Antes de mais nada é preciso esclarecer que este texto é uma verdadeira
coletânea de boatos, inverdades e meias verdades que vem sendo propagadas
publicamente desde que grandes vendedores de licenças de software se
sentiram ameaçados pelo software llivre. Além disso, o escritor parece ter
baseado suas análises em leituras superficiais sobre o que a imprensa, de
forma tendenciosa ou não,  havia publicado sobre o software livre até então.

Outra coisa, desisti de quebrar a resposta em várias. Então vai tudo de uma
vez e quem tiver paciência de chegar ao final eu agradeço. É bom lembrar tb
que estarei focando exclusivamente o software livre e não o código aberto
(open source), porque estes são movimentos diferentes, apesar de possuirem
algumas interseções. Dito isto, vamos ao que interessa.


2008/10/9 Eduardo Júnior <[EMAIL PROTECTED]>

>
> Open Source
>
> Em 1989, o Sr. Richard Stallman, já então bastante envolvido com algo que
> iria chamar-se no futuro "software livre" criou um tipo de licença de
> software que chamou "copyleft", mas que hoje é mais conhecida como "open
>
> source" (*).
>
> Bom, aqui o autor já comete seus primeiros erros já que a FSF (Free
Software Foundation) foi criada em 1985 e open source e software livre não
são a mesma coisa. Para ser software livre, um software não precisa estar
licenciado sob a GPL, mas a sua licença precisa garantir a liberdade para
usar o programa para qualquer fim desejado, a liberdade de estudar como o
programa funciona e adaptá-lo às suas necessidades, a liberdade de
redistribuir cópias e a liberdade de melhorar o programa e liberar suas
modificações para o público. Como algumas dessas liberdades demandam o
acesso ao código fonte, o código fonte precisa estar aberto e ser acessível
a qualquer um. Por conta do software livre e do open source preconizarem a
distribuição do código fonte e liberarem as modificações, muita gente coloca
tudo no mesmo saco. Porém, algumas licenças open source permitem que um
código antes aberto seja fechado em alguma de suas modifações e isso já é o
bastante para os dois movimentos serem diferentes entre si. Um software
livre permanece livre e aberto por toda a sua vida e propaga isso também nos
seus descendentes.  O autor perpetua a confusão entre free software e open
source por todo o texto.

A licença deste tipo mais conhecida é a "GNU General Public
> License". Este tipo de licença se caracteriza principalmente pelo seguinte:
> você deve incluir o fonte do seu produto, deve permitir modificações e - o
>
> principal - qualquer um que inclua qualquer fragmento do seu software é
> obrigado a incluir a totalidade dos fontes do próprio produto, mesmo aquele
> que foi desenvolvido depois.
>
>
Novo erro do autor. A GPL não lhe obriga a incluir os fontes do seu produto
na distribuição do mesmo. Mas ela garante que qualquer um que tenha acesso
ao produto tenha o direito de solicitar os fontes. Isso quer dizer que, se
vc quiser distribuir os binários sem os fontes vc pode, mas precisa incluir
um oferta formal e por escrito que garanta ao usuário o acesso aos fontes.
Se a pessoa que receber os binários quiser se valer do direito de receber os
fontes, basta preencher e lhe entregar a oferta escrita e vc terá a
obrigação de lhe dar os fontes. Isso é valido mesmo se a pessoa não receber
os binários diretamente de vc. Se vc resolver distribuir os binários pela
internet, deverá prover um link para os fontes tb.


>
>
> Note, o que caracteriza o Open Source não é nem o acesso aos fontes, nem a
>
> permissão de modificações, nem o baixo preço. Estas características sempre
> existiram anteriormente. Existem hoje licenças bastante conhecidas que
> satisfazem estes quesitos, como a do "BSD Unix", e que não são Open Source.
>
> A principal característica do Open Source é que ele "contamina" qualquer
> software que use código Open Source, transformando-o automaticamente em Open
> Source.
>
>
Bom, eu colocaria isso de uma maneira diferente. Eu diria que a principal
característica do software livre é garantir que as quatro liberdades básicas
que ele defende continuem existindo mesmo nos descendentes do software
original.


