�ltimo Conto de Ver�o
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Luis Fernando Ver�ssimo

Ela n�o era bonita, mas era elegante e agrad�vel, seus 30 e poucos anos, de
terninho. J� nos conhec�amos de vista, era mesmo extraordin�rio como nos
v�amos. Nos cruz�vamos nos lugares mais diferentes. Tanto que, mesmo sem
sermos apresentados, passamos a nos cumprimentar. Mas s� quando ela se fez
anunciar, naquele dia, e entrou no meu escrit�rio, de terninho, � que fiquei
sabendo seu nome: Jandira. Uma mulher de neg�cios, pensei. Uma eficiente
mulher de neg�cios.

Conversamos sobre banalidades, comentamos a comida do restaurante em que
t�nhamos nos visto pela �ltima vez, e, finalmente, ela descruzou as pernas,
mudou de posi��o na cadeira e limpou a garganta, sinal de que entraria no
assunto que a trouxera ali, e disse, sorrindo:

- Espero que isto n�o o assuste, mas eu sou a sua morte.

Eu tamb�m sorri, e esperei alguns segundos antes de dizer:

- Como � que �?

- Eu sou a sua morte.

Perguntei se ela estava falando em sentido figurado, se era uma concorrente
que pretendia acabar com o meu neg�cio e me matar metaforicamente, ou uma
vendedora come�ando sua apresenta��o com uma frase de impacto, mas a todas
essas alternativas ela respondeu com um "n�o" silencioso, e sorridente.
Depois comentou que eu talvez estivesse estranhando a sua apar�ncia, pois as
pessoas costumam associar a morte a figuras l�gubres, esqueletos encapuzados
carregando foices, etc., e n�o a jovens executivas. E explicou que podia
tomar a forma que quisesse, e que n�o faria sentido andar por a�, durante 65
anos, carregando uma foice e assustando as pessoas.

- Sessenta e cinco anos? - perguntei.

- Eu tenho a sua idade. Quando voc� nasceu, eu nasci junto.

- Mas eu sempre pensei que a Morte fosse velha como o mundo.

Seu sorriso aumentou. Ela n�o queria parecer condescendente com a minha
ignor�ncia.

- N�o existe uma "Morte". Ela estaria sobrecarregada, se tivesse que fazer
todo o servi�o sozinha. O servi�o � personalizado. Eu sou a sua morte e de
mais ningu�m. Cada pessoa tem a sua morte, que nasce com ela e fica
esperando a hora de lev�-la embora. N�o � um mau trabalho. Temos muito tempo
livre, e podemos fazer com ele o que quisermos. Eu, por exemplo, enchi bem o
meu tempo enquanto esperava a ordem para vir busc�-lo. Viajei bastante, fiz
aula de cer�mica e japon�s, conheci pessoas interessantes... Uma vez quase
casei.

- Quer dizer que qualquer pessoa que se v� por a� pode ser a nossa morte, ou
a morte de outro, s� esperando a hora de fazer o seu trabalho?

- �.

- At� algu�m da nossa fam�lia?

- Por qu�?

- Teve um cunhado meu que eu jurava que tinha vindo ao mundo s� para
provocar a minha morte.

- A morte � sempre mulher. Mesmo nos pa�ses que n�o t�m o artigo de g�nero.

- Ah. E, na verdade, o meu cunhando morreu antes, coitado.

- Eu sei. Conheci a morte dele.

- Voc�s, mortes, se comunicam?

- Sim, sim. Convivemos bastante. Aquele grupo que estava comigo no
restaurante, por exemplo...

- Notei que eram s� mulheres.

- Todas mortes. Ali�s, a morte da sua mulher estava junto.

- Mas eram todas mo�as. Voc�, mesmo, n�o parece ter mais de 30 anos. Como
pode ter a minha idade?

O sorriso dela, agora, misturava faceirice e um certo orgulho da travessura.

- At� as mortes s�o vaidosas. J� que podemos fazer o que quisermos com o
nosso tempo, escolhemos que ele passe mais devagar. A morte da sua mulher
est� com 25 anos. Eu estou com 32. E tinha uma no grupo que est� esperando
para levar seu cliente h� 90 anos, e n�o parece ter mais de 40.

- Voc�s nos chamam de "clientes"?

- Sim. Gostamos de pensar em n�s mesmos como um servi�o de "escort". E o
servi�o � o mesmo, para ricos e pobres. Tratamos todos como executivos, na
hora de ir embora.

Ela consultou o rel�gio e disse:

- Falando nisso...

- Espera um pouquinho. N�s temos que ir... agora?

- Chegou a hora. Recebi as minhas ordens.

- Mas eu n�o tenho nem uma chance? Nenhum poder de barganha? N�s n�o vamos
jogar xadrez pela minha vida? Voc� n�o vai me propor uma charada, nada?

Desta vez o seu sorriso foi menos tolerante. Ela suspirou.

- O que o folclore medieval fez com a nossa profiss�o... N�o, meu caro. N�o
tem jogo nem charada. Somos mortes modernas. Fazemos nosso trabalho com
objetividade e efici�ncia. J� lhe dei conversa demais. Vamos indo.

Debrucei-me sobre a mesa, para aproximar o meu rosto do dela. Falei:

- Jandira, me diz uma coisa. Se eu morro, voc� tamb�m morre. Voc� n�o estava
gostando da vida? Viver n�o � formid�vel?

Ela n�o estava mais sorrindo.

- Sem sentimentalismo, por favor.

- Quem sabe voc� falsifica o seu relat�rio, diz que me levou e fica aqui
comigo? A gente podia...

Ela j� estava de p�, olhando o rel�gio.

- Vamos, vamos. Temos que pegar o funicular das 7.

- N�o d� nem para esperar e ver como acaba a Terra Nostra?

- N�o!

E morremos ali mesmo.

  

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Abst�mio: Pessoa fraca que se rende a tenta��o de negar um prazer a si pr�prio


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