"A Dataprev tem de existir"

:: Luiz Queiroz     :: 28/07/2006

A Dataprev - Empresa de Tecnologia e Informações da Previdência Social, já deu o primeiro passo rumo à modernização do seu parque de Informática que atende diariamente à milhões de aposentados e pensionistas. Depois de um longo período sem investimentos pelo governo, a empresa, enfim, começa a ser encarada como estratégica, na busca da excelência no atendimento ao cidadão. O Governo Lula tem como meta, acabar com o vexame que se vê diariamente na TV, dos velinhos dormindo nas filas dos postos de atendimento do INSS. Para isso, entendeu que a Dataprev tem o papel fundamental na busca desta excelência. A empresa já está concluindo a contratação de uma fábrica de software, que terá como missão, criar novos sistemas, em substituição aos legados. Uma nova rede de transmissão de dados também será contratada em breve pela empresa. Esses são alguns dos planos em andamento, anunciados pelo novo presidente, José Antônio Borba Soares. Como essa reestruturação ainda demanda tempo para ser implementada, novos acordos estão sendo debatidos com a empresa Unisys, agora num clima mais cordial. Destas discussões também participam o Ministério Público Federal e os órgãos federais de controle. José Soares concedeu uma entrevista exclusiva ao Convergência Digital, na qual ele fala dos planos da empresa:

 

CD - Quais são as principais demandas e os planos do senhor para a Dataprev?

José Soares - Já temos algumas medidas priorizadas. A primeira delas e que é a questão central da Dataprev é o processamento de dados. A empresa tem uma pendência junto com a Unisys, que é o principal fornecedor de processamento de dados. Existem vários apontamentos de órgãos de controle contra essa questão, inclusive jurídicos e hoje nós temos um ambiente de processamento já com bastante problema de desempenho. Então começamos um processo de negociação com a Unisys para resolvermos essa questão de processamento, ao passo que também iniciamos discussões para solucionar o impasse jurídico.

CD - Esse problema de desempenho seria reflexo dessas pendências jurídicas?

Soares - Não é que ela guarde diretamente essa relação. Na verdade existe um crescimento normal de demanda por processamento numa empresa como a Dataprev e se você não tem aquele investimento natural de ampliação da sua capacidade, você acaba tendo alguns estrangulamentos. Existe também nos últimos seis meses, ou talvez um ano, um crescimento muito grande na disponibilização de serviços Web para a população. E isso acaba chegando, mesmo que a sua Web esteja em plataforma baixa, ela acaba chegando nos "Unisys" (mainframes), que é onde se concentra a sua base de dados. Mesmo com todas as medidas que foram feitas, providências, a meu ver, muito corretas, você ainda têm problemas no processamento de dados.

CD - E como anda o diálogo com a Unisys? A empresa tem procurado conversar e negociar este impasse tecnológico e jurídico?

Soares - Houve uma mudança de postura na empresa. Eu não tenho queixa nenhuma. Estou apenas há 20 dias no cargo, mas já tivemos reuniões e mantido uma aproximação para ver as necessidades. Mas essa boa relação não é só entre a Dataprev com a Unisys. Temos também, com os órgãos de controle. Tem de haver um acordo que envolva todas as partes. Mas tem uma coisa interessante nesta situação. A Dataprev e o INSS vêm adotando procedimentos que agora já começam a surtir efeito positivo. Essas providências são voltadas para a Previdência caminhar para uma nova plataforma tecnológica. Com fatos concretos. O INSS e a Dataprev tinham projeto grande de definição de novos sistemas e não é apenas a migração dos sistemas legados que rodam no ambiente Unisys, mas um novo modelo de sistemas que substituirão os contidos no ambiente mainframe. Graças a um financiamento do PróPrev foi feita a contratação de uma fábrica de software para trabalhar conjuntamente no desenvolvimento desses sistemas.

CD - Já está em operação?
Soares
- A licitação já foi concluída há cerca de 60 dias, uma licitação feita pelo INSS para um projeto, cuja Dataprev será a gestora dessa fábrica. Assinado o contrato, que ainda não foi por causa de algumas questões administrativas, ela começará imediatamente a desenvolver os sistemas. Então, vamos entrar num momento muito importante, que será o de desenvolver software que reduzirá os sistemas que rodam no ambiente Unisys. Até agora, as medidas que vinham sendo adotadas no sentido de sair do ambiente Unisys, foram adotadas em plataforma baixa, nunca no ambiente mainframe. Essa é a primeira vez que vamos começar um processo, tomar medidas, no sentido do desenvolvimento de novos sistemas, que no devido tempo irá retirar o processamento de dados do ambiente Unisys.

CD - Quais são as empresas que farão parte dessa fábrica de software, que irá desenvolver os novos sistemas e qual o motivo da demora na assinatura dos contratos?

Soares - Essa fábrica de software é formada pelas empresas Tata Consultancy Services do Brasil e as consorciadas DBA, MSA e Policentro. A gerência da fábrica de software ficará a cargo da Dataprev. A demora se deve ao fato da licitação ter sido feita pelo INSS e os recursos envolverem um projeto do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento). E isso naturalmente leva certo tempo para assinatura do convênio e dos contratos. Mas acredito que até a próxima semana já estejamos com tudo pronto para iniciar o trabalho. Inclusive vale informar, que a Dataprev está chamando 300 concursados, para que a empresa disponha de pessoal técnico, para entrar nesse mundo, nessa fábrica nova. Ou seja, vai ser um projeto no qual a Dataprev se junta com a nova fábrica e não simplesmente contratando desenvolvimento de sistemas. Porque depois eles continuarão o processo dentro da empresa. Este é o fato mais concreto de planejamento estratégico e de execução, para a sairmos dos sistemas atuais que foram desenvolvidos há muito tempo, para um novo plano de modernização com o INSS.

