Em versões bastante diferentes das originais – embora não menos
criativas – músicas de Edu Lobo e Cartola, interpretadas
pela cantora Elen Nas, deram as boas-vindas ao público que
assistiu à cerimônia de abertura do IV Fórum de Software Livre
do Rio de Janeiro, realizada na noite desta segunda-feira (16/10), no
auditório Paulo Freire da Universidade Federal do Estado do Rio de
Janeiro (Unirio), na Urca. Alterando letra e melodia de famosas canções
em uma performance de guitarra e voz sobre bases eletrônicas, a artista
incorporou bem o espírito deste que é um dos maiores eventos nacionais
dedicados aos programas de código livre e aberto: uma vez
compartilhado, todo conhecimento é passível de aprimoramento, pode
renascer sob novas formas de distribuição, atingir públicos ainda
maiores e, por que não, se transformar em um vantajoso negócio.

“A criação não necessita controle, ela fere todo o status
quo. Pergunte a todos os cientistas, pergunte à Galileu
Galileu”, provocava Elen, ao declamar sobre temas como o
potencial transformador da criação artística, inteligência
coletiva e a nova revolução econômica proporcionada pela
chegada das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC’s). Até
a próxima sexta-feira, 20 de outubro, será possível conferir, na
teoria e na prática, através de 39 palestras e 19 minicursos, como
o Software Livre vem sendo aplicado de forma bem-sucedida nas
áreas de Bancos de Dados, Sistemas Operacionais, Linguagens de
Programação e Ferramentas de Infra-estrutura, ou ainda, como
ele pode ser encarado como oportunidade de negócio para
empresas e governos e ajudar a desenvolver a indústria
nacional de aplicativos.

Os seminários de natureza técnica estão acontecendo na
própria Unirio até quarta-feira (18/10), enquanto os
voltados para os segmentos de Governo e Negócios serão
realizados nos dias 19 e 20/10, quinta e sexta-feira, no
auditório do Clube de Engenharia, no Centro da capital
fluminense. A realização do evento é fruto de uma parceria
entre Proderj (Centro de Tecnologia da Informação e Comunicação
do Estado do Rio de Janeiro), Unirio, Uerj (Universidade do
Estado do Rio de Janeiro), Abrasol (Associação Brasileira de
Software Livre) e Rede Software Rio (composta pela Assespro,
RioSoft e pelo Seprorj).

Sem sair do tom, a reitora da Unirio Malvina Tuttman, primeira
convidada da mesa de abertura a discursar, exaltou justamente o
potencial do Software Livre na área de educação e na divulgação do
conhecimento. “Em minha participação na primeira edição deste
Fórum, tive a possibilidade de aprender alguma coisa sobre o tema e
ousei dizer que a concepção do Software Livre combina com nossa forma
de entender e fazer educação, do significado que hoje atribuímos à palavra
conhecimento, que deve ser considerado atemporal e de domínio da
coletividade. Para que não sejamos novamente colonizados, o acesso à
informação não deve ser restrito e a tecnologia precisa estar a
serviço das reais questões do nosso país, como o combate à pobreza e
a expansão da educação, inclusive a universitária”, declarou Malvina.

Para Paulo Coelho, vice-presidente do Proderj, também é papel dos
governos fomentar a utilização dos programas livres. “Graças à redução
drástica no custo de licenças proporcionadas pelo Software Livre, por
exemplo, o governo fluminense, através do Proderj, conseguiu expandir
seu programa de inclusão digital e construir laboratórios de
informática modernos, com banda larga, em 47 pontos do estado do Rio. Não
estamos falando apenas em dinheiro, mas na divulgação de uma nova cultura
que está sendo iniciada nesses Centros de Internet Comunitária, um
primeiro contato com ferramentas e programas sem quaisquer rótulos
amarrados. Internamente, nossa autarquia também investiu na capacitação
de seus funcionários em Software Livre e adquiriu ou desenvolveu
soluções livres para uso da administração pública estadual, em
correio eletrônico e na área de Segurança da
Informação”, explicou Coelho.

