On 6/4/06, Alexandre Oliva <[EMAIL PROTECTED]> wrote:

Até aqui, está muitíssimo bom (ou mau, se considerar a minha
preferência por não usar o termo viral :-), mesmo considerando que
tomar o caso específico de transfusão de sangue, mesmo que
generalizado para cobrir também transplantes, para justificar o uso do
termo viral continue me parecendo um pouco forçado.

De fato, a noção de transfusão de sangue como analogia da situação de
derivação da GNU GPL me parece bastante inapropriada no seguinte
sentido: quando se utiliza código, ou parte de código, em outro
programa, esse novo programa é um trabalho derivado do primeiro,
caracterizando num certo sentido uma relação de paternidade, em que o
novo programa surge como descendente do outro do qual se retirou o
trecho licenciado sob a GPL.  Ou seja, se há de se buscar uma analogia
defensável para o termo `viral' aplicado à GPL, parece-me que deva
envolver situações em que o vírus é transmitido da mãe ou do pai para
um filho, na concepção ou na gestação.


O problema é que a analogia não preenche todas as lacunas porque o
modelo tem suas limitações. Um programa pode ter concepção assexuada
(um único programador?) ou multissexuada (colaborativo?). A herança é
canônicamente dividida igualmente entre todo o código e seus
respectivos colaboradores? O que dizer da paternidade de um programa
que usa bibliotecas de diversas origens diferentes e com licenças
diferentes?


Quando se compara a transfusão de sangue com a transfusão de código, o
que se busca transferir é o sangue/código, enquanto o eventual
malefício que venha junto é algo inesperado ou ao menos indesejável.

Por isso, enquanto para transfusão de sangue os vários patógenos
que possam estar no sangue sejam o eventual malefício que vem junto
com o sangue, para a transfusão de código o código é o que se quer,
não algo que indesejavelmente vem junto.


Concordo. Acho que vou ter que mudar a abordagem para distinguir vírus
de bactérias ou protozoários, partindo do pressuposto de que o vírus é
algo mais sutil, de outra natureza e difícil de detectar. A licença
seria também algo igualmente sutil.


O que vem junto e, para os opositores da liberdade, é indesejável é a
própria liberdade, ou, se preferir, a licença que garante a liberdade.

Poder-se-ia dizer, portanto, que a GPL adquirida através de adoção de
código se assemelha a um vírus adquirido através de transfusão de
sangue, mas ainda assim, ainda não há elemento que limite a escolha a
vírus; poderia ser muito bem qualquer micro-organismo patógeno.

A analogia de dizer que os pedaços de código fonte são portanto como
vírus, seres não completos, não se aplica porque não são elementos
acidentais na transfusão.


Vou ter que mudar a analogia de código transplantado equivaler a
pedaços de DNA. Ao invés disso, código transplantado se equivale a um
tecido vivo transplantado.

A licença GPL, nesse novo contexto, seria o mesmo que considerar que
as células transplantadas estão contaminadas por um vírus "dormente",
dentro do citoplasma das células, com o potencial de eclodir no
momento mais apropriado.

A licença não é detectada pela pura análise sintática do código,
porque ela está "dormente" (é uma característica sutil, escrita em uma
"linguagem" que é estranha ou ortogonal à linguagem do programa). A
licença só "acorda" quando o software é publicado.

Essa distinção seria semelhante ao que distingüe vírus de outros
patógenos. Os outros patógenos (bactérias, protozoários, fungos etc.)
são mais semelhantes, morfologicamente, fisiologicamente,
evolutivamente etc., ao tecido vivo do que o vírus. Assim como licença
e código têm propósitos e origens distintos.


Cabe ainda apontar que, quando você diz código fonte (algoritmos),
causa uma grande confusão, pois copiar um algoritmo não traz consigo
qualquer exigência em termos de lei de direito autoral, já que
algoritmos não são cobertos por ela.  A lei trata da expressão do
algoritmo, ou seja, o código que o implementa, mas não do algoritmo em
si.


De fato, foi um vacilo meu aqui. O que eu quero dizer é que um código
expressa um algoritmo, tem uma função e poderia ser comparado com uma
seqüência de DNA (assim como outros algortimos teriam outras
seqüências). A inclusão de tal código em outro programa caracteriza um
certo tipo de herança das propriedades do original.


Há outra forma em que licenças possam influenciar a possibilidade de
utilizar algoritmos, porém.  Há países estúpidos o suficientes para
permitir, em suas leis de patentes, a patentabilidade de algoritmos,
que são construções matemáticas.  Felizmente esse não é o caso no
Brasil, ou pelo menos o que diz nossa lei.

> Desse modo, transfusão de código é mais semelhante a contaminação por
> vírus do que por bactéria ou protozoário.

Creio ter conseguido descaracterizar essa situação, concorda?


Até aqui, perfeito, mas a sua explicação anterior acabou me dando uma
outra idéia. :)


[]'s!
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Pedro de Medeiros - Computer Science - University of Brasília
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