Entrevista - Jon "Maddog" Hall
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Fernando Braga
Da equipe do Correio
http://www2.correioweb.com.br/cbonline/informatica/sup_info_13.htm

Diretor-executivo da Linux International, organização de empresas sem fins
lucrativos na área de computação, Jon "Maddog" Hall é uma espécie de guru no
mundo do software livre. Formado em comércio e engenharia pela Universidade
de Drexel (Filadélfia, EUA) e com mestrado em ciências da computação, Hall
ministrou durante anos aulas sobre informática. Em 1970 ganhou o apelido de
"Maddog" (cachorro louco, em inglês), dado por seus alunos, quando começou a
se envolver com o mundo do software livre. Com mais de 30 anos dedicados ao
open source (código aberto), Maddog é a autoridade que guia uma legião de
seguidores que enaltecem qualquer alternativa aos programas pagos e de
código fechado. Atualmente, se dedica a viajar pelo mundo para realizar
conferências e difundir programas de fonte aberta. De passagem pelo Brasil,
onde foi uma das atrações do Linux Festival, realizado na Universidade
Católica de Brasília, o embaixador mundial do Linux falou ao Correio sobre o
programa brasileiro de software livre e o problema da pirataria no país.
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Revolucionário pingüim

*Como foi o começo do seu relacionamento com o open source?*
Eu comecei usar o software livre (também conhecido pela sigla FOSS, de free
and open source software) em 1969. Naquela época não o chamávamos de
software livre, era apenas software. Ele era visto pelo usuário como um
serviço, não um produto e era de propriedade do cliente, não da pessoa ou
companhia que o fabricou. Entre 1977 e 1990 vi muito programa sendo escrito
tentando atender as necessidades de um público de massa e sendo entregue na
forma binária. Mas como as necessidades e os clientes são diferentes, os
vendedores não conseguiram acompanhar todas as exigências. O software livre
já existia nessa época, mas não era muito visível para a maioria das
pessoas. Em 1994 conheci Linus Torvalds (criador do Linux) e aprendi muito
sobre o sistema operacional aberto e vi que ele era a solução para muitos
dos problemas que eu percebia.

*Qual a sua atual contribuição para a comunidade open source?*
Atualmente ocupo a posição de voluntário do diretor-executivo de Linux
Internacional, onde faço visita a governos e companhias e discuto sobre as
vantagens e métodos de usar softwares livres com a intenção de produzir
receitas ou economizar o dinheiro público. Também tenho uma empresa de
consultoria, que no fim das contas, ajuda a me sustentar.

*Como alguém pode ganhar dinheiro com software livre?*
Sendo fornecedora dos serviços que o usuário deseja. Desde treinamento,
instalação de software e integração. Removendo bugs e estendendo o software.
Esses são empregos que podem ser feitos regionalmente no Brasil em vez serem
realizados em cidade do exterior, como Redmond, Washington ou Vale de
Silício, nos EUA.

*O senhor diz que o software livre é uma revolução irreversível. Como as
empresas que estão no mercado podem se adaptar a nova realidade?*
Modificando o seu modelo de negócios, visando oferecer serviços e não
produtos, somente com fins econômicos; oferecendo o seu software com o
código fonte disponível; permitindo que seus clientes ajudem no
desenvolvimento de um software melhor (por meio de envio de relatórios de
problemas às empresas). Conhecia várias companhias que, de fato, conseguem
mais receita "entregando" os seus produtos, mas cobrando para talhar
serviços.

*Como o software livre pode ajudar países em desenvolvimento como
o Brasil?*
O FOSS devolve o controle ao usuário final — seja ele um governo, um negócio
ou um indivíduo. Esse controle é evidenciado quando (ou mesmo se) você migra
de uma base de código a outro, quando atualiza programas, ou mesmo se o seu
país sofrer algum tipo de embargo dos Estados Unidos — local onde as grandes
empresas de softwares e sua assistência ao consumidor atuam. Os softwares
livres oferecem bons empregos locais, pagam programadores que mostram
habilidades e ajudam a equilibrar a balança de comércio entre Brasil e
outros países.

