A partir do texto abaixo, retirado do Observatorio de Imprensa,
comecei a entender algumas coisas sobre toda a briga sobre TV Digital.
Mas ainda vejo pouquissimos ganhos a populacao, parece uma briga de
cachorro grande onde as Teles querem tomar um pedaco do mercado de
Radiodifusao, assim enfraquecendo o monopolios destas (o que seria
maravilhoso). Se abre mais a possibilidade de novos canais, de
Radiodifusao, ruim para Globo e bom para as dezenas de politicos que
vem a anos pleiteando uma concessao (e nao vejo nada de bom nisso).

  Jah ouvi ateh que a mudanca para TV Digital impediria (excluiria) as
pessoas sem recursos financeiros, o que me pareceria um Tiro no Pe,
porque sao eles que consomem mais TV. E na verdade o sujeito nao
precisa comprar uma TV Digital, carissima, para ter acesso a TV
Digital, na Europa tu compra um receptor de TV Digital para ligar numa
TV Analogica por 6 Euros (18 Reais).

  Segue Texto...

  TV DIGITAL
A verdadeira natureza do embate digital
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=368IPB001
Nelson Hoineff

A Embratel e a NET formalizaram na quarta-feira (8/2) o acordo para a
distribuição de serviços de telefonia da primeira pela rede de cabos
da segunda. Na prática, isso é o primeiro passo para a distribuição de
serviços integrados de telefonia, dados e sinais de TV por assinatura,
mais conhecido como triple-play.

Nos EUA, o assinante desse tipo de serviço já está pagando até 29,90
dólares por mês para ter acesso a chamadas nacionais ilimitadas, banda
larga e sinais de TV via internet. Não poderia ser de outra maneira,
aliás, porque todos esses sinais são da mesma natureza. A cobrança de
chamadas telefônicas a cada vez que um número é discado tornou-se
anacrônica há muito tempo.

O triple-play é a evolução natural da venda de serviços de comunicação
convergentes. A questão está bem resolvida entre as operadoras de
serviços de telefonia e de TV por assinatura, que compartilham vendas,
instalação, distribuição de sinais de TV e transmissão de voz.

O mesmo está longe de acontecer no que diz respeito ao transporte de
conteúdo. Há uma batalha entre rádiodifusores e operadoras de
telecomunicações que se estende há anos – e que se intensificou com a
aproximação do deadline para a definição do modelo brasileiro de
televisão digital. As duas partes reconhecem a sinergia entre suas
atividades, mas nenhuma quer abrir mão do que consideram seus
direitos.

Convergência tecnológica

Os rádiodifusores têm apelado sistematicamente para a Constituição:
sustentam que a Carta Magna já prevê a diferenciação de atribuições de
um e outro e que, portanto, não há nada a mudar. As teles, por seu
lado, adotam o discurso da situação de fato: defendem a tese de que
cabe ao usuário a decisão sobre a forma que deseja receber serviços
convergentes.

É por isso que a disputa entre teles e rádiodifusores acabou
polarizando o debate sobre a implantação da TV digital no país em
torno da questão da mobilidade. Os rádiodifusores têm usado o discurso
da transmissão digital móvel aberta e gratuita como cláusula pétrea
para o negócio. Essa posição aparentemente coincide com a do ministro
das Comunicações Hélio Costa, e implica a escolha do padrão japonês
ISDB, que permite a transmissão de sinais de televisão para aparelhos
celulares sem a utilização de canais de telefonia.

As emissoras de televisão atribuem também às teles pressões para que
esse tipo de transmissão não possa ser feita exclusivamente através
das faixas dos rádiodifusores, e tenha que ser efetuada através de uma
faixa adicional. Isso implicaria a escolha do padrão europeu DVB. As
teles argumentam que isso já acontece hoje com o rádio. O usuário pode
comprar aparelhos celulares que recebam sinais de rádio FM, mas os
sinais de telefonia e de rádio trafegam em faixas separadas.

O foco principal da questão, no entanto, situa-se no sentido oposto.
Os rádiodifusores querem evitar que as teles tenham o direito de
produzir e distribuir conteúdo, o que representaria, segundo eles, uma
concorrência desleal. O argumento principal é que todas as receitas
dos rádiodifusores advém unicamente da venda do espaço publicitário e
que a pulverização da oferta inviabilizaria os seus negócios. As
emissoras batem na tecla de que, com capital estrangeiro restrito a
30% do controle, não há como fazer face às operadoras, que na sua
maioria têm grandes investimentos externos.

Na quinta-feira (9/2), o ministro Hélio Costa admitiu que a
convergência tecnológica vai mesmo forçar uma revisão nas leis que
regem os setores da radiodifusão e das telecomunicações – além,
eventualmente, da própria Constituição. O ministro não quer nem ouvir
falar em mudar a Lei Geral de Telecomunicações para garantir às
empresas de telefonia o direito de distribuir conteúdo. Vários setores
insistem na mudança imediata da LGT e pedem o adiamento da decisão
sobre a TV digital. Na internet circulam pelo menos duas listas
colhendo assinaturas para isso. Mas, por enquanto, a única extensão de
prazo foi de um mês (para 10 de março) e não há dúvida que a transição
para o ambiente digital será definida por decreto.

