Sangue sobre Patópolis - Parte I

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A PRIMEIRA MISSÃO NÃO-AUTORIZADA DE HUMANOS À CIDADE DE PATÓPOLIS

OS DEDOS MOLHADOS DE SUOR deslizavam em torno do volante naquela manhã
sombria.  Nada posso explicar sobre o local exato, a não ser que era
numa das centenas de freeways da Califórnia.  Em meio aos mil atalhos,
desvios e entroncamentos, ninguém notava que uma das placas sinalizava
com todas as letras "DUCKBURG".  Respirei fundo: era lá mesmo!

Mesmo numa hora de relativo movimento, a saída para Patópolis deveria
ser o trecho mais deserto do sistema rodoviário.  Em cinco minutos não
encontrei um único veículo indo ou voltando.  O céu mudava de cor a cada
vez que eu olhava ao meu redor.  E quando passei entre as duas colinas,
a música no rádio desapareceu sob forte ruído de estática e uma voz
grave e rouca:

- Isto é uma gravação.  Meus parabéns, Alvin.  Se você chegou até aqui,
pelo menos sabe seguir setas...  Rê, rê, rê.  Preste atenção: a
Alfândega será moleza, pois só há um guarda.  Nem pisque: suborne-o com
a mala cheia de dinheiro do Banco de Patópolis.  Ele já sabe que você
terá que trocar o seu carro temporariamente por um modelo patopolense,
por isso já terá um carro lhe esperando.  Este é nosso último contato. 
Nem pense em voltar ao mundo dos humanos sem o serviço cumprido.  Siga
em frente e boa sorte...

Novo calafrio; finalmente senti que "eles" falavam sério sobre a
gravidade da questão patopolense.  Era um ponto sem volta: a qualquer
momento os patos poderiam se vingar de nós invasores humanos.  E se eu
desistisse, a Organização me mataria.

Bem, ninguém me disse que ia ser fácil romper o monopólio das empresas
Patinhas McPato na distribuição dos misteriosos vasos sanitários
patopolenses - utensílios tão vergonhosos que só são usados na
clandestinidade, motivo pelo qual nunca aparecem nas histórias.

Pois saibam os leitores que, apesar das aparências, tanto patos quanto
cães, ratos, vacas, cavalos e as demais espécies de Patópolis precisam
fazer suas necessidades fisiológicas, ainda que muito de vez em quando. 
É o mais duraduro dos tabus. Reina a lei do silêncio, em que todo mundo
finge que não usa privadas e todo mundo finge que não sabe que todos os
outros usam.

E principalmente, ninguém quer admitir que se sujeita a lucrar com a
fabricação dos vasos - atividade que motivou Patinhas a empreender as
famosas expedições internacionais em busca de tesouros, a fim de "lavar"
com um pingo de dignidade os lucros sanitários que já alcançavam 15% do
rendimento das Empresas Patinhas.

Chegamos à Alfândega.  Como combinado, entreguei a mala de dinheiro ao
guarda, um dos onipresentes cães caucasianos das histórias. Quando ele
abriu a mala para conferir o dinheiro, saiu um gás cor-de-rosa que se
espalhou rapidamente; enquanto eu nada senti, o guarda caiu ao chão sem
sentidos.  Tão logo o gás tivesse baixado, tomei coragem e fui conferir
o pulso do guarda: estava morto.  Não havia um centavo na mala. 
Certamente havia muita coisa que a Organização não podia me contar...

Mas segui o roteiro à risca.  Me esperava um carrinho tipo anos 50, com
a chave na ignição, na garagem ao lado da Alfândega.  O mais difícil foi
carregar a Esther, que os homens da Organização já me entregaram
amarrada e sedada, e certamente continuaria nesse estado por mais
algumas horas, até que eu a entregasse no gabinete da presidência da
Patacôncio Enterprises.

Sim, é claro que seria impossível quebrar o monopólio de Patinhas sem
algum tipo de aliança local.  Esther não queria ir a Patópolis, sem
dúvida.  Mas certamente sua presença interessaria muito a Patacôncio. 
Pato de inteligência privilegiada, doutor em Física aos 17 anos, gênio
financeiro, CEO de um conglomerado gigante - não comparável às Empresas
Patinhas, porém um grupo mais moderno e eficiente - Patacôncio era o
empresário certo para liquidar Patinhas nesta cartada decisiva.

Enquanto adentrava o centro de Patópolis, pensava seriamente por que
justamente eu fui escalado para tarefa tão insólita.  Talvez a
Organização pudesse se livrar de mim mais facilmente quando acharem que
eu sei demais.  Quem sabe eu tenha uma facilidade inata de lidar com a
raça dos irascíveis patos herdeiros de Cornélio Patus.  Ou pensem que eu
entendo muito de sanitários...

Perdido em meus pensamentos, mal notei quando um garoto (um patinho) de
patinete descia uma ladeira pela transversal direita.  Numa fração de
segundo, desviei para a esquerda.  O carro subiu na calçada e derrubou
um hidrante.  O jorro subiu ao terceiro andar do prédio em frente,
atingindo em cheio uma das janelas voltadas para a Caixa-Forte do
Patinhas.  Dez segundos depois, toda Patópolis, exceto o enorme
helicóptero, estremecia com as ondas de choque da explosão sob a
Caixa-Forte.

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