Olival,

Sua teoria é interessante e você utilizou uma boa argumentação. Mas ela não
passa de conjectura. Como exercício intelectual é ótima.

Ainda faltam praticamente todos os indícios necessários para dar a ela
alguma credibilidade. E a aposentadoria de Gates, Allchin e outros
executivos de alto escalão da Microsoft não são o bastante.

Em toda sua história a Microsoft jamais deixou de ser uma empresa com ímpeto
monopolista.

Até em condições mais adversas, como foi o caso do crescimento da Internet
(a Micrososft saia de um longo e penoso processo de desenvolvimento do
Windows 95 e da MSN pré-Internet), a Microsoft apenas realizou as alterações
de estratégia necessárias para manter o seu monopólio intacto.

Eu continuo enxergando a Microsoft da mesma forma e nada ainda foi
suficiente para me fazer pensar diferente, mesmo em relação a esse
enfrentamento com o FOSS.

Sim, continua sendo um enfrentamento. Na tentativa de mudar as regras e
trazer o jogo para o terreno em que a Microsoft leve vantagem.

Em relação a IBM é importante não esquecer que a empresa precisou se
reinventar para sobreviver. Ou ela fazia isso ou fechava as portas.

E ao que me consta a MS não sofre hoje de nenhum problemas de ordem
financeira.

Abraço,

On 12/22/06, Olival Júnior <[EMAIL PROTECTED]> wrote:

Desculpem o tamanho do texto, mas faz um certo tempo q estou querendo
apresentar a minha visão do acordo MS/Novell e não consegui escrever
nada mais enxuto do q isso. Mas, acredito q quem conseguir ler tudo
pode ter uma nova perspectiva do q está acontecendo.

Há pouco tempo atrás aconteceu um debate entre Dave Winer e o
Scobleizer sobre inovação na MS. O primeiro afirmava q a MS não
inovava em nada, esperava os startups criarem um mercado e assistiam
este crescer até o momento em q decidiam competir nele. O segundo,
como bom ex-funcionário da MS, dizia q não era bem assim e q a MS
tinha uma série de pequenas inovações q eram importantes, embora
longe de serem radicais (o exemplo era o ClearType).

Colocando isso sob a óptica das teorias de inovação de ruptura de
Christensen ("O Dilema do Inovador", "Crescimento pela Inovação",
"Seeing What's Next"), a estratégia da MS é bem clara: ela é uma
expert em inovações de sustentação (o tipo que não gera ruptura),
sejam elas incrementais (ClearType, as inúmeras versões do MS Office)
ou radicais (como será o MS Office 2007). As inovações de ruptura de
novo mercado ficam na mão de empresas emergentes, mas a MS possui uma
série de táticas para cooptar este tipo de inovação e agregá-la ao
seu portfolio de produtos. Normalmente isso acontecia com sucesso pq
a rede de valor sobre a qual a MS construiu seu negócio acabava se
sobrepondo com a rede de valor dos outros produtos de software q ela
agregou ao longo de sua existência. O negócio de produção de
software, até então, tinha dos mesmos fornecedores aos mesmos clientes.

Agora, a coisa mudou. Software Livre e de Código Aberto é uma
tecnologia de ruptura por natureza. A rede de valor em torno de um
Mozilla Firefox, por exemplo, é bem diferente da que havia ao redor
do Netscape Navigator (para quem não lembra, um produto licenciado
comercialmente às empresas). A MS tem recursos para tirar proveito de
praticamente qqr tipo de oportunidade q surgir à sua frente, mas seus
processos de trabalho e seus valores não são adequados para um "Mundo
sem Portões". O próprio professor Christensen (acadêmico de Harvard)
alertou a empresa em uma palestra (e ele cita explicitamente o gnu/
linux em seu último livro).