>
> Para os usuários, o Open Source parece, a princípio, caído do céu: o
>
> software não apenas pode ser copiado à vontade e por isso efetivamente
> gratuito, como também na medida em que os desenvolvedores usem trechos de
> código Open Source, todo software se tornará Open Source. Passado algum
>
> tempo, todo software existente na Humanidade seria gratuito! Na verdade a
> estória não é tão rósea para os usuários, como veremos a seguir.
>
> Mas vamos falar primeiro dos desenvolvedores de software. Como eles
> sobreviverão se não puderem vender seus produtos e cobrar algum tipo de
>
> licença, como tem feito usualmente, em um modelo de negócio provado e que
> funciona?
>
> Esse bloco e os subsequêntes ficam um pouco difíceis de comentar pq o autor
faz tamanha mistura de inverdades que a gente fica sem saber por onde
começar. Primeiro ele começa pelo velho mito de que free software significa
software de graça. Isso talvez se deva ao fato do termo free em inglês ser
ambíguo, sendo usado tanto para indicar gratuidade quanto liberdade.  Porém,
em português isso não se justifica pq temos palavras diferentes para livre e
grátis. Software livre não é software grátis. Muitos softwares livres são
distribuidos de maneira gratuita, mas isso não quer dizer que a licença os
obrigue a isso ou que todos devam ser gratuitos. Se estivermos falando
especificamente da GPL, ela permite que vc cobre taxas, no valor que
desejar, pela distribuição dos binários. Vc também pode cobrar taxas pela
distriuição dos fontes, mas essa taxa não pode ser superior à taxa dos
binários. Como isso é possível? Bom, primeiro, ao cobrar pela distribuição,
vc não está cobrando pelo software mas pelos serviços de entrega e
compilação. Segundo, vc não pode cobrar nada pela distribuição subsequente
feita por terceiros. Ou seja, se joão adquiriu o seu software, ele pode
passá-lo para josé sem ele ou josé terem que te pagar nada por isso. Mas se
josé quiser pegar diretamente de vc, como fez João, aí sim vc pode cobrar
pelo serviço. Além disso, vc pode fazer como as empresas que vendem licenças
e incluir no valor da taxa o pagamento por serviços como manutenções
personalizadas e suporte técnico. Ou vc pode também vender seu software em
caixinhas e cobrar pela mídia, manuais, caixa, etc.



>
> Sobrevivendo ao Open Source
>
> A "linha do partido" é que os desenvolvedores inicialmente terão a
> satisfação de contribuir para o bem comum e também divulgar seu nome como um
>
> bom desenvolvedor. Bem, e os desenvolvedores que tiverem necessidades mais
> imediatas como pagar aluguel, mandar os filhos para a escola e cumprirem
> outras obrigações mais "mundanas"? Ainda segundo a "linha do partido", estes
>
> desenvolvedores poderão ganhar dinheiro vendendo suporte técnico, cursos e
> implantação do próprio produto de software "Open Source" que tenham
> desenvolvido.
>
>
Acho que isso já foi respondido anteriormente.

>
>
> Mesmo sem entrar no mérito de que o tal desenvolvedor teria grande interesse
>
> em fazer um software ruim para aumentar sua receita em serviços (criar
> dificuldades para vender facilidades), tal esquema é intrinsecamente
> inviável. Vejamos: João desenvolveu o software originalmente e tem que
> recuperar o gasto inicial de desenvolvimento em serviços. Já Antonio é
>
> igualmente capaz a João do ponto de vista técnico, mas é um pouco mais
> esperto como negociante. Ao invés de se preocupar desenvolvendo o software,
> Antonio resolve apenas examinar o produto já desenvolvido por João e vender
>
> os mesmos serviços. Antonio pode vender os serviços mais barato, porque não
> tem que recuperar o gasto como desenvolvimento! Na verdade, gastar dinheiro
> com o desenvolvimento automaticamente tira a sua competitividade como
>
> fornecedor dos serviços subseqüentes!
>
>
Bom, isso tudo é mito. Não existe software caixa preta que atenda 100% a
necessidade de todo mundo. O que acontece é que fomos forçados e nos
acostumamos ao modelo de receber um software genérico goela abaixo e nos
adaptarmos a ele ao invés do contrário (que seria o correto). Sendo assim,
essa idéia de que uma segunda pessoa iria pegar o software, entendê-lo
instantaneamente e começar a fazer uma concorrência desleal com o
desenvolvedor original cai por terra. Primeiro pq se fosse mesmo possível, o
desenvolvedor original teria uma dianteira pq leva tempo para se dominar um
software plenamente, principalmente os mais complexos. Além disso, quanto
mais gente vender o software ou serviços sobre ele, maior será o crescimento
do mercado ao redor dele (o que propiciaria a realização de mais negócios
por parte de todos os envolvidos). Por fim, se João e Antônio prestam
serviços sobre um mesmo software e somente João entende dele o suficiente
para modificá-lo, qual deles lhe parece mais capaz de prestar serviços?

