Lan�a-Perfume
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Luis Fernando Ver�ssimo
Havia o lan�a-perfume de metal e o lan�a-perfume de vidro. O lan�a-perfume
de metal era maior. Tinha, mesmo, um aspecto algo militar, podia ser uma
granada alem�. Nada dava uma sensa��o de poder como um bom suprimento de
lan�a-perfumes (lan�as-perfume? Lan�as-perfumes?) de a�o quando come�ava o
carnaval.
O lan�a-perfume de vidro era uma esp�cie de grande ampola. A vantagem do
vidro era que voc� tinha o controle visual da quantidade de "perfume" no seu
interior, sabia quando a muni��o estava acabando. A desvantagem era que o
lan�a-perfume de vidro era menor e quebrava com facilidade, muitas vezes na
sua m�o. Com o risco de tornar realidade a advert�ncia: "N�o v� me passar o
carnaval no pronto-socorro!"
Metal para a guerra de trincheiras, vidro para a guerra qu�mica.
Porque era uma guerra. Os alvos secund�rios eram as costas nuas - ou
qualquer �rea desprotegida, dependendo da fantasia, havendo uma clara
prefer�ncia por havaianas e odaliscas - das meninas. Os alvos principais
eram os olhos do inimigo. Sempre que estou a ponto de pensar que a
humanidade ficou mais b�rbara com o passar do tempo, lembro que
lan�a-perfume nos olhos dos outros j� foi um brinquedo de carnaval e me
conven�o de que melhoramos. Mas sou da gera��o que usou m�scaras de pl�stico
para proteger os olhos no carnaval. Sem falar no g�s de mostarda e na bomba
at�mica.
Primeira regra para o uso do lan�a-perfume: jamais acionar o gatilho, ou
como quer que se chamasse aquele disparador do jato, com a bisnaga na
posi��o vertical. Escapava o ar, acabava a press�o e voc� ficava s� com um
tubo de �ter na m�o, incapaz de atacar ou de se defender. S� restava ir para
casa.
�ter. N�o se sabia bem que o "perfume" do lan�a-perfume era �ter perfumado,
jamais nos passou pela cabe�a que aquilo servisse para outra coisa al�m de
brincadeiras inocentes, como dar calafrio nas meninas e tentar cegar os
outros. Perdia-se a inoc�ncia - no tempo em que dava para identificar o dia,
�s vezes at� a hora, em que a gente ficava adulto - com a descoberta de que
o lan�a-perfume servia para outra coisa. Que �ter dava barato.
Ressaca de lan�a-perfume era diferente de ressaca de, por exemplo, Cuba
libre. Voc� n�o acordava com n�usea, azia terminal e a firme decis�o de
nunca mais beber, talvez at� de entrar para uma ordem religiosa. Acordava
com a boca seca e um zumbido na cabe�a. Sua cabe�a era uma esp�cie de usina
vazia onde s� o que sobrara da atividade industrial era o zumbido. Seu
c�rebro ficara em algum lugar. Voc� tentava se lembrar onde deixara o
c�rebro, mas lembrar o que, sem c�rebro? Em lugar do c�rebro havia o
zumbido.
Entrava-se numa fase intermedi�ria, em que o lan�a-perfume desempenhava
dupla fun��o. Como n�o bastava mais s� fazer as meninas gritarem com o jato
gelado na espinha, havia o p�s-jato, a conversa, talvez at� a intimidade de
um cord�o improvisado e um furtivo amasso antes de a noite acabar, voc�
cheirava lan�a para criar coragem. O alvo priorit�rio do lan�a-perfume
passava a ser voc� mesmo e sua inibi��o. At� uma certa idade, costas nuas
passando era apenas uma v�tima sem cara; depois de uma certa idade, costas
nuas passando era um universo de possibilidades. E n�o se enfrentava um
universo sem �ter no len�o.
E na manh� seguinte, o zumbido.
N�o sei quando foi que proibiram o lan�a-perfume. Parece que ainda existe um
com�rcio clandestino, dos de a�o e dos de vidro. N�o sei; me retirei da
guerra h� muitos anos. Imagino que se quisesse voltar e me visse, de
repente, num baile de carnaval de hoje com a idade que eu tinha quando fui
ao �ltimo - n�o me lembro do ano, mas tenho quase certeza que eram quatro
d�gitos -, meu convite para cheirar lan�a-perfume causaria desd�m e risadas.
Os baratos, como as crises econ�micas, t�m seus ciclos misteriosos, mas
duvido que eu conseguiria reintroduzir o lan�a-perfume entre os v�cios
modernos com sucesso. O mercado se sofisticou muito.
A gente tamb�m desmanchava Melhoral na Cuba libre. Foi o limite da minha
devassid�o. Est� bem, crian�as, parem de rir.
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[],
1.000ton
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