A Outra
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Luis Fernando Veríssimo

O problema era que ela era irresistível quando acordava. Tinha até um
cheiro diferente, que desaparecia no resto do dia. Um cheiro morno.
Cheiro de leite morno, era isso. Com um inexplicável toque de
baunilha. Muitas vezes ele acordava a mulher, cheirando-a. Ela
despertava com ele farejando entre os seus seios, ou tentando enterrar
o nariz entre a sua cabeça e o travesseiro para cheirar a nuca, onde
descobrira traços de amêndoa. Ela dizia "O que é isso, João?!" E ele:
"Estou te cheirando há meia hora." E ela: "Pois pode parar."

O problema era que ela acordava de mau humor. Quente, cheirosa,
apetitosa e emburrada. Nem deixava ele beijá-la na boca. "Eu ainda não
escovei os dentes!" E se ele tentasse beijar o seu umbigo
(noz-moscada, possivelmente canela) ela lhe dava um chute. E não eram
só os cheiros. Ela acordava fisicamente diferente. A cara
maravilhosamente inchada, a boca entumecida, como a de certas meninas
de Renoir. No resto do dia ia alongando-se, modiglianizando-se, mas de
manhã era uma camponesa compacta, com fantásticas olheiras roxas. Ele
não sabia explicar. Ela era uma mulher delgada, de pernas compridas,
mas de manhã tinha as pernas grossas. As coxas eram cobertas com uma
leve penugem loira que de noite ela não tinha. E ou ele muito se
enganava ou até a bunda ela perdia, de dia. A bunda. As nádegas
redolentes.

- Mmmmm... Ervas aromáticas. Um que de sândalo...

- Pá-ra.

Todas as noites, ela preparava-se para a cama com um ritual. Depois do
banho, colocava a camisola transparente e vestia meias pretas, só para
poder tirar as ligas e as meias na frente dele porque achava que ele
gostava. Ele sorria sem vontade, da cama, não querendo dizer que
aquilo não lhe causava a menor impressão, que gostava mesmo era quando
ela acordava de manhã com a camisola toda torta, com uma alça
enroscada nas pernas, nas doces pernocas matinais. Não queria estragar
o seu ritual, mas de noite o emburrado era ele. Ela ficava deitada ao
seu lado, o penteado perfeito, um meio sorriso paciente nos lábios,
esperando. Cheirando a sabonete e esperando.

- Você ainda vai ler por muito tempo?

- Ahn.

"Ahn" não queria dizer nem sim nem não. Queria dizer "Ahn". Ela
tentava começar uma brincadeira, cutucando-o com o pé. Inventava
canções que cantarolava no seu ouvido - "Ele não me quer, ai, ele não
me quer". Ou fingia que se interessava pelo livro.

"Tem sacanagem?" Ele acabava cedendo, só para fazê-la parar. Ou
continuava lendo até que ela desistisse e dormisse. Não queria nada
com aquela pessoa que virava as pestanas antes de ir para a cama.
Queria era a camponesa da manhã. Sonhava com a sua camponesa irritada.

De manhã era ele que insistia. "Deixa. Só um pouquinho..." Ela
afastava a cabeça dele. "Não, já disse!" Ele só queria passar a ponta
do nariz pelo trigal das suas coxas, só isso. Ela não deixava.
Precisava levantar, escovar os dentes, tomar um café e começar a vida.
Antes de escovar os dentes e tomar um café, era a tese dela, uma
pessoa não é uma pessoa, é uma coisa.

Pode evoluir para uma pessoa se fizer um esforço, mas é um processo
lento e difícil que requer concentração e exclui qualquer forma de
digressão, ainda mais sexual. Ela comparava o sono a um acidente ao
qual a gente sobrevive, mas leva meio dia para se recuperar. E o
desejo dele de possuí-la antes de escovar os dentes a uma tara
indefensável, quase a uma forma de necrofilia.

"Sai, sai!"

- Então deixa eu só cheirar mais um pouquinho.

- Não, já disse.

E ela se levantava, tentando encontrar as pontas da camisola, puxando
uma alça do meio das pernas com fúria. Quando chegava na porta do
banheiro já era uma mulher comprida. Se ao menos ela deixasse a bunda
na cama, pensava ele. E ficava cheirando o travesseiro ainda quente.
Mmmm. Amêndoas, decididamente amêndoas.

"Ele já não gostava mais de mim. Que pena, que pena-á..."

Ele fazia um gesto para afastá-la do seu ouvido, como se ela fosse um
mosquito.

- João, eu acho que você tem outra.

- Outra o quê?

- Outra mulher.

- Que bobagem.

- Acho que você está pensando nela neste momento. Fingindo que lê e
pensando nela. Diz que não!

Ele não dizia que não. Estava pensando nela, de manhã. A sua outra, a
sua inatingível outra, a das pernocas, a da baunilha. Mas ela não
precisava se preocupar, pensou. Nunca seria enganada. A outra não
queria nada com ele.

- Apaga a luz, apaga.

Ele suspirava, fechava o livro, apagava a luz. Enquanto faziam amor,
ele tentava imaginar que ela era a outra. Mas o cheiro de sabonete
atrapalhava.

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