Máquina de telecomunicar, a sacada
http://www.serpro.gov.br/noticiasSERPRO/20061226_05


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Novo computador retransmite sinal de outros, mesmo estando desligado -
Sérgio Amadeu da Silveira

A maioria das pessoas usam os computadores como intermediários da
comunicação. Esta impressionante máquina, nascida das idéias de inúmeros
gênios, entre os quais destaco Alan Turing, evoluiu sem abandonar suas
características anteriores.

O fato do computador ser uma ferramenta para os jovens trocarem mensagens
instantâneas, acessarem suas comunidades no Orkut e falarem pelo "gmail
talk" não impede que ele continue a ser utilizado para realizar operações
complexas, construir algoritmos, fazer simulações ou executar cálculos
estocásticos.

O avanço do "wireless" ou comunicação sem fio e a expansão dos laptops
geraram um ambiente de mobilidade em que várias tecnologias estão sendo
testadas e aplicadas com relativo sucesso. Uma delas viabiliza a comunicação
entre computadores sem a necessidade de uma infra-estrutura local de
telecomunicações. Trata-se das tecnologias wireless que utilizam a
arquitetura "mesh" ou em malha, em português. O computador assim entraria em
uma nova fase e ganharia

Uma das grandes sacadas dos professores Nicholas Negroponte e Seymour
Pappert foi o lançamento do projeto "One Laptop per Child" (OLPC) ou Um
Laptop por Criança. Além de sua proposta gerar uma mobilização na indústria
de hardware para pensar soluções que reduzirão os preços onde ela alegava
ser impossível, o conhecido laptop de US$ 100 é uma completa revolução na
concepção de uso do computador. Trata-se de uma máquina de telecomunicar.


Cada laptop terá um mecanismo para a transmissão, recepção e retransmissão
de dados.

Cada máquina será uma pequena torre de retransmissão do sinal das demais.
Assim, quem estiver na zona norte da cidade e precisar falar com a
professora que está na sul, enviará a mensagem que irá saltando de
computador em computador até chegar a seu destino.

O computador do professor Negroponte tem um mecanismo que permite
retransmitir o sinal de outros computadores mesmo quando estiver desligado.
É semelhante ao que acontece com o vídeo em nossas casas. Quando apontamos o
controle remoto, ele recebe o sinal e liga automaticamente. Genial.

Sem dúvida, o laptop proposto pela equipe de Negroponte e Pappert
viabilizará a idéia do computador como máquina de telecomunicar. Poderemos
ligar diretamente máquina com máquina, sem necessidade de recorrermos as
operadoras de telefonia, construindo uma rede completamente descentralizada,
uma rede malha. As crianças usando o laptop não terão custos de conexão.
Mesmo quando a cidade não estiver conectada à Internet, as pessoas poderão
localmente continuar trocando suas mensagens e construindo suas práticas
colaborativas. Os servidores de rede das escolas poderão continuar a
oferecer seus conteúdos, educativos e culturais. Grupos de ativistas e
internautas locais poderão relatar suas experiências e portar sua produção
simbólica para a web, sem custos locais de conexão.

Os professores serão chamados a pensar uma educação em rede substituindo o
formato hierárquico e pouco estimulante que é empregado até hoje. Oficinas
de construção de conhecimento compartilhado serão possíveis, se os
professores forem envolvidos nesse processo de emancipação e revolução
educacional. O uso da comunicação em redes descentralizadas, somado a um
processo mobilizador dos nossos educadores e das nossas escolas, pode gerar
um desenvolvimento humano e cultural jamais visto.

Quem não gosta disso? Os grupos empresariais da sociedade industrial
temerosos que o laptop proposto por Negroponte irá canibalizar seus
negócios. Aqueles que querem limitar as funções das placas de "wireless"
somente à transmissão e recepção de dados, impedindo a retransmissão de
sinais. Quem mais? O monopólio mundial de software para desktop que quer
evitar desesperadamente que as crianças usem software livre e deixem de ser
aprisionadas ao seu produto. Além de trabalhar com o conceito de uma rede
completamente "peer-to-peer" (P2P), o computador de Negroponte, Pappert,
Bender, Cavallo e tantos outros, pode incentivar as crianças e adolescentes,
com vocação, a acessarem o código-fonte aberto dos softwares nele
embarcados.

As mentes proprietárias articulam-se desesperadamente para bloquear a
liberdade para o conhecimento tecnológico. Quem irá vencer? Não sabemos, mas
a luta será intensa.

Sérgio Amadeu é sociólogo, professor de pós-graduação da Faculdade Cásper
Líbero e ex-presidente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação
(ITI). Próximo artigo do autor em 8 de janeiro.
Gazeta Mercantil, 26 de dezembro de 2006
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