Transplantes -- Em busca da morte: Jornal do Brasil de 13.01.1998
_________________________
De:  "Celso Galli Coimbra"
Data:  Qui Ago 16, 2001  10:53 am
Assunto:  Transplantes -- Em busca da morte: Jornal do Brasil -- 13.01.1998

Publicado no Jornal
do Brasil de 13.01.1998
___________________

EM BUSCA DA MORTE
___________________

Cícero Galli Coimbra*

__________________________________________

"Em 1987,  o pesquisador e médico californiano
Alan Shewmon qualificou os procedimentos destinados
a diagnosticar a morte encefálica como IMORAIS,
pela possibilidade de incluírem pacientes recuperáveis
entre os caracterizados como mortos."
__________________________________________



Tal como ocorre, por exemplo,
com um tornozelo contundido, ao sofrer
uma lesão o cérebro incha progressivamente.
Como se encontra no interior de uma caixa
óssea rígida (o crânio), o cérebro não encontra
espaço suficiente para acomodar o volume
adicional provocado pelo inchaço, o qual é
chamado de edema cerebral pelos médicos.

Assim, em poucas horas a pressão no interior
do crânio eleva-se, comprimindo os vasos
sanguíneos e dificultando a circulação.

Ao cair aproximadamente à metade,
a quantidade de sangue circulante não é mais
suficiente para sustentar a atividade do cérebro,
mas é ainda capaz de manter a sua vitalidade.

Em outras palavras, nessa situação
o cérebro encontra-se inerte, sem função
detectável, mas ainda vivo.

O indivíduo encontra-se em coma e seu
eletroencefalograma pode também não mostrar
atividade elétrica.

Pode ser erradamente diagnosticado como
em estado de morte cerebral principalmente
se forem utilizados critérios estabelecidos em 1968,
quando se acreditava que a completa ausência
das funções neurológicas ao longo de algumas horas
podia ter como única causa a morte do cérebro.

___


Até há alguns anos, a medicina não dispunha
de recursos eficazes para o tratamento do edema
cerebral.

Assim, nos indivíduos portadores de lesões cerebrais
mais severas, o agravamento do edema levaria
invariavelmente à piora da deficiência circulatória.

Ao atingir níveis inferiores a um quinto do normal,
a irrigação sanguínea passa a ser insuficiente
para manter a vida do tecido cerebral, levando
à destruição das células nervosas.

As células cerebrais poderiam sustentar-se vivas
por tempo indefinido recebendo um volume
de sangue situado entre a metade e um quinto
dos valores normais.

Infelizmente, no entanto, ao manter-se inativo,
o cérebro deixa de produzir e liberar na corrente
sanguínea substâncias que mantêm ativo o coração,
de tal forma que em alguns dias sobrevém a parada
cardíaca e a morte do indivíduo.

Incompreensivelmente, a parada do coração
que ocorre somente a esse tempo, tem sido
lembrada como evidência de que o indivíduo
já se encontraria morto por ocasião do
desaparecimento dos sinais de atividade neurológica.

Ao contrário do que esperariam os defensores
dessa hipótese, no entanto, uma publicação
da mais prestigiosa instituição de saúde norte-americana
( o NIH ) em 1980, sobre o resultado de 146 autópsias
realizadas nesses pacientes, relatou que diversos deles
não se encontravam com o cérebro difusamente
destruído, mesmo por ocasião da parada cardíaca.

Em 1987 o pesquisador e médico californiano
Alan Shewmon qualificou os procedimentos destinados
a diagnosticar a morte encefálica como IMORAIS,
pela possibilidade de incluírem pacientes recuperáveis
entre os caracterizados como mortos.
__

Em março de 1997, uma alternativa simples
e eficaz foi demonstrada para solução do problema.

Utilizando um recurso a que recorre qualquer
desportista ao aplicar bolsas de gelo sobre uma torção
do tornozelo, um grupo de médicos alemães da
Universidade de Heidelberg
demonstraram que a redução da temperatura
para 33ºC instantaneamente normaliza a pressão
no interior do crânio e, ao longo das horas seguintes,
reduz drasticamente o edema cerebral.

Os resultados foram tão surpreendentes
que o tratamento encontra-se agora sendo
instituído dentro das primeiras 6 horas após
a ocorrência da lesão cerebral, na tentativa
de evitar-se que esses pacientes atinjam
uma deficiência circulatória suficientemente
grave a ponto de comprometer a vitalidade do cérebro.

