"Estilo: deficiência que faz com que um autor só consiga escrever como
pode." MÁRIO QUINTANA

Um romance a dez mil mãos

Imagine um romance escrito nos moldes da Wikipedia, com cada autor
contribuinte tendo o poder de pôr e tirar, escrever e cortar tanto o seu
trabalho quanto o dos outros. O "projeto" – como o chamam com certa pompa
seus criadores, gente da editora Penguin em parceria com uma
universidade<http://www.dmu.ac.uk/news_events/news/current/wiki_novel.jsp>inglesa
– leva o nome de
*A million penguins* ("Um milhão de pingüins") e está no ar desde
quinta-feira, aqui <http://www.amillionpenguins.com/>. (Se a página não
abrir logo, dê um tempo e tente de novo. Volta e meia, o serviço tem andado
"temporariamente indisponível", num sinal de sucesso maior que o esperado:
em dois dias, o romance já chegou ao capítulo 7.)

Não, claro que uma coisa dessas não tem a menor chance de dar certo num
sentido, vamos dizer, estético. Mesmo tendo regras mais ou menos estritas e
contando, como conta, com um time de "moderadores profissionais" escalado
para zelar 24 horas por dia pela qualidade do material, editando a edição
dos colaboradores, o resultado da empreitada tem tudo para ser pífio.

O primeiro parágrafo provisório do romance – isto é, no momento em que
escrevo – sugere que "pífio" talvez venha a se provar um adjetivo pálido.
Vai uma tradução livre:

*Tonhão esticou o braço, bocejou e, preguiçosamente, trocou o canal do
noticiário internacional para um documentário sobre a arte de fotografar
modelos em trajes de banho em Laguna Beach. Sua libido estava latejando.*

Um provável desastre literário não será surpresa. Os fãs dos modernos
"coletivos" que me desculpem, mas quem já tentou escrever ficção a quatro,
seis ou oito mãos – eu sou um desses – sabe que o material é volátil demais
para permitir manipulações sociais, ainda que em escala reduzida.

É claro que não sou contra experiências de criação coletiva, adaptações,
citações mútuas, variações coletivas em torno de um tema – tudo isso pode
ser bacana, como é bacana a experiência de flexibilização de direitos
autorais do Creative Commons <http://www.creativecommons.org.br/>. O nó que
me parece irredutível nessa história é o do próprio texto no momento da
escrita. Neste caso, a criação grupal pode até ser divertida, mas gera um
nivelamento por baixo que termina por solar o bolo. Sim, sou daqueles que
temem que, se um dia vier abaixo a *conservadora* idéia de "autoria", a
própria arte venha junto.

Como a idéia de "Um milhão de pingüins" é, evidentemente, experimentar,
explorar terreno virgem, e não produzir uma obra-prima, vai ser interessante
acompanhar essa brincadