Oi Cristiano, blz cara? Vou tentar colocar aqui alguns comentários e
desfazer algumas confusões.

On Wed, Mar 08, 2006 at 09:32:15AM -0300, Cristiano Canguçu wrote:
> Tiago Vaz, jornalista não é (e nem se diz, exceto os colunistas com
> décadas de estrada) "especialista", quanto mais quando trabalha em
> cadernos gerais - como o caderno Dez! do A Tarde - em matérias sobre
> assuntos específicos - como software livre :) Bom, na verdade o
> caderno Dez tem um foco, mas é em cultura jovem, não em tecnologia.

Não é questão de se dizer especialista. Eu me referi ao _fato_ de se ter
especializado numa profissão, e fiz alusão ao texto que enviei pra essa
lista anteriormente, de Fábio de Oliveira Ribeiro, que pode ser lido
em http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2006/02/346378.shtml

Eis um parágrafo que talvez contextualize minha colocação: 

"Apesar de seus benefícios, a Internet tem causado desconforto numa
categoria de pessoas: os especialistas. Desde o século XIX o Ocidente
atribuiu um valor excessivo aos especialistas. Faculdades foram criadas
para formá-los, leis foram aprovadas para regulamentar suas profissões
e, principalmente, proibir o exercício das mesmas por leigos. OABs,
Conselhos Federais e toda uma gama de instituições públicas ou quase
públicas foram criadas para defender e proteger os especialistas."
 
> Pelo contrário, jornalista é "generalista". Cada dia tem matéria sobre
> um assunto louco diferente, e tem de tentar entender um mundo
> diferente e transformar os assuntos complexos em inteligíveis para o
> leitor-geral que não pertence ao mundo que está sendo coberto na
> matéria.

Veja que essa não é uma crítica direta aos jornalistas, muito menos ao
jornalista que assinou esta matéria. Eu apenas não concordo que se
publique algo numa mídia de peso como o A Tarde seguindo esse sistema.
Quem é o culpado? Há culpado? Não sei. Mas algo está errado. Grande
parte das notícias que lemos na grande mídia, especialmente aquelas que
tratam algum assunto um pouco mais complexo, são 'bugadas'. Talvez a
cura esteja perto. No momento em que as pessoas começam a entender que é
melhor procurar notícias em fontes alternativas, os grandes donos da
notícia terão que agir rápido. Aliás, isso já está acontecendo. Veja o
exemplo do encontro em Atenas realizado pela associação mundial de
jornais (WAN), onde uma das 5 idéias básicas para inovar os jornais foi: 

"No mundo, há milhões de pessoas querendo fazer o trabalho de jornalista
e publicar as suas próprias matérias.Os editores,hoje, não têm mais
somente 50 profissionais à sua disposição,mas 50 mil pessoas.Os jornais
têm que ser melhores que o Google, por exemplo,e desenvolver ferramentas
que determinem,em meio à avalanche de informações,as que realmente têm
valor".

Como geralmente os grandes são também os mais lentos e tentam fugir das
mudanças utilizando os meios mais escrotos e menos inteligentes (sim, o
google é uma exceção, não que não seja escroto, mas que não tem nada de
pouco inteligente lá), a WAN, assim como acontece no mundo dos softwares
(ex. SCO), já está começando a procurar meios de conter o Google nas
pesquisas por notícias, acusando sua ferramenta de busca de "um meio
cleptomaníaco" de fazer negócio. Obviamente eles irão utilizar o legalês
incompreensível por nós, meros mortais:

"Um grupo formado por jornais, revistas e editoras acusa o Google e
outras ferramentas de busca de notícias online de roubo de conteúdo."
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=366MON019

É uma crítica que se estende a mim próprio, "especialista" numa área em
que os melhores não são os especialistas. Sentimos isso quando
comparamos dois softwares: um proprietário -- por especialistas, e um
livre -- por hackers. 99% das vezes o segundo é de fato dotado de
melhor qualidade técnica que o primeiro.
 
> É difícil que os jornalistas de publicações gerais entendam direito o
> que é distribuição, ambiente de desktop (heh. se conseguirmos explicar
> que gnome é uma "interface gráfica", já é lucro), projeto GNU,
> filosofia hacker, diferença entre software gratuito e livre, para
> cobrir  _uma matéria isolada_.
> 
> Eu sou jornalista formado e tento acompanhar o PSL-BA desde antes do
> início (tempos malucos do I Festival GNU/Linux) e digo que o
> aprendizado do mundo do software livre levou um tempo até eu entender
> boa parte das sutilezas.

Totalmente de acordo. É muito difícil.
 
> Agora, quem é de caderno específico de tecnologia e informática não
> pode cometer esses erros, não. Os cadernos e revistas de informática
> precisam fazer essa lição de casa, se não eles serão (e estão sendo)
> passados para trás.

Olha, pra mim a coisa deve estar bem próxima disso aqui: não escreva
sobre o que você não sabe. Mais próximo quanto é seu poder de influência
e formação de opinião. Não é "elegante" da minha parte escrever software
ruim, sem saber o que estou fazendo, cometendo erros grosseiros e algo
que venha comprometer os usuários deste software. Mas é
"irresponsabilidade", por exemplo, o Linus deixar entrar um patch mal
feito no kernel linux, pois isso terá um impacto muito maior que meu
softwarezinho que está por aí, na internet. Em tempo: minhas críticas
duras a Sulamita quando ela falou umas bobagens sobre o Debian tem tudo
a ver com isso que escrevi.
 
> Do mesmo jeito que matérias sobre software livre e "linux" em
> publicações gerais vão demorar a se livrar de algumas confusões,
> tentem perguntar a um médico sobre qualquer matéria sobre medicina em
> revistas semanais (Isto É, Veja, Época, etc). É tanto erro que dá
> vergonha até em mim.

Pois é, a Veja é líder nisso. Recentemente divulgou uma reportagem sobre
o astronauta brasileiro, onde fez diversas referências à sua "aeronave",
sem saber distinguir de uma "espaçonave", como se houvesse ar no
espaço... Bom, por fim, eu fico com o aforismo de Arthur Schopenhauer,
quando diz que "...só se dedicará a um assunto com toda seriedade alguém
que esteja envolvido de modo imediato e que se ocupe dele com amor, com
amore." (A arte de escrever)
 
> Jornalismo é uma profissão ingrata... Hehehe. Com um bom empurrão
> (parabéns a Lucas e Carla) a gente pode fazer boas matérias sobre
> assuntos complicados. Mas lembrem-se sempre disso, jornalista em geral
> _não é_ especialista e precisa de uma conversa bem didática quando se
> meter a falar sobre software livre :)

Sim, Pedro tem uma opinião genial sobre isso: deixem a gente revisar
antes! :) 

Abração cara, e acredito que assim como eu, vc também espera o tempo em
que quem fará as coisas será quem souber fazer as coisas ;)

-- 
Tiago Bortoletto Vaz
http://tiagovaz.org
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"É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer."

Rondó da Liberdade, Carlos Marighella
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