Vítimas de traumatismo craniano em coma profundo
( Glasgow 3, pupilas dilatadas e sem reação à luz )
encontram-se reassumindo atividades anteriores
ao acidente DEZ vezes mais freqüentemente,
graças à redução da temperatura.


Argumentações apontando tais recursos
como ainda ``em fase experimental'' perdem
validade em face do próprio código de ética
médica brasileiro, que faculta aos médicos
recorrerem a métodos não convencionais
quando não existem outras alternativas para
salvar a vida do paciente sob seus cuidados.
___

Essa urgência descobre a incompatibilidade
entre tentar-se salvar a vida, ou alternativamente
esforçar-se, laboriosamente, ao longo de horas,

_*em diagnosticar a morte*_.


Testes como o da apnéia,
considerados como necessários para o "diagnóstico''
de morte encefálica, e que preconizam desligar-se
o respirador por DEZ minutos, claramente podem
reduzir a pressão sanguínea, acentuando a deficiência
circulatória e determinando, então sim, a
morte das células cerebrais.
__

Perseguir a morte,
não a vida,

eis ao que a autoritária e inconstitucional
lei de transplantes de órgãos induz os médicos
brasileiros, ao estabelecer
penas pecuniárias
para a instituição hospitalar que não comunicar
às centrais captadoras de órgãos a presença em suas
dependências de pacientes com o quadro clínico
de morte encefálica.

O dilema descobre a face mais cruel do sistema
de saúde nacional, que não valoriza a eficiência
da prevenção de doenças.

No Brasil,  a causa mais freqüente da necessidade
de transplante renal e provavelmente cardíaco é
_*a hipertensão arterial não tratada*_,
que poderia ser eliminada pela simples orientação médica.

O paciente hipertenso deveria ser informado
quando às desastrosas conseqüências da suspensão
do tratamento ou do uso irregular de medicamentos
anti-hipertensivos, que leva à lenta, progressiva
e silenciosa destruição dos rins e do coração,
determinando também a ocorrência de casos
graves de derrames.


Ao contrário, mal preparados por escolas médicas
deficitárias, premidos por baixos salários e pela
necessidade de atenderem a múltiplos empregos,
muitos profissionais dedicam a seus pacientes
apenas o tempo necessário ao preenchimento
do receituário.

Desatentos à gravidade de sua situação,
os pacientes suspendem o tratamento após
constatarem que a pressão normalizou-se com
o uso dos remédios prescritos, julgando-se curados.

Sem provocar sintomas,
a pressão volta a elevar-se, reiniciando-se o processo
de destruição dos órgãos internos.

O signatário deste texto desafia a que se averigúe
qual o percentual dos pacientes hipertensos
(16 milhões de brasileiros)
sabem que sua doença pode levá-los
à diálise ou ao transplante.

Produzimos
CANDIDATOS A RECEPTORES E A DOADORES,
alimentando continuamente a
dispendiosa necessidade de transplantes,
mas NENHUM dos envolvidos no sistema nacional
de captação de órgãos aproveita qualquer oportunidade
oferecida pelos meios de comunicação para orientar
hipertensos, procurando impedir que qualquer
das duas filas de desesperançosos
continue a aumentar.
___

Consultem o site

http://www.epm.br/dneuro/mortencefalica/htm .

___________________________________

*Médico Neurologista Phd,
Livre docente, Professor  adjunto e
Chefe da Disciplina de Neurologia Experimental
do Departamento de Neurologia
e Neurocirurgia da UNIFESP
___________________________________________

Saiba mais sobre os erros declaratórios da
morte encefálica em:
www.biodireito-medicina.com.br
http://www.uol.com.br/cienciahoje/chmais/pass/ch161/morte.pdf
http://www.epm.br/dneuro/mortencefalica.htm
http://www.epm.br/dneuro/apnea.htm
http://www.epm.br/dneuro/opinioes.htm
http://www.epm.br/dneuro/brdeath.html
http://www.epub.org.br/bjmbr/year1999/v32n12/3633c.htm
http://www.bmj.com/cgi/eletters/320/7244/1266
http://www.uol.com.br/cienciahoje/chmais/pass/ch161/morte.pdf
____________________________________________
-----------------------------------
Endereços da lista:
Para entrar: [EMAIL PROTECTED]
Para sair: [EMAIL PROTECTED]
-----------------------------------




cancelar assinatura - página do grupo

Responder a