A Arrogância e a auto-suficiência como eventuais causas do fracasso
ou
Algumas pedras no caminho do Linux.
 
Alfredo Pereira dos Santos
 
Muitos dos apologistas do software livre fazem críticas ásperas ao Windows, à Microsoft e ao seu fundador, Bill Gates. Os que assim procedem na verdade estão cuspindo no prato em que comem pois sem os microcomputadores a maioria dos que trabalham hoje com informática estariam fazendo outra coisa. E é muito provável que o Linux nem existisse. Não nos esqueçamos que o criador do Linux, Linus Torvald, o fez como um sistema operacional alternativo para ser usado num microcomputador que usava o chip 80386, da Intel, e o sistema operacional DOS (Disk Operating System) da Microsoft. Aliás, tanto o Torvald quanto o Ramus Lerdorf, alemão que criou o PHP (outro carro-chefe do software livre) estão hoje trabalhando para empresas norte-americanas.
 
Pode-se dizer muitas coisas do Bill Gates, exceto de que seja um cara estúpido. Quando a famosa e poderosa IBM resolveu entrar no ramo dos PCs e procurou a então pequena Microsoft para lhe propor que fizesse o software que rodaria nos seus micros, o seu representante, Jack Sams, um executivo de nível médio da IBM, não levou mais do que poucos minutos para descobrir que o seu interlocutor, Bill Gates, "era um dos caras mais espertos que já conhecera".
 
Naturalmente que o Bill nasceu bafejado pela sorte. O pai era um advogado ilustre em Seattle e a mãe uma professora de destaque na comunidade, integrante da diretoria do Security Pacific Bank e da junta de curadores da Universidade de Washington. Ademais, seus pais contribuiram muito para o desenvolvimento do seu incansável intelecto.
 
Ademais, ao contrário de muita gente que vive "metendo o pau nele", Gates viaja muito e lê sobre uma infinidade de assuntos sem ligação com computadores, o que lhe dá uma base de conhecimentos que pode usar para os fins que desejar, incluíndo-se ai a capacidade de argumentar com os seus interlocutores.
 
Durante algum tempo Gates pensou em ser matemático e chegou a participar do difícil concurso Putnam de Matemática, tendo ficado entre os cem primeiros alunos das escolas de preparatórios americanos. Entrou em Harvard em 1973, mas não terminou o curso, pois logo os computadores o absorveram completamente.
 
Gates era um hacker e como tal achava que a programação era um exercício intelectual. Mas, ao contrário da maioria dos demais, ele entendia que as possibilidades financeiras advindas do software tinham que ser levadas em conta. Essa divergência de pontos de vista fez com que ele fosse criticado pela comunidade hacker, que o considerou mercenário. Trata-se, pois, de um debate que tem mais de duas décadas.
 
Eu, particularmente, cito o Gates com uma certa frequência, especialmente quando me defronto com pais desinformados  ansiosos para dar computadores a seus filhos pequenos. Invariavelmente cito-lhes a frase do Bill: "OS MEUS FILHOS TERÃO COMPUTADORES, MAS ANTES TERÃO LIVROS".
 
Naturalmente que a boa origem do Bill e a sua inteligência não são suficientes para explicar o seu sucesso. Foi também preciso uma boa dose de sorte e que os seus adversários fizessem um monte de besteiras, entre elas a de substimá-lo.
 
Uma dessas besteiras foi cometida pela IBM. Steve Jobs, da Apple, em 1981 mostrou a Gates o computador Macintosh e este percebeu logo que o futuro estava naquele tipo de interface, com ícones, mouses e janelas. Coisa que a IBM não viu. Uma das maiores fraudes da década de 1980, patrocinada pela IBM e por sua mentalidade de mainframe, foi que as pessoas precisavam tornar-se "alfabetizadas em computador". Pais paranóicos correram imediatamente para comprar computadores, temendo que o filho ficasse para trás se não desvendasse rapidamente os segredos dessas máquinas. Na verdade, a alfabetização em computador era simplesmente uma maneira de os fabricantes fazerem com que os usuários sentissem que precisavam adaptar-se a essas máquinas. A introvisão fundamental que ocorreu primeiro a Jobs e um pouco depois a Gates era a que a situação devia ser invertida - os fabricantes de computadores deviam dar-se o trabalho de adaptar as máquinas aos usuários.
 
Uma fraude semelhante vem sendo cometida hoje pelos que comercializam os sistemas baseados em Linux. A diferença é que eles acham que o usuário dever ser "alfabetizado em hardware". Recentemente fui a uma noite de autógrafos de um livro sobre o Linux e, folheando-o, li a afirmação do autor de que uma vez instalada a distribuição o usuário poderia tranquilamente ver os seus DVDs. Disse-lhe que não era bem assim, pois eu havia instalado a referida distribuição e não houve como ver os meus DVDs, coisa que eu conseguia fazer  tranquilamente através da minha partição Windows do computador. Além disso, a placa de rede não fora reconhecida, coisa que o Windows fizera numa boa. O autor então pediu-me que lhe enviasse uma descrição completa do problema, o que fiz, sem que até hoje, passadas duas semanas, houvesse qualquer resposta. Diga-se em sua defesa que ninguém respondeu à pergunta. Exceto para botar a culpa no driver do fabricante da placa, falar em atualização do kernel, ou remeter-me à páginas que mais confundem do que esclarecem.
 