CD - Mas o senhor trabalha com qual cronograma para essa mudança?

Soares - Isso tem uma curva, no meu modo de ver, de no mínimo, com bastante otimismo, de quatro a cinco anos de trabalho conjunto. A única coisa boa é que já no final do primeiro ano você terá resultados a apresentar. Mas é um trabalho de quatro a cinco anos. Se ele começar agora, já poderá estar dando frutos no final do primeiro semestre de 2007.

CD - Durante esse período, o senhor também precisará resolver esse impasse da Unisys, junto com os órgãos federais de controle, pois o senhor ainda dependerá dela. Como tem sido trabalhar com essa espada sobre a cabeça?

Soares - Nós temos de encontrar uma solução, de termos um contrato que os órgãos de controle nos dêem o seu aval de correção, mas que ele nos deixe em condições de prestar um bom serviço durante todo esse período. Durante esses quatro anos você terá uma curva de redução e de um mundo novo se aproximando, mas têm percalços, coisas novas que surgem no meio do caminho. A gente não pode dizer: "o mundo vai ficar parado, esperando pela chegada do novo". Mas o fato que eu considero mais importante é que tem um projeto que ele não nasceu hoje, vem sendo construído pelo INSS e a Dataprev há mais de ano, um trabalho de modernização, de redesenho e reestruturação de processos, um projeto de fôlego e a fábrica dará essa capacidade de produtividade, do projeto se tornar real.

CD - E como os funcionários da Dataprev estão reagindo às novas mudanças, num ambiente em que já se teve vários presidentes e diretores?

Soares - É, na verdade acho que sou o quarto presidente. Cheguei logo depois de um momento muito duro de relação entre a empresa e seu grupo funcional, que foi uma greve, forte, de vários dias. Mas eu acho que tenho de ter comigo também, como missão, o resgate, a auto-estima e a valorização do corpo funcional. A Dataprev é sempre mais vista por aquilo que ela não fez, do que pelo que ela faz. E a Dataprev faz muita coisa: Todos os benefícios nunca tiveram problemas de pagamento. Não é uma empresa que tenha tido grandes investimentos em Tecnologia. A Dataprev trabalha no mundo Unisys no fio da navalha, e isso requer o esforço - que eu considero o mais importante realizado pelos funcionários - de viver neste mundo apertado, sem investimentos, mas conseguindo manter os sistemas em operação, usando toda a sua criatividade. O funcionário da Dataprev tem uma ótima resposta a essa situação, o que denota a qualidade do seu corpo técnico. É claro que uma empresa, com tantos anos de existência, tem algumas coisas que precisam ser revistas. Mas o que é importante é que a Dataprev têm uma importância para o governo enorme, tem de ser valorizada e o seu corpo funcional está dentro desse contexto. A Dataprev é uma empresa que tem uma cultura de cuidar, com qualidade e responsabilidade, das informações sociais do Governo. É uma cultura muito forte e disseminada na empresa. Então temos de usar melhor esta cultura para ganharmos prestígio para a empresa e que os funcionários se sintam ainda mais qualificados e prestigiados pelo serviço que prestam ao país. Temos de acabar com aquele processo que normalmente existe nas empresas públicas de informática, de se começar uma discussão interna provocada por fatores externos, do tipo: "Qual a razão dela existir". A Dataprev está aí para existir e vai continuar existindo. Tem de existir. A empresa deve mostrar o seu serviço e o seu papel na sociedade, que são muito importantes, porque hoje esse trabalho já é reconhecido e considerado como importante aos olhos do governo.

CD - Mesmo o senhor falando das boas perspectivas de futuro da Dataprev, ainda existe hoje um problema de estrangulamento das atividades da empresa no atendimento da população. O senhor já falou da necessidade de renovação dos sistemas, mas existe algum planejamento de contingência, de curto prazo para aumentar a capacidade de processamento dos dados?

Soares - Ontem tivemos uma reunião de Conselho, em que a gente aprovou o lançamento de um edital para a contratação de uma nova rede de transmissão de dados, para atendermos um total de 53,6 mil estações de trabalho. Colocando esse projeto na rua nós teremos uma nova "estrada" para o tráfego das informações e uma melhora de qualidade no atendimento. Outras medidas estão sendo tomadas, buscando essa capacidade de processamento. O projeto do Governo é acabar com as filas nos postos de atendimento. Isso requer capacidade de processamento. É capacidade de você ter uma infra-estrutura por trás, que tenha condições de alguém chegar lá e obter uma resposta. Então, quanto mais tivermos problemas de desempenho de processamento, mais teremos problemas de atendimento nos postos.

CD - O edital para a licitação de uma nova rede vai sair logo?

Soares - Deve sair nos próximos dias. Nossa rede é dividida por regiões e trabalha com Frame Relay. As regionais ainda têm pontas e estamos procurando limpar isso, torná-la o mais livre possível, para termos maior velocidade. Também queremos um plano de SLA mais correto com nossas necessidades.


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