Historia antiqua

Fritz Utzeri
JB - 13/05/2001

"Eu, Utzerius Adeps, escrevo estas linhas hesitantes à luz de um
> candeeiro. Estamos na era das trevas e, graças à clemência da deusa
> Fortuna, nosso frio não mata. Falo de minha terra, a Pízzia, que está no
> escuro e é governada por um rei instruído, que parecia bem preparado:
> Henríkeos. Ele chegou ao poder em meio a grandes esperanças e, assim que
> sentou no trono, criou duas máximas: 'É fácil governar a Pízzia' e
> 'esqueçam o que escrevi'.
>
> O começo foi até bom e o povo o amava. Estabilizou o talento, moeda que
> andava fraca, mas logo fascinou-se pelo poder. Sua imensa vaidade tomou
> conta dele, turbou-lhe o raciocínio e as coisas começaram a dar errado. O
> mal mais recente que nos aflige é a ira do deus Elektron, que faz sofrer
> meus olhos cansados, com a pouca luz que ilumina a ponta de meu cálamo.
>
> Elektron vive numa furna, perto de uma grande cachoeira, e tem o poder de
> trazer a luz ao povo de Pízzia, afastando o escuro e o medo. A refrega com
> Elektron começou quando o rei parou de construir templos para o deus e
> pensou em traí-lo, esquartejá-lo, enfraquecê-lo, retirar seu poder e
> entregar o segredo da luz a quem lhe pagasse. O deus, irado, secou a
> cachoeira e o povo de Pízzia começou a mergulhar em trevas. A situação de
> Henríkeos é má. A ira do deus da luz é mais um sinal dos céus de que algo
> terrível se anuncia. Os oráculos prenunciam tempos duros.
>
> No areópago os legisladores brigam. Acemus, grande condestável e aliado de
> Henríkeos (houve até quem dissesse que ele governava de fato), começou a
> divergir do rei, acusando-o de ser benevolente com Corruptus, deus com
> muitos seguidores em Pízzia. Mas Acemus violou o segredo da urna sagrada
> do alto areópago e, imprudente, foi traído pela língua, jactando-se do
> feito a ninguém menos que ao Inquisitor Pravus, um dos procuradores mais
> perigosos do reino. Inquisitor contou aos arautos, que espalharam a nova
> pelas ágoras de Pízzia.
>
> Acemus viu-se acusado pelo crime e, sem saída, incriminou outro legislador
> (então líder de Henríkeos no areópago), Mendax Arrudius, de ter
> encarregado a vestal guardiã da urna sagrada de violar o segredo ritual
> dos legisladores, quando eles decidiam a sorte de um dos seus; um certo
> Estefanus, posto em ostracismo, acusado de cobrar mais do que gastava para
> construir templos, embolsar os talentos, e não entregar as obras no prazo,
> crime que já motivara a prisão do alto magistrado Lalausium.
>
> Em meio à confusão, e a uma série de episódios dramáticos, os legisladores
> encarregados de entregá-los ao julgamento dos membros do alto areópago
> ganham tempo enquanto decidem o que farão. Muitos querem perdoar Acemus, e
> evitar o seu ostracismo, mas têm medo do voto dos cidadãos que -
> revoltados - podem acabar banindo-os em breve, quando deverão escolher
> novos legisladores e um novo rei.
>
> O sumo legislador do alto areópago, Jaderius, é acusado de ter-se
> apropriado do velocino de ouro - há quem diga que se trata de um
> suda(m)rio de ouro - para criar rãs sagradas, cuja maior propriedade é a
> de serem invisíveis. Jaderius duelou durante meses com Acemus, que queria
> impedi-lo de presidir o alto areópago. Jaderius e Acemus acusavam-se
> mutuamente de ladrões (e aos olhos dos cidadãos de Pízzia, ambos davam a
> impressão de dizer a verdade).
>
> O rei favoreceu Jaderius, que ganhou a luta por pouco tempo, antes de ser
> atropelado pelo aparecimento das rãs em fúria. Em Pízzia, uma praga sucede
> a outra numa velocidade espantosa. Nem no Egito de nossos avós viu-se
> coisa semelhante. Acemus, Mendax Arrudius e Jaderius ainda não foram
> julgados e já apareceu Bezerrus (igualmente de ouro) para confundir ainda
> mais as coisas.
>
> Alguns legisladores, inimigos e amigos de Henríkeos, pretendiam libertar
> os manes presos nos armários do palácio e esclarecer as muitas coisas
> estranhas que andaram ocorrendo no reino. O rei se opõe. Diz que os manes
> devem ficar onde estão, pois sua presença espantaria uma entidade que
> passou a adorar, com fervor, um deus nórdico, estrangeiro: Investithor.
> Dizem-nos que esse deus é muito rico e Henríkeos acredita que vai resolver
> os problemas de Pízzia. O rei governa para Investithor. Seus templos, as
> argentárias, têm recebido generosas oferendas em talentos. Sacrificam-se
> os nativos em meio a descontentamento e barganha política. Pízzia só
> resiste porque é uma terra de imensos recursos.
>
> Acusam o rei de ter comprado votos no areópago para mudar as leis e ficar
> mais tempo no trono, quebrando regras ancestrais. Outros falam em
> tenebrosas transações nas fundas minas de nossa terra, ou com os deuses
> que têm o poder de transmitir as palavras. Outros ainda, querem saber se
> há ouro subtraído do Tesouro em ilhas distantes, sob a proteção de um
> grande caimão, espécie de lagarto sagrado, que guarda segredos, vela por
> propriedades (e apropriações), sem jamais perguntar de onde vieram, e que
> é capaz de purificar qualquer coisa suja, como moedas e papéis.
>
> Enquanto isso, boa parte do povo de Pízzia não pode mais passear nas
> ágoras, que se tornaram verdadeiras éphodas, onde a vida dos cidadãos é
> ameaçada por foras-da-lei. Os pizzianos assistiram à cruzada de Henríkeos
> contra os que querem exumar os manes e denunciar o que está acontecendo no
> país. Na última hora, o rei recomprou lealdades perdidas com 60 milhões de
> talentos de ouro. Tudo feito à meia-noite, hora de falar com espíritos (e
> facínoras), por artes de Jaderius; feitiço antigo, apreciado pelo deus
> Corruptus. Os anes indesejados foram, enfim, esconjurados e vão continuar
> sepultados guardando seus segredos para alívio de Investithor. Mas paira
> no ar um forte cheiro de podridão...
>
> A escuridão se abate sobre Pízzia, enquanto os cidadãos, estomagados,
> cantam velha música de antigo compositor: 'E o povo/ já pergunta com
> maldade/ onde está a honestidade?/ onde está a honestidade?...' Estamos a
> um passo de dizer que talvez Henríkeos não seja tão alheio assim à
> bandalheira, pois insiste em ignorar um dito sábio de nossos avós: 'quem
> não deve não teme'. Enquanto isso, Tigris Magnus, em seu currus
> automatarius, grita a plenos pulmões ao bater sincopado do tambor: Omnia
> sub imperio exstant! ou, em tom de latinice: Totus dominatus est! (Tá tudo
> dominado!) Vivemos muito próximos da barbárie. Duros são os tempos que
> estes olhos cansados testemunham. Que os deuses nos protejam de tanta
> desgraça!"
>
> Dá para acreditar numa história dessas? Esses historiadores antigos
> inventavam cada coisa...
>
>
>
> Pequeno léxico para entender Historia antiqua
>
> Adeps: gordo * * * Ágora: praça * * * Areópago: assembléia de notáveis * *
> * Argentaria: banco * * * álamo: cana ou pena talhada em ponta, usada
> para escrever * * * Currus Automatárius: bonde, cf. Manual de conversação
> em latim moderno, de Davide Astòri (Ed. Avvalardi - 1995.) * * * Éphoda:
> ágora perigosa e suja. Em sânscrito antigo? * * * Latinice: uso presumido
> ou indevido do latim, falso latim * * * Magnus: grande. Tigris Magnus é
> Tigrão * * * Manes: espíritos ancestrais. Podem ser, por analogia,
> fantasmas ou esqueletos. Esqueletos no armário, significa coisa ruim que é
> melhor esconder * * * Mendax: mentiroso * * * Pravus: torto * * * Talento:
> antiga moeda grega e romana * * * Velocino: carneiro mitológico com lã de
> ouro.

PAULO GUSTAVO SAMPAIO ANDRADE
Teresina - Piaui
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