O vice-presidente do Proderj também celebrou o acordo de cooperação
técnica entre a autarquia e a Unirio, assinado no ato da abertura
do Fórum, que deverá começar pelo aperfeiçoamento do Livre.RJ – distribuição
GNU/Linux temática, inicialmente desenvolvida pelo Proderj para ser
adotada nas estações de trabalho dos órgãos públicos
estaduais. A quarta edição do Fórum de Software Livre
do Rio de Janeiro, inclusive, está marcando o lançamento da
versão 2.0 deste pacote, que traz uma série de novas funcionalidades
em multimídia, emuladores, nova suíte de escritório, mensagem
instantânea, instalação de programas, telefonia IP, apostilas e
virtualizadores. “Já temos o Livre.RJ instalado nos Centros de Internet
Comunitária. O próximo passo será distribuirmos sua nova versão temática
voltada para o cidadão, que já foi finalizada”, anunciou ele.

Roberto Pimentel, da Abrasol, e Giosafatte Gazzaneo, da
RioSoft, representaram a comunidade de Software Livre e
o setor empresarial de software e TI na solenidade,
respectivamente. Ambos recordaram as origens do Fórum e
sua trajetória, marcada pelo aumento do número e variedade
dos debates, pela congregação cada vez mais acentuada
com a sociedade civil e o empresariado e pela expansão para
universidades no interior do estado – com a criação da Semana de
Software Livre do Rio de Janeiro. “Nosso objetivo sempre foi
desmistificar o Software Livre para o empresariado, mostrando
novas oportunidades de atuação a partir dele, inclusive de
forma integrada às universidades. Nesta edição, teremos a
oportunidade de discutir o conceito de software de interesse
público, uma das grandes questões do momento”, apontou Gazzaneo.

Sérgio Rosa, diretor do Serpro (Serviço Federal de Processamento
de Dados), destacou o aumento do número de eventos dedicados ao tema
Software Livre na agenda nacional, relembrando que o conceito de
disponibilização de informações foi, em parte, iniciado pelos
sanitaristas brasileiros – segundo ele, reconhecidos até fora do
país pela transparência com que divulgam seus indicadores. E
acrescentou: “Nosso sistema eletrônico de captação e controle
dos votos, que também é um exemplo nacional de sucesso, ainda
mais se comparado ao processo eleitoral norte-americano, seria
muito melhor auditado com a utilização de software aberto. Parece
que, agora, o Tribunal Superior Eleitoral começa a avançar
neste sentido”.

Representando a Empresa Municipal de Informática da cidade do
Rio (Iplan Rio), a diretora de Infra-estrutura e Logística Vânia
Pintos falou sobre a característica contínua do Software Livre de
quebrar paradigmas, mas lembrou que ele não deve ser obrigatoriamente
encarado como única opção pelos gestores públicos. “O Software Livre
deve ser visto como uma realidade possível entre as várias opções
existentes, e será empregado sempre que puder oferecer soluções
superiores às necessidades de cada área dos governos, levando em
conta o fator continuidade”, defendeu. A inclusão do Software
Livre na ementa obrigatória dos cursos de graduação ligados à
Informática – e sua adoção ampla nos laboratórios de informática
que atendem os demais cursos – foi a bandeira de outro
integrante da mesa de abertura do Fórum, o estudante Luís
Felipe Barbosa, membro do diretório acadêmico da Unirio e
aluno do nono período do curso de Sistemas de Informação
da universidade.

A preocupação de Luís Felipe com o chamado “Currículo Livre” foi
compartilhada pelo decano do Centro de Ciências Exatas e Tecnologia
da Unirio, Asterio Tanaka, último convidado da mesa a se
pronunciar. “O movimento do Software Livre é irreversível e
a TI, hoje, está presente em todos os domínios do conhecimento
humano, por isso fico impressionado ao constatar que o
conteúdo programático da maioria das universidades não está
acompanhando o avanço do mundo digital. Deveríamos, cada
vez mais, encarar a TI não apenas como linha de pesquisa, mas
sim como área de concentração efetiva de produção de
soluções”, observou Tanaka. O decano ainda anunciou, para
breve, a instalação de um Centro de Internet Comunitária
do Proderj nas dependências da Unirio, aberto à comunidade
em geral, ampliando a parceria entre as duas entidades.

Daniele Neiva
17/10/2006
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