Espaço da banalidade

Existem hoje no Brasil perto de 100 milhões de telefones celulares,
quase 50% a mais do que o número de receptores de televisão. O número
de usuários de vídeo móvel em todo o mundo cresceu quase 120% em 2005,
para cerca de 50 milhões. Para o usuário, os aplicativos audiovisuais
já são tão importantes quanto as aplicações telefônicas – e isso
crescerá bastante nos próximos anos. O denominador comum entre o que
pensam as teles e os rádiodifusores situa-se, portanto, na demanda por
conteúdo.

Demanda por conteúdo não significa a distribuição do mesmo conteúdo
por diferentes meios, mas de conteúdos originais para cada meio.
Ninguém vai preferir ver a novela das 8 pelo celular, mas a
necessidade da criação de conteúdos específicos vai crescer
exponencialmente. Celulares T-DMB, lançados recentemente na Coréia,
permitem recepção em alta qualidade de sinais de televisão
distribuídos por operadores de TV para telefonia móvel. Por isso, é
muito difícil olhar para o futuro da radiodifusão e das
telecomunicações no Brasil sem enxergar a necessidade de uma profunda
revolução nos mecanismos de construção de conteúdo.

Isto significa desde a pesquisa de modelos de conteúdo que levem em
conta atribuições específicas das plataformas digitais – como a
interatividade – até o desenvolvimento de mecanismos de produção
adequados a essa demanda. É impossível, em resumo, pensar num ambiente
de construção de conteúdo para a mídia convergente onde não estejam
presentes, em grande escala, os produtores de conteúdo desvinculados
das emissoras e, por que não, a própria academia. Não se deve esquecer
que das universidades vieram as grandes contribuições para o
desenvolvimento do modelo de TV digital que será implantado no Brasil.

Os rádiodifusores insistem que transmissões em HDTV são
imprescindíveis para que a televisão brasileira possa manter sintonia
com o desenvolvimento do meio no resto do mundo. Estão absolutamente
corretos neste ponto. Mas a construção de uma programação original e
competitiva é muito mais importante do que isso. A televisão por
assinatura no Brasil acaba de aumentar seu share para 28%. O que isso
reflete é o envelhecimento do modelo de programação da televisão
aberta, que, cá entre nós, jamais foi um padrão para o mundo (exceto
em espasmos da teledramaturgia) e atualmente é muito menos.

A verdade é que a televisão aberta brasileira não está fazendo jus ao
extraordinário potencial do meio: ela está preguiçosa, antiga, pouco
inspirada. Falta-lhe a auto-estima necessária para o aprimoramento, o
que é condição para o desenvolvimento de qualquer atividade comercial
ou cultural e, de resto, para o crescimento de qualquer ser humano.

Não é esse desprezo por si mesma que vai tornar a televisão mais
competitiva num ambiente digital. As tardes de domingo não vão
melhorar se a definição da imagem for maior e o áudio, mais intenso. A
televisão só vai melhorar se conseguir crescer intelectualmente,
renovar seu público, acompanhar pelo menos o desenvolvimento
educacional da população, provar aos mais jovens que ela não é o
espaço para a banalidade, mas para a criação, a invenção, a conquista
das mentes e dos corações dos espectadores.

Mediocridade e excelência

As emissoras gostam de minimizar essa questão. Sustentam que a
qualidade do que é produzido é questão de foro íntimo e que qualquer
reflexão sobre isso significa uma tomada de posição em favor do
controle externo ou até da censura.

Esse é um grande erro. A insistência nessa tese representa um dos
maiores desserviços que a televisão aberta poderia prestar ao usuário
e também à nobreza do veículo. Sugere que os grandes inimigos da
televisão aberta não são as teles, muito menos as formas alternativas
de produção e difusão de conteúdo. O inimigo está lá dentro,
sustentando um modelo de construção de programação que só tem
enfraquecido intelectualmente o veículo, afastando-o da população mais
jovem e provocando resultados comerciais dos quais a própria televisão
se queixa todos os dias. Quem não dá a mínima bola para isso não está
defendendo a televisão aberta. Está servindo ao seu encolhimento.

A televisão digital que será implantada a partir do próximo mês no
Brasil terá transmissões em HDTV e capacidade interativa através de
uma linha de retorno que virá possivelmente pelas operadoras de
telefonia ou de TV por assinatura. Muito provavelmente terá também a
capacidade de enviar sinais para aparelhos celulares sem a
intermediação das teles. Todos esses avanços vão imediatamente se
incorporar aos novos paradigmas do meio e ficarão por aí, se as
emissoras não aproveitarem a oportunidade para fazer o que de fato
pode ser revolucionário para a televisão: a mudança dos seus padrões
de qualidade e desempenho.

Isto só pode se dar com o reconhecimento que, ressalvadas as exceções
de praxe, o que a televisão aberta brasileira está oferecendo neste
momento ao espectador fica bem abaixo do respeito que as emissoras
devem ter com o seu usuário e com a grandeza do meio que utilizam. E
também com o entendimento que uma nova cultura – de programação e de
utilização dos meios de produção – tem que tomar o lugar da convicção
absurda, porém sedimentada, de que a televisão é o espaço da
estupidez.

A verdadeira disputa na implantação da TV digital no Brasil não se dá
entre os rádiodifusores e as teles. Ela acontece entre a mediocridade
e a excelência. O lado que vencer essa batalha é que vai determinar o
que será a televisão brasileira dos próximos 50 anos.
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