>
>
> No ramo do Open Source, o bom é pegar carona em alguma coisa que outras
> pessoas tenham feito, mas fazer coisas novas é uma fria.
>
> Efetivamente, a maioria das "estórias de sucesso" com o uso de Open Source
>
> que eu ouço é de "caronistas" que estão usando de graça algo para o qual em
> nada contribuíram. Open Source no software do outro é refresco. Embora
> momentaneamente possa haver benefícios, principalmente se o "incauto" que
>
> desenvolveu o software originalmente foi alguma universidade estrangeira,
> este não é um modelo que se sustente por muito tempo, já que não há
> incentivo econômico para desenvolver software novo.
>
>
Bom, ele faz várias afirmações, mas não aponta exemplos comprobatórios de
nada. Quanto ao modelo não se sustentar, a história tem provado justamente o
contrário.


>
>
> Curiosamente, várias empresas brasileiras e estrangeiras que promovem o
>
> Linux e se beneficiam da "boa vontade" que existe em volta desta "nobre
> causa", na verdade sobrevivem vendendo software comercial fechado e nada
> Open Source. Faça como eu digo, mas não faça como eu faço! Em alguns casos
>
> existem até fortes suspeitas que algumas destas empresas violaram os termos
> das próprias licenças "GNU" ao "fecharem" software que originalmente era
> aberto.
>
>
Novamente ele lança boatos, mas não aponta responsáveis. Sendo assim, não
vou comentar.


> Isto é um crime que compensa, pois a própria falta de identidade
>
> jurídica dos programas Open Source (quem é o dono?) significa que não há
> ninguém para processá-lo, se é que alguém que trabalha de graça teria
> dinheiro para processar os outros. E mesmo que tal processo fosse movido e
>
> ganho pelo "licenciador", qual seria a pena por "roubar" algo gratuito? Isso
> é um verdadeiro "buraco negro" legal.
>
>
Vamos lá, e quem é o dono? A primeira resposta pra essa pergunta é "aquele
quem desenvolveu o software". O uso da GPL não transfere automaticamente os
seus direitos autorais para outrem. Se vc desenvolveu o software, vc
continua amparado pela lei de direitos autorais e continua sendo o "dono"
dele. Por isso, vc pode processar qualquer um que esteja infringindo algum
dos direitos dos quais vc não abriu mão. Mas e o software densenvolvido por
uma comunidade, como fica? Para facilitar esse tipo de coisa, as comunidades
por tráz de grandes softwares livres costumam criar fundações e transferir
os direitos de cópia para essas instituições. De modo a tornar mais simples
as relações jurídicas quando se fizer necessário. Mas e se não houver uma
fundação e o software tiver muitos desenvolvedores? Bom, nesse caso eu acho
que os desenvolvedores poderiam se responsabilizar por sua propriedade
individualmente ou entrar em algum tipo de acordo para mover uma ação
coletiva. Nesse caso talvez fosse mais fácil perguntar isso a um advogado
especializado no assunto.


>
> E os usuários?
>
> Os usuários estarão amarrando os seus negócios (não de software e sim de
>
> outra atividade como manufatura ou comércio) em uma base frágil e que pode
> trazer diversas surpresas desagradáveis no futuro.
>
> Suponha que o software corresponda a uma pequena fatia do gasto das
> empresas, algo como 2%. Se o seu negócio perder a produtividade na atividade
>
> fim por causa desta pequena suposta economia, você já fez um mau negócio,
> mesmo que o Open Source seja rigorosamente gratuito.
>
> O Open Source não é gratuito porque mesmo que você use 100% de software Open
> Source. Ele ainda exige serviços de implantação e manutenção, usando muitas
>
> vezes ferramentas sem coesão e conseqüentemente de baixa produtividade,
> porque feitas por equipes diferentes com pouca coordenação e regras. Na
> verdade existem estudos que apontam o custo total de uso Open Source como
>
> sendo maior que o do software comercial, se você incluir gastos como
> implantação, suporte e treinamento.
>
>
Quantos de vcs já ouviram falar de algum usuário ou empresa que já tenha
processado a Microsoft pq o Windows travou e isso comprometeu a
produtividade da empresa? Quantos usuários domésticos processaram a
Microsoft pq uma falha de segurança do Windows comprometeu a integridade de
dados pessoais de suma importância? Acho que a Microsoft ainda é a maior
vendedora de licenças de software do mundo e acho que isso exemplifica bem
como esse papo é conversa fiada.


