Desculpem o tamanho do texto, mas faz um certo tempo q estou querendo apresentar a minha visão do acordo MS/Novell e não consegui escrever nada mais enxuto do q isso. Mas, acredito q quem conseguir ler tudo pode ter uma nova perspectiva do q está acontecendo.

Há pouco tempo atrás aconteceu um debate entre Dave Winer e o Scobleizer sobre inovação na MS. O primeiro afirmava q a MS não inovava em nada, esperava os startups criarem um mercado e assistiam este crescer até o momento em q decidiam competir nele. O segundo, como bom ex-funcionário da MS, dizia q não era bem assim e q a MS tinha uma série de pequenas inovações q eram importantes, embora longe de serem radicais (o exemplo era o ClearType).


Colocando isso sob a óptica das teorias de inovação de ruptura de Christensen ("O Dilema do Inovador", "Crescimento pela Inovação", "Seeing What's Next"), a estratégia da MS é bem clara: ela é uma expert em inovações de sustentação (o tipo que não gera ruptura), sejam elas incrementais (ClearType, as inúmeras versões do MS Office) ou radicais (como será o MS Office 2007). As inovações de ruptura de novo mercado ficam na mão de empresas emergentes, mas a MS possui uma série de táticas para cooptar este tipo de inovação e agregá-la ao seu portfolio de produtos. Normalmente isso acontecia com sucesso pq a rede de valor sobre a qual a MS construiu seu negócio acabava se sobrepondo com a rede de valor dos outros produtos de software q ela agregou ao longo de sua existência. O negócio de produção de software, até então, tinha dos mesmos fornecedores aos mesmos clientes.

Agora, a coisa mudou. Software Livre e de Código Aberto é uma tecnologia de ruptura por natureza. A rede de valor em torno de um Mozilla Firefox, por exemplo, é bem diferente da que havia ao redor do Netscape Navigator (para quem não lembra, um produto licenciado comercialmente às empresas). A MS tem recursos para tirar proveito de praticamente qqr tipo de oportunidade q surgir à sua frente, mas seus processos de trabalho e seus valores não são adequados para um "Mundo sem Portões". O próprio professor Christensen (acadêmico de Harvard) alertou a empresa em uma palestra (e ele cita explicitamente o gnu/ linux em seu último livro).

Como a MS poderia lidar com a inovação de ruptura representada pelo Software Livre? A IBM, qdo decidiu investir no PC, entendeu q não tinha processos e valores para lidar com a tecnologia de ruptura q tinha em mãos (o computador pessoal). Assim, criou uma unidade separada em Boca Raton para desenvolver o produto sem a interferência dos executivos da matriz (o grupo de Boca Raton era conhecido como "the Wild Ducks").

A MS pode estar seguindo um caminho similar com o acordo com a Novell. Vamos repassar os fatos: primeiro o Bill Gates, q está longe de ser tolo, anuncia (aparentemente a sério) seu afastamento da empresa no prazo de 2 anos. P q? Consta q o próprio teria reconhecido suas limitações (lembram a questão dos valores q eu citei acima?) ao lidar com um novo mercado de TI e teria renunciado à sua posição em favor do Ray Ozzie, sujeito com mais visão e preparo para os novos tempos.

Além disso, a MS comprar ou criar uma distribuição traria descrédito imediato a este produto. Com a possível exceção da turma do Mono, a comunidade FLOSS em geral é pouco simpática à MS e possui uma memória coletiva bastante forte na hora de lembrar das declarações infelizes dos principais executivos da empresa a respeito de SL. O q fazer então? Um acordo com uma empresa distinta com alguns processos de trabalho similares que já apresentava uma certa credibilidade junto à comunidade FLOSS (credibilidade merecida, tendo em vista os produtos proprietários da SUSE e da XIMIAN q a Novell abriu após as aquisições - Yast, exchange-connector para o Evolution, sem falar na promessa de acabar com drivers proprietários no kernel do SuSE Linux).

Como a Novell é o estereótipo da empresa proprietária se adaptando ao mundo Livre, a evolução dos negócios da Novell poderia ser um gde laboratório para a MS ver de perto o q dá certo e o q não dá neste caso. Daí para ela "abraçar" um modelo de negócio ao redor de SL seriam poucos passos a mais. Além, é claro, de preparar a percepção do mercado e dos desenvolvedores de SL para uma futura aquisição da Novell (estilo "porteira fechada", q levaria para dentro da MS o SUSE e a Ximian de uma tacada só).

Qual o principal obstáculo a isso hoje? IMHO, os valores antigos da empresa, representados e encarnados pela figura do CEO atual: Steve Ballmer. Em q pese o fortalecimento do braço de serviços da MS nos últimos anos (eu tenho visto isso nas iniciativas recentes da empresa junto às administrações estaduais e ao governo federal), sempre há uma declaração desastrosa do Mr. Ballmer reforçando o status quo anterior: "linux infrige nossa propriedade intelectual" é apenas a mais recente de uma série desastrosa.

Mas, o Ballmer já é um dos caras mais ricos do mundo. E é notoriamente um executivo agressivo, do tipo q espreme até o último centavo de uma oportunidade de negócio. Imagine agora q a saída do Bill Gates tenha sido o primeiro passo em um processo que culminará com a aposentadoria do Ballmer (será q ele iria ajudar o ex-chefe em iniciativas humanitárias ou ficaria competindo com o Ellison para ver quem tem o maior iate?). E q em seu lugar entre um nome "afinado" com os novos tempos, devidamente preparado nos meandros da coexistência entre a MS e a Novell SUSE.

Assim, o acordo com a Novell não seria propriamente uma "armadilha" para trazer discórdia e problemas ao FLOSS em geral. Seria o primeiro passo da MS em seguir sua tradicional estratégia de sair atrás de empresas q abrem novos caminhos, mas usando seus recursos para alavancar rapidamente sua posição em um novo mercado. Nesse cenário, a Microsoft q surgiria seria bem diferente daquela q conhecemos hoje. Da mesma forma q a IBM da década de 70 está longe do q entendemos por IBM no início do século XXI.

Isso é bom ou mau? Vamos ver . . .

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