*Grupo decifra antigo computador grego

**Pesquisadores mostraram como funciona a máquina de Anticítera, uma
calculadora astronômica do século 2º a.C.

Tomografia com raios X permitiu a reconstrução virtual do mecanismo; peça
remonta aos escritos do astrônomo grego Hiparco

*http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe3011200601.htm

*RAFAEL GARCIA*
DA REPORTAGEM LOCAL

Um grupo de cientistas conseguiu decifrar um enigma que derrotou arqueólogos
durante todo o século 20. Em estudo publicado hoje, eles revelam como
funciona a máquina de Anticítera, um computador astronômico grego do século
2º a.C. movido a engrenagens. Usando tomografia de raios X para observar a
peça, extremamente deteriorada, os pesquisadores desvendaram uma tecnologia
avançada para a época, que só encontraria sofisticação igual um milênio
depois.
"Um dos mostradores na parte de trás da máquina serve para prever eclipses e
é baseado em um ciclo antigo conhecido como ciclo de Saros", explicou à
Folha o pesquisador Tony Freeth, da Universidade de Cardiff, Reino Unido. "É
um ciclo de 223 meses lunares, que por volta do século 5 a.C se difundiu
entre os astrônomos babilônicos e, provavelmente, gregos."
E o nível de sofisticação do aparelho vai além. O mostrador frontal da
máquina contava anos solares e meses lunares, e um terceiro mostrador,
atrás, era uma tentativa de prever a oscilação de velocidade da órbita
lunar. (A Lua tem uma órbita elíptica e se move mais rápido quando está mais
próxima da Terra.) "Os gregos não sabiam disso na época, mas eles sabiam que
o movimento não era uniforme", diz Freeth. "O que essas engrenagens fazem é
modelar uma teoria particular sobre essa variação, criada pelo famoso
astrônomo Hiparco."
A máquina agora desvendada foi achada em 1900 por um catador de esponjas,
num navio naufragado na ilha grega de Anticítera. Arqueólogos acreditam de
fato que a embarcação tenha partido da ilha de Rodes, onde vivia Hiparco.
"Não podemos estabelecer ligação direta entre ele e a máquina de Anticítera,
mas é tentador pensar que o próprio Hiparco possa ter ajudado a fazê-la",
diz Freeth. "Só que ele morreu em 126 a.C., uma das datas mais antigas
possíveis para a máquina. Ela deve ter sido feita depois de sua morte."
Segundo Freeth e seus colegas, que descrevem o mecanismo hoje em artigo na
revista "Nature", a máquina de Anticítera força uma revisão da história da
tecnologia na Antigüidade. "Essa máquina é uma sobrevivente isolada daquilo
que deve ter sido uma longa tradição em fazer esses mecanismos", diz.
"Ninguém poderia fazer algo sofisticado assim na primeira tentativa de
produzir uma calculadora mecânica."
Existem referências na historiografia romana a um mecanismo desse tipo feito
por Arquimedes, em Siracusa, e a outro que teria sido importado da
Macedônia, mas nenhum sobreviveu ao tempo. Freeth, porém, não acredita que
esses relatos tenham algo a ver com a máquina de Anticítera.

*O X da questão*
Para elaborar uma reconstituição confiável dos mecanismos internos, os
pesquisadores da universidades de Cardiff, Atenas e Salônica tiveram de
recompor um conjunto de peças que estavam em estado lamentável de
conservação. Com suas peças de madeira e bronze parcialmente corroídas pelo
mar, a máquina estava picotada em mais de 80 pedaços.
Usando tomografia tridimensional de raios X e imagens de superfície de alta
resolução, foi possível obter modelos muito melhores do formato das
engrenagens e de inscrições que haviam se apagado.
Mas toda essa tecnologia não dispensou um bocado de trabalho de raciocínio.
As 29 engrenagens identificadas pelos cientistas não estavam encaixadas, e
montar o quebra-cabeças exigiu grande esforço coletivo. Os pesquisadores
tiveram ainda de postular a existência de uma engrenagem extra. "Fizemos
isso para fazer o modelo funcionar, pois sabemos que parte dele se perdeu ao
ficar 2.000 anos no mar", diz Freeth. Algumas inscrições nos mostradores,
aliás, indicam que o mecanismo poderia ajudar a prever também as posições
dos planetas conhecidos, "mas isso é especulação", afirma.
O fato de parte do modelo ter se perdido abre espaço para interpretações
alternativas à do grupo de Freeth. "Como a evidência material é fragmentada,
propor alguns chutes é inevitável", escreveu o arqueoastrônomo François
Charette em comentário na "Nature". "Mas esse novo modelo é altamente
sedutor e convincente em todos os detalhes."
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