Como a MS poderia lidar com a inovação de ruptura representada pelo
Software Livre? A IBM, qdo decidiu investir no PC, entendeu q não
tinha processos e valores para lidar com a tecnologia de ruptura q
tinha em mãos (o computador pessoal). Assim, criou uma unidade
separada em Boca Raton para desenvolver o produto sem a interferência
dos executivos da matriz (o grupo de Boca Raton era conhecido como
"the Wild Ducks").

A MS pode estar seguindo um caminho similar com o acordo com a
Novell. Vamos repassar os fatos: primeiro o Bill Gates, q está longe
de ser tolo, anuncia (aparentemente a sério) seu afastamento da
empresa no prazo de 2 anos. P q? Consta q o próprio teria reconhecido
suas limitações (lembram a questão dos valores q eu citei acima?) ao
lidar com um novo mercado de TI e teria renunciado à sua posição em
favor do Ray Ozzie, sujeito com mais visão e preparo para os novos
tempos.

Além disso, a MS comprar ou criar uma distribuição traria descrédito
imediato a este produto. Com a possível exceção da turma do Mono, a
comunidade FLOSS em geral é pouco simpática à MS e possui uma memória
coletiva bastante forte na hora de lembrar das declarações infelizes
dos principais executivos da empresa a respeito de SL. O q fazer
então? Um acordo com uma empresa distinta com alguns processos de
trabalho similares que já apresentava uma certa credibilidade junto à
comunidade FLOSS (credibilidade merecida, tendo em vista os produtos
proprietários da SUSE e da XIMIAN q a Novell abriu após as aquisições
- Yast, exchange-connector para o Evolution, sem falar na promessa de
acabar com drivers proprietários no kernel do SuSE Linux).

Como a Novell é o estereótipo da empresa proprietária se adaptando ao
mundo Livre, a evolução dos negócios da Novell poderia ser um gde
laboratório para a MS ver de perto o q dá certo e o q não dá neste
caso. Daí para ela "abraçar" um modelo de negócio ao redor de SL
seriam poucos passos a mais. Além, é claro, de preparar a percepção
do mercado e dos desenvolvedores de SL para uma futura aquisição da
Novell (estilo "porteira fechada", q levaria para dentro da MS o SUSE
e a Ximian de uma tacada só).

Qual o principal obstáculo a isso hoje? IMHO, os valores antigos da
empresa, representados e encarnados pela figura do CEO atual: Steve
Ballmer. Em q pese o fortalecimento do braço de serviços da MS nos
últimos anos (eu tenho visto isso nas iniciativas recentes da empresa
junto às administrações estaduais e ao governo federal), sempre há
uma declaração desastrosa do Mr. Ballmer reforçando o status quo
anterior: "linux infrige nossa propriedade intelectual" é apenas a
mais recente de uma série desastrosa.

Mas, o Ballmer já é um dos caras mais ricos do mundo. E é
notoriamente um executivo agressivo, do tipo q espreme até o último
centavo de uma oportunidade de negócio. Imagine agora q a saída do
Bill Gates tenha sido o primeiro passo em um processo que culminará
com a aposentadoria do Ballmer (será q ele iria ajudar o ex-chefe em
iniciativas humanitárias ou ficaria competindo com o Ellison para ver
quem tem o maior iate?). E q em seu lugar entre um nome "afinado" com
os novos tempos, devidamente preparado nos meandros da coexistência
entre a MS e a Novell SUSE.

Assim, o acordo com a Novell não seria propriamente uma "armadilha"
para trazer discórdia e problemas ao FLOSS em geral. Seria o primeiro
passo da MS em seguir sua tradicional estratégia de sair atrás de
empresas q abrem novos caminhos, mas usando seus recursos para
alavancar rapidamente sua posição em um novo mercado. Nesse cenário,
a Microsoft q surgiria seria bem diferente daquela q conhecemos hoje.
Da mesma forma q a IBM da década de 70 está longe do q entendemos por
IBM no início do século XXI.

Isso é bom ou mau? Vamos ver . . .

[ ]s,

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