>
> Outro grande problema é: "Quem dá garantia?" Assim como não há ninguém para
> processá-lo, não há ninguém para quem reclamar. Não há garantia quanto à
>
> continuidade do funcionamento, quanto ao conserto de eventuais defeitos,
> quanto à adaptação a novos hardwares, quanto à compatibilidade com outros
> produtos nem quanto a não-violação de licenças ou patentes de terceiros. Não
>
> há um processo claro quanto à participação em órgãos de classe nem de
> licenciamento de tecnologias específicas. Isso lembra um idealista do "amor
> livre" que não preveja o que deve ser feito com as crianças que acabarem
>
> inevitavelmente nascendo.
>
> Nos últimos anos a sociedade Brasileira criou diversas leis e práticas como
> o Código de Defesa do Consumidor que visam exatamente dar garantias aos
> consumidores. O Open Source vai na contra-mão desta tendência, removendo as
>
> garantias dos produtos.
>
>
Se garantia é um ponto importante para um determinado usuário, ele não
deveria lançar mão de um software gratuito, seja ele software livre ou não.
Porque mesmo o Código de Defesa do Consumidor dando algumas garantias sobre
qualquer produto, gratuito ou não, as garantias sobre um produto gratuíto
são mínimas e demandariam uma extensa perícia para determinar se o seu
problema foi ou causado por uma falha do produto. Além disso, não sei até
que ponto as diversas resalvas contidas nos termos das licenças de uso não
amenizariam mais ainda tais coisas. Por tanto, como existem milhares de
empresas que vendem suporte sobre softwares livres, basta que esse
consumidor adquira um pacote de suporte desses e ele terá automaticamente a
quem reclamar e terá alguém responsável por atender à suas reclamações.

E ainda digo mais, diferente dos softwares fechados, o softwares livres
ainda dão a possibilidade do usuário receber assistência e suporte mesmo
quando ele não pagou pelo serviço, já que boa parte desses softwares é
abraçada por uma comunidade que corrige bugs e presta auxílio a novos
usuários sem cobrar nada por isso.


>
> Os milhões de olhos
>
> Um outro mito que ronda o Open Source é que ele tem melhor qualidade e é
> intrinsecamente mais seguro porque existem milhões de olhos revendo o
> software e pegando qualquer erro, já que o fonte sempre está disponível.
>
> Evidentemente muitos usuários poderão preferir pagar algum dinheiro e depois
> ter a quem reclamar do que ficar com esta efêmera "garantia dos milhões de
> olhos". Mesmo esta "garantia dos milhões de olhos" não é verdadeira por
>
> vários motivos. O primeiro é que a maioria das pessoas simplesmente não quer
> saber de examinar fonte nenhum. Outro é que a proliferação da quantidade de
> versões e distribuições torna esta revisão simplesmente impossível: não dá
>
> para rever todas as combinações e interações possíveis entre os vários
> produto e versões.
>
> Na verdade, a quantidade de olhos nem é tão grande assim. Um estudo recente
> de Stephen R. Schach da Universidade Vanderbilt prova que mais de 80% das
>
> modificações introduzidas em projetos Open Source como Gnome e Mozilla foram
> feitas por um pequeno grupo de desenvolvedores. Pior, ele prova que o número
> de variáveis globais presentes em versões de Linux cresce exponencialmente,
>
> enquanto o número de linhas cresce linearmente. O Linux caminha a passos
> largos para ser de manutenção impossível.
>
>
Realmente eu não acho que o simples fato do código fonte estar aberto
garanta a qualidade de um software. No entanto, o mesmo pode ser dito de um
software de código fechado. A diferença entre os dois é que o software
livre, por ter código aberto e por permitir a livre modificação, permite que
os usuários o inspecionem e ajudem a corrigir as falhas que os incomodam. Ou
seja, se vc pegar uma software fechado ruim, fica dependente que o
desenvolvedor daquele produto tenha a vontade de corrigir as falhas pra vc.
Se vc pega um software livre, mesmo que ninguém queira corrigir as falhas,
vc tem o direito de estudá-lase corrigí-las vc mesmo. Quanto à maioria dos
usuários não terem interesse pelos fontes, o objetivo nunca foi transformar
a todos em desenvolvedores. A questão é que aqueles que quiserem se
desenvolver ou que quiserem fazer uma modificação em função de uma
necessidade específica, tenham as condições para fazê-lo.


>
>
> Conclusão
>
> As promessas do Open Source de um mundo onde o todo o software é grátis soa
>
> como uma agradável utopia para alguns. Mas não é um modelo de negócio
> estável e capaz de se perpetuar e trazer avanços ao setor. Muito pelo
> contrário, caso o Open Source seja indiscriminadamente usado, o setor de
>
> software simplesmente entrará em colapso e deixará de existir, deixando os
> usuários à mercê de alguns "programadores beneméritos" que desenvolverão o
> que quiserem, quando quiserem e se quiserem.
>
> Nem o ramo de software nem a sociedade como um todo estarão bem servidas com
>
> o uso indiscriminado do Open Source.
>
>
Bom, por tudo que foi esclarecido anteriormente, acho que fica claro o quão
distorcida é a visão desse autor.

[]'s

Helton
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