Fabricante de produtos eletrônicos informam aos usuários sobre a voltagem em que eles devem ser utilizados, se 110 ou 220 volts. Mutatis mutantis, para serem honestos os vendedores de distribuições Linux deveriam informar em que condições de hardware essas distribuições funcionam, para que o usuário não gaste dinheiro com equipamento onde o Linux não vai funcionar. Voltemos à IBM.
 
O sistema IBM media principalmente quantas linhas de código alguém escrevia, o que, na verdade, estimulava os programadores a escrever o software ineficiente (isto equivaleria a pagar escritores por palavra). Quando peças de software rodam devagar carregam o processador do PC e exigem computadores com muita memória para armazenar todo o código.
 
Uma das maiores brigas entre o pessoal da IBM e o da Microsoft ocorreu quando um programador desta última pegou um trecho de código da IBM que requeria 33 mil caracteres de espaço, e reescreveu-o em 200 caracteres ou 1/160 do espaço inicial. Essa solução foi considerada uma grosseria. Outros programadores da Microsoft reescreveram em seguida outras partes do código da IBM para torná-las menores e mais rápidas. Considerou-se isso uma grosseria ainda maior. Os gerentes da IBM começaram então a queixar-se de que, de acordo com o sistema de medição adotado na companhia, a Microsoft não estava fazendo o esforço que devia.
 
Os executivos da IBM certamente não leram o livro do José Guilherme Merquior, "A Natureza do Processo". Se o tivessem feito teriam aprendido que "a sociedade não privilegia o esforço, mas sim o resultado". Conheço gente que fez um enorme esforço para jogar bem xadrez, consumindo nele mais tempo (e com resultados pífios) do que o Kasparov levou para se tornar Grande Mestre, título que conquistou aos 13 anos de idade. O que devemos aplaudir, os maus resultados do esforçado ou os resultados brilhantes do gênio, conquistados com muito menos tempo e esforço?
 
O exemplo da IBM é revelador de quanta burrice ou safadeza pode se esconder por trás de uma fachada de arrogância. É realmente inacreditável que se gaste mais de 30 mil linhas de um código que pode ser feito com muito menos. Conheço de perto esse problema. Na minha prática profissional já encontrei gente gastando 50 linhas de código, que eu demonstrei que podia ser escrito em seis linhas. Mas não creio que se trate de burrice da IBM, o mais provável é que com o "código pesado" as máquinas ficassem lentas, induzindo o cliente a uma atualização do hardware. Que a IBM, oportunamente, iria prover, é claro.
 
Naturalmente que a Microsoft não iria fugir à regra e tem lá e cá as suas práticas inescrupulosas, entre as quais a de nos fazer de cobaias. Não sejamos ingênuos. O Bill Gates é norte-americano e um representante do capitalismo. E nós, brasileiros, terceiromundistas já tivemos tempo bastante para saber o que é isto. Como diria o Galbraith, referindo-se à General Motors, "Ela diz que defende o interesse público. Pode ser, mas ela defende, antes de tudo, os seus próprios interesses". E não nos esqueçamos do que dizia um famoso secretário de estado norte-americano, John Foster Dulles, "Um país não tem amigos mas sim interesses".
 
Alguns defensores do Linux, como eu já pude verificar, apostam na derrocada da Microsoft. Alguns se comportam como se fossem portadores de uma nova verdade que triunfará a despeito de tudo e de todos, tão naturalmente como um dia sucede ao outro. Trata-se de uma ilusão igual a dos que eu ouvia dizer, há 50 anos, que era iminente a derrocada do capitalismo.
 
Como um sistema operacional baseado no UNIX o Linux tem inúmeros aspectos positivos. Mas os seus apologistas, alguns dos quais estão se tornado tão mercenários quanto dizem ser o Bill Gates, tem sido tão incompetentes (coisa que o Bill não é, absolutamente, goste-se ou não dele) que anulam esses aspectos. É o mesmo tipo de arrogância e auto-suficiência que levou a IBM à derrocada.
 
Uma demonstração inequívoca dessa arrogância, que se confunde com a burrice, foi o fato de que mais da metade das pessoas que compraram computadores com Linux, patrocinados pelo governo, já migraram para o Windows, em decorrência das dificuldades que tiveram para usar o sistema. A notícia, que li recentemente num jornal carioca, provocou-me uma mistura de sensações, entre as quais a tristeza, a perplexidade e a irritação. Realmente é muita burrice e incompetência juntas. Lançar-se numa empreitada dessas, sem ter a infraestrutura adequada para atender os novos clientes, socorrendo-os nas suas dificuldades.
Somente a megalomania poderia levar alguém a achar que uma bonita interface gráfica, como as do KDE ou do Gnome, poderia deixar o usuário tão encantado a ponto de levá-lo a ignorar tudo o mais.
 
Se o Linux depender desse tipo de gente para se impor ao Windows dificilmente emplacará no Brasil. O Mário Quintana dizia que "Uma boa causa não salva um mau poeta". É verdade, mas pior ainda é que o mau poeta frequentemente prejudica a boa causa, matando-a, na pior das hipóteses.
 
Rio de Janeiro, 7 de janeiro de 2006
 
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