Olá

Em primeiro lugar, me desculpem retomar o tópico antigo, mas estava em férias e com pouco acesso à net para acompanhar o tópico.

Mas queria fazer algumas observações:

Não defendo nem nunca defendi o uso do termo viral ou vírus. Pelo contrário, acho que ele tem um caráter negativo, propositalmente enfatizado quando usado por aqueles que primeiro estabeleceram a analogia, os executivos da MS. Usei, sim, o termo em minha mensagem mas logo me corrigi afirmando que deveria ter usado aspas, que mostrariam que aquela palavra estava sendo usada em um contexto especial. Na mensagem original o objetivo era alertar para o fato de que a MS e outros combatem a GPL e agora promovem e defendem a BSD pq esta permite a propagação mais fácil do software proprietário e facilita a apropriação privada do trabalho livre. Essa, penso, é uma questão importantísima e que foi deixada de lado aqui para dar lugar a um debate que é equivocado, na minha opinião, sobre metáforas e afins.

Sou tão contra o uso do termo vírus como sou contra o uso do termo herança, empregado pelo Oliva. Enquanto o termo vírus lembra doença, patologia, o termo herança lembra propriedade privada, riqueza monopolizada e transmitida a poucos. Sim, eu sei que o termo herança tem uma raiz diferente, mas acho que aqui é que está o equívoco nesse debate. A linguagem e o sentido não são como medidas, cuja régua é o dicionário. São dados socialmente, pelo uso corrente das palavras. Assim, uma palavra que tem uma determinada raiz e uma definição no dicionário pode lembrar coisas altamente distintas pelo seu uso social e político. A história da palavra não se encerra na sua origem, o sentido vai se transformando e aponta para coisas distintas pelo uso social da linguagem. Uma palavra pode ter um sentido bastante negativo em um certo momento mas, com o tempo, esse sentido pode se modificar e refletir outras idéias que estão presentes no nosso imaginário. Herança não é ruim (todos certamente gostariam de ter uma para receber), mas será que é a palavra adequada para um movimento cujo objetivo é construir conhecimento que não seja propriedade exclusiva de alguns poucos?

Mas voltando ao termo vírus. Não adianta discutirmos exaustivamente o funcionamento biológico dos vírus para decidirmos se essa é a analogia adequada. A boa analogia é construída não partindo da definição enciclopédica das coisas, mas da percepção sobre qual é o sentido social e político das palavras. Quando as pessoas pensam em vírus o que vêm na cabeça delas? Se falarmos em "vírus da liberdade" o sentido não se torna positivo? Minha pergunta é real, não é retórica, nós podemos optar por subverter o sentido da palavra vírus se acharmos que temos força para isso. Isso já acontece com a palavra liberdade, reparem na disputa de sentidos que há sobre ela, para alguns a liberdade é poder criar e  ter instrumentos para isso, para outros a liberdade é a liberdade do capital. Isso sem falar no uso que Bush e os neo-conservadores fazem da liberdade, subvertida para que possam promover a guerra.

[]
rafael

On 6/2/06, Alexandre Oliva <[EMAIL PROTECTED]> wrote:
On Jun  1, 2006, [EMAIL PROTECTED] wrote:

>> On 5/29/06, Alexandre Oliva <[EMAIL PROTECTED]> wrote:

Na verdade, foi Rafael Evangelista quem escreveu:

> ...
>> Eu acho que o termo heranca aponta para relacoes tao ruins quanto o termo
>> virus. Alem disso, herancas nao se espalham da mesma maneira. Seria muito
>> bom q o dinheiro se espalhasse como virus :) Eu concordo com a rejeicao ao
>> termo virus (na minha dissertacao de mestrado, na qual estudei exatamente
>> essas relacoes, ressalto esse ponto). Mas a palavra heranca tb nao eh uma
>> boa metafora (eh menos exata, alem de tudo)

>>> Alexandre Oliva         http://www.lsd.ic.unicamp.br/~oliva/

Em minha mensagem, eu contestei o que ele falou e defendi o uso do
termo herança, portanto parece-me que você esteja concordando comigo e
discordando dele, certo?

> Entendo ainda que ao assumirmos o termo "viral" como
> algo similar à herança/hereditariedade estararíamos
> ESTRATEGICAMENTE "tomando" o termo do uso inadequado
> dos nossos "adversários" e teríamos MENOS trabalho em
> ficarmos explicando o que não deveríamos ter a incumbência
> de explicar.

Ainda não enxergo como seja possível associar o significado do termo
`viral' com o efeito da GNU GPL.  Viral significa relacionado a ou
causado por um vírus.

Vírus são seres (nem há consenso se são vivos ou não) constituídos de
material genético e uma capa protéica, que se reproduzem através de
células hospedeiras, que utilizam para copiar seu material genético.

Vírus são comumente associados a doenças, e às vezes se transmitem por
contato físico, às vezes pelo ar (?), às vezes através de relações
sexuais e, em alguns casos, passam de uma mãe infectada para filhos
durante a gestação.

Não vejo qualquer característica da GNU GPL que se assemelhe com as
descrições acima e que também seja característica exclusiva ou ao
menos proeminente de vírus.

Alguém consegue dar uma de advogado do diabo e defender o uso do termo
viral no contexto da GNU GPL, sob a luz da apresentação acima, por
favor?

Pessoalmente, eu acho que o vírus está é na cabeça de quem aceita o
uso desse termo sem pé nem cabeça :-) :-)

--
Alexandre Oliva         http://www.lsd.ic.unicamp.br/~oliva/
Secretary for FSF Latin America         http://www.fsfla.org/
Red Hat Compiler Engineer   [EMAIL PROTECTED]redhat.com, gcc.gnu.org}
Free Software Evangelist  [EMAIL PROTECTED] lsd.ic.unicamp.br, gnu.org}
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