo, um grupo de médicos alemães da
Universidade de
Heidelberg
demonstraram que a redução da temperatura
para 33ºC
instantaneamente normaliza a pressão
no interior do crânio e, ao longo
das horas seguintes,
reduz drasticamente o edema cerebral.
Os
resultados foram tão surpreendentes
que o tratamento encontra-se agora
sendo
instituído dentro das primeiras 6 horas após
a ocorrência da
lesão cerebral, na tentativa
de evitar-se que esses pacientes
atinjam
uma deficiência circulatória suficientemente
grave a ponto
de comprometer a vitalidade do cérebro.
Vítimas de traumatismo
craniano em coma profundo
( Glasgow 3, pupilas dilatadas e sem reação à
luz )
encontram-se reassumindo atividades anteriores
ao acidente DEZ
vezes mais freqüentemente,
graças à redução da
temperatura.
Argumentações apontando tais recursos
como
ainda ``em fase experimental'' perdem
validade em face do próprio
código de ética
médica brasileiro, que faculta aos
médicos
recorrerem a métodos não convencionais
quando não existem
outras alternativas para
salvar a vida do paciente sob seus
cuidados.
___
Essa urgência descobre a
incompatibilidade
entre tentar-se salvar a vida, ou
alternativamente
esforçar-se, laboriosamente, ao longo de
horas,
_*em diagnosticar a morte*_.
Testes como o da
apnéia,
considerados como necessários para o "diagnóstico''
de morte
encefálica, e que preconizam desligar-se
o respirador por DEZ minutos,
claramente podem
reduzir a pressão sanguínea, acentuando a
deficiência
circulatória e determinando, então sim, a
morte das
células cerebrais.
__
Perseguir a morte,
não a
vida,
eis ao que a autoritária e inconstitucional
lei de
transplantes de órgãos induz os médicos
brasileiros, ao
estabelecer
penas pecuniárias
para a instituição hospitalar que não
comunicar
às centrais captadoras de órgãos a presença em
suas
dependências de pacientes com o quadro clínico
de morte
encefálica.
O dilema descobre a face mais cruel do sistema
de
saúde nacional, que não valoriza a eficiência
da prevenção de
doenças.
No Brasil, a causa mais freqüente da
necessidade
de transplante renal e provavelmente cardíaco é
_*a
hipertensão arterial não tratada*_,
que poderia ser eliminada pela
simples orientação médica.
O paciente hipertenso deveria ser
informado
quando às desastrosas conseqüências da suspensão
do
tratamento ou do uso irregular de medicamentos
anti-hipertensivos, que
leva à lenta, progressiva
e silenciosa destruição dos rins e do
coração,
determinando também a ocorrência de casos
graves de
derrames.
Ao contrário, mal preparados por escolas
médicas
deficitárias, premidos por baixos salários e
pela
necessidade de atenderem a múltiplos empregos,
muitos
profissionais dedicam a seus pacientes
apenas o tempo necessário ao
preenchimento
do receituário.
Desatentos à gravidade de sua
situação,
os pacientes suspendem o tratamento após
constatarem que a
pressão normalizou-se com
o uso dos remédios prescritos, julgando-se
curados.
Sem provocar sintomas,
a pressão volta a elevar-se,
reiniciando-se o processo
de destruição dos órgãos internos.
O
signatário deste texto desafia a que se averigúe
qual o percentual dos
pacientes hipertensos
(16 milhões de brasileiros)
sabem que sua
doença pode levá-los
à diálise ou ao
transplante.
Produzimos
CANDIDATOS A RECEPTORES E A
DOADORES,
alimentando continuamente a
dispendiosa necessidade de
transplantes,
mas NENHUM dos envolvidos no sistema nacional
de
captação de órgãos aproveita qualquer oportunidade
oferecida pelos
meios de comunicação para orientar
hipertensos, procurando impedir que
qualquer
das duas filas de desesperançosos
continue a
aumentar.
___
Consultem o site
http://www.epm.br/dneuro/mortencefalica/htm
.
___________________________________
*Médico Neurologista
Phd,
Livre docente, Professor adjunto e
Chefe da Disciplina de
Neurologia Experimental
do Departamento de Neurologia
e
Neurocirurgia da
UNIFESP
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Saiba mais
sobre os erros declaratórios da
morte encefálica em:
www.biodireito-medicina.com.br
http://www.uol.com.br/cienciahoje/chmais/pass/ch161/morte.pdfhttp://www.epm.br/dneuro/mortencefalica.htmhttp://www.epm.br/dneuro/apnea.htmhttp://www.epm.br/dneuro/opinioes.htmhttp://www.epm.br/dneuro/brdeath.htmlhttp://www.epub.org.br/bjmbr/year1999/v32n12/3633c.htmhttp://www.bmj.com/cgi/eletters/320/7244/1266http://www.uol.com.br/cienciahoje/chmais/pass/ch161/morte.pdf____________________________________________