*Certa vez o senhor afirmou que o Brasil é uma estrela cintilante no céu do
software livre. O senhor acredita que o país pode servir de referência para
outras nações?*
Só se o movimento adotado no país continuar andando. Tive notícias de que
muitas pessoas pensam que o software livre é "uma idéia do partido de Lula".
Dessa maneira, se o partido de Lula deixar o poder, o FOSS não seguirá
adiante. O software livre não é uma questão política, mas sim uma questão
econômica. Ele cria empregos locais, salva o dinheiro e ajuda a corrigir o
equilíbrio de pagamentos. Que partido político está contra essas coisas? Que
partido político deseja enviar dinheiro para fora do Brasil ou fazer com que
um software de PC seja inacessível para pessoas que não têm condições de
pagar por ele. Que partido deseja que jovens do Brasil não aprendam com
programas, uma vez que se trabalha vendo o seu código fonte? Por favor, peça
que esse partido dê um passo a frente para que todos possam vê-lo.

*Mais de 70% dos clientes do programa governamental brasileiro Computador
para Todos trocaram o Linux pelo Windows. E muitos
deles recorreram ao
mercado pirata para
adquirir o software.
Como essa situação
poderia ser revertida?
O programa de inclusão digital permitiu que milhões de pessoas que nunca
puderam ter acesso a um computador fossem capazes de adquirir um micro. Além
disso, 27 % das pessoas ficaram felizes com o uso do Linux. Esses usuários
nunca se converterão, provavelmente, em usuários de programas piratas, uma
vez que usam software livre. Eles poderiam ter se transformado em
compradores de programas falsificados de alguma outra maneira. Penso que
isso é uma boa troca. A BSA (Associação de Software de Negócios, organização
de empresas de software apoiada pela Microsoft) afirma que a maior parte da
pirataria tem como causa o grande volume de computadores vendidos "sem
marca" (aqueles que são montados separadamente pelo cliente). Uma das
possíveis alegações utilizadas pelos vendedores para convencer os clientes
seriam que os micros "com marca" que têm instalados uma cópia legítima do
Windows custam mais caro. Naturalmente a BSA não menciona que, mesmo se cada
PC tivesse instalado a última versão do sistema operacional da Microsoft,
ainda assim haveria pirataria de programas como o Office, o Microsoft SQL, o
Oracle, o Photoshop e mais um monte de jogos. Portanto, a pirataria não iria
parar, somente deslocaria seu foco.

E quanto à questão
financeira….
Eles (a BSA) também não mencionam que muitos PCs "com marca" são montados,
instaladas e testados fora do Brasil, e não por fabricantes nacionais — e
desse modo roubam empregos locais. Neste relatório, a BSA também afirma que
se a pirataria não existisse haveria muito mais empregos e a receita do
Brasil aumentaria. Eles dizem que para cada dólar cobrado no preço do
software, há US$ 1,25 investidos em serviços que visam "projetar, instalar,
construir e dar suporte à aquele software". No entanto, me parece que o
software pirateado também tem de ser "projetado, instalado e construído"—
portanto, não sei onde "os novos empregos" seriam criados. É difícil
acreditar que aquelas pessoas que não têm condições de pagar o software
original estariam dispostas ou seriam capazes de pagar o valor extra por
esse trabalho.O "rendimento" adicional de US$ 1 de que a BSA fala no
relatório é simplesmente um "incremento de preço" quando um bem passa de mão
em mão. Não adiciona valor real ao consumidor. No ano passado eu conversei
com um gerente de produtos da Microsoft Brasil que me disse, com franqueza,
que a Microsoft endossa secretamente a pirataria.

Como assim?
Ele me disse que a empresa faz "reparos em erros", além de treinar pessoas
que eles sabem que usam software pirata, para que eles não mudem para o
software aberto. A Microsoft acha melhor que as pessoas usem software pirata
do que software de concorrentes, como o Linux. No entanto, a maneira real de
deter a pirataria é por meio da educação. Tornando as pessoas mais
familiares com os softwares livres e informando o que o sistema pode fazer
por elas. As pessoas seriam menos propícias a piratear softwares caros sob o
risco de serem pegos e presos. Então ensinar o código aberto nas escolas e
universidades, oferecer incentivos fiscais a empresas que treinem para o uso
de software livre, assistir a programas que ensinem a usar esses programas
como Hackerteen (www.hackerteen.com.br) e usar o código aberto em
telecentros e no governo, para que mais e mais pessoas se familiarizem.
Estou surpreso que a Microsoft não tenha sugerido nenhuma dessas soluções.
No entanto, eu não posso ficar muito feliz com a Microsoft sendo
"pirateada". Eu acho que a Microsoft reclama muito, com pouca ação real. **
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