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----- Original Message -----
From: Juliano Brack <[EMAIL PROTECTED]>
To:
Sent: Friday, March 15, 2002 6:44 PM
Subject: O Criado Mudo (vale apena)


>
>
> > > CRIADO-MUDO
> > > Mário Prata
> > > Tudo comecou quando resolvi me mudar do décimo para o quarto
> > > andar, aqui mesmo, neste edifício da alameda França. Um carrinho de
> > > supermercado seria o suficiente. Queria fazer lá embaixo um lar, já
que
> > > isso aqui virou um vício. E, como todo vício, tesão!
> > >
> > > Lá no quarto andar, tem 4 apartamentos.
> > > Eu nao conhecia ainda os vizinhos quando o fato se deu. Passei o
> > > dia levando coisas lá para baixo. Há dois dias faço isso ajudado pela
> > > Cristina.
> > > Uma das últimas viagens e lá ia eu com a Cris ao lado, descendo
> > > pelo elevador. Carregávamos o criado-mudo. O criado-mudo tem uma
> > > gavetinha.
> > > Quando a porta se abriu, tinham duas famílias esperando. Meus
> > > vizinhos. Pai, mãe, crianças e até uma avó. Foi quando eu estendi o
> > braço
> > > para me apresentar como o novo vizinho que tudo aconteceu. E foi muito
> > >
> > > rápido. Muito.
> > > Quando eu tirei a mão do movelzinho para cumprimentar aqueles que
> > > agora são meus vizinhos, a gavetinha deslizou. Eu ainda tentei uma
> > gingada
> > >
> > > com o corpo pra ver se evitava a catástrofe, mas não adiantou. A filha
> > da
> > > puta estava indo para o chão, lisa como quiabo.
> > > Estava indo para o chão com tudo dentro. E não existe nada mais
> > > indiscreto que uma gavetinha de criado-mudo de um homem que mora
> > > sozinho. Ou mesmo que não more. Ali você vai jogando coisinhas,
papéis.
> > > Coisas, enfim. Coisas que só têm um destino na vida: a gavetinha do
> > > criado-mudo.
> > > Entre a danada escapar do móvel e esparramar tudo pelo chão, não
> > > devem ter sido nem dois segundos. Mas estes dois segundos foram
> > sofridos.
> > > Neste pedacinho de tempo tentei, em vão, me lembrar do que era que
tinha
> > > lá dentro e, consequentemente, toda a vizinhanca ia ver. Além da
> > Cristina.
> > >
> > > Não deu outra. A gaveta caiu de quina e tudo voou. E voou tudo de
> > > cabeça prá cima, tudo querendo se mostrar. Ar livre. Há quanto tempo
> > > aquilo tudo não via a luz do dia, já que ficavam debaixo do abajur
> > lilás?
> > > E nao ficou tudo amontoadinho, não. O material se esparramou legal
pelo
> > > hall. Diante do que vi no primeiro bater de olhos, a idéia foi pular
em
> > > cima e cobrir tudo com o corpo até todo mundo sumir dali.
> > >
> > > Sim, na gavetinha do criado-mudo a gente joga tudo. Pelos meus
> > > cálculos, devia ter coisas ali dos últimos cinco anos. Que, é claro,
eu
> > > nao saberia dizer. Eu não tinha idéia do que é que estava indo para o
> > chão
> > > e aos olhos da vizinhanca estupefata.
> > >
> > > Um pedaço da minha vida estava ali, no chão, sujeito à visitação
> > > pública. Uma vergonha. E o pior é que não dava para pegar tudo de uma
> > > vez. Teve pilha que rolou escada abaixo. Moedinhas rodopiavam sem
parar,
> > > fazendo aquele barulhinho.
> > > A primeira coisa que a Cristina recolheu foi um par de brincos
> > > douradérrimos. Que não eram dela. E eu não ia explicar ali que eu não
> > > tinha a menor idéia de quem fossem. Podia estar ali há cinco, seis
anos.
> > > As crianças olharam para três camisinhas e deram-se sorrisos
cúmplices.
> > >
> > > Não foi bem este o olhar da Cris.
> > > Aquele pequeno despertador quebrou o vidro. Estava parado às 10 e
> > > 10 do dia 23, sabe-se lá de que mês ou ano. Três edições da Playboy .
> > > Velhas. Uma da Tiazinha. Constrangimento. Prá minha sorte, bem ao lado
> > > caiu a História da Filosofia , de I.Khlyabich. E o livro daquela jovem
> > > namorada do Sallinger, do Apanhador no Campo de Centeio . Amenizou um
> > > pouco. Trata-se de um masturbador de campo de pentelhos. E as
camisinhas
> > > eram de 98, tava escrito lá. Limpou um pouco a barra. Um pouco. Sim,
por
> > > outro lado, mostrava que desde 98 que eu... deixa prá lá.
> > >
> > > Tinha o menu da minha aula de culinária de março. Naquele dia
> > > aprendi a fazer crepe de pancetta e brié, com a professora Bia Braga,
> > > junto com o Frei Betto, aluno também.
> > > Tinha procurado tanto o Guia de Acesso Rápido do celular. Tava lá.
> > > Agora eu ia aprender a apagar os telefones vencidos da caixa.
> > > Meu Deus, o que é aquilo no pé do garoto? Viagra! E o filho da
> > > puta pegou e mostrou para o pai que me olhou com pena, com dó: tão
jovem
> > > e...
> > > Tive que dar explicações:
> > > - Hehe, é o Jair, que é do 103, psicanalista, amostra grátis, aí. Tem
> > > dois.
> > > Já ia dar uma explicação da experiência que tinha tido com o que
> > > não estava mais ali, mas achei que os pais não iriam ouvir de bom
grado,
> > > diante das crianças. Viagra é a maior sujeira, posso te garantir.
> > > Acho que não convenci ninguém. Cris, com os alheios brincos na
> > > mão,escondeu o Viagra. Vexame total. Mas isso era só o começo da minha
> > > vida esparramada no chão de mármore.
> > > - a conta da compra do computador que eu dei para a minha irmã;
> > > - duas pilhas Duracell que jamais saberemos se estão boas ou já
> > > usadas. Esse problema de pilhas soltas me enlouquece;
> > > - sabe aquelas moedinhas de orelhão que não funcionam mais? Várias;
> > > - uma foto minha com a atriz Manoella Teixeira, abraçados na porta do
> > > Ritz (isso foi há dois anos, fui logo explicando);
> > > - uma cartela de Lexotan, uma de Frontal e uma de Zoloft. Pronto, os
> > > vizinhos não teriam mais dúvidas. Um louco deprimido se aproximava;
> > > - quatro canetas BIC que eu duvido que ainda funcionem;
> > > - uma capinha de celular que eu comprei há uns quatro anos e nao
> > > serviu;
> > > - uma caneta dessas de marcar texto, aquela amarela, sabe? Seca, é
> > > claro;
> > > - um tubo de Redoxon, vencido há várias gripes;
> > > - um lápis sem ponta, aliás, dois;
> > > - um papelzinho com um telefone que jamais saberemos de quem é;
> > > - outro papelzinho com um telefone (procurei tanto... Agora nao vai
> > > mais adiantar);
> > > - um benjamim;
> > > - um tubo (suspeitíssimo) de Hipoglós;
> > > - mais uma cartelinha (quase vazia) de Frontal;
> > > - um disquete de computador sem nada escrito nele. O que pode ter
aqui?;
> > > - um par de óculos escuros que nunca foram meus;
> > > - umas cinco ou seis chaves que nunca saberei que portas abrir;
> > > - dois tubos de KY, que quem sabe o que é pode imaginar o meu ar de
> > > sem jeito. E o cara do 43 levava jeito de saber, pela olhadinha que
deu
> > > para a esposa que ficou vermelhinha. Ela devia gostar de KY;
> > > - um livrinho mandado (e escrito) por um leitor, com o nome Ser Gay é
> > > Ser Alegre . Como explicar isso de joelhos?;
> > > - e, para encerrar o meu derrame, um papel em branco com um beijo de
> > > batom vermelho, bem no meio. Tentei dizer que era da minha afilhada,
> > Maria
> > >
> > > Shirts, mas nao colou.
> > > Fui recolhendo aquilo tudo, aqueles pedaços da minha vida e
> > > colocando de novo dentro da gavetinha. E me levantei.
> > > Entramos em silêncio no apartamento, certo de que ia começar uma
> > > nova vida ali. Mas logo cheguei à conclusão de que a gente nunca
começa
> > > nada, a gente continua.
> > > Ajeitei o criado-mudo ao lado da cama. Fiquei olhando para o
> > > indiscreto móvel que eu achava mudo. Mas que, em dez segundos, contara
> > > cinco anos da minha vida.
> > >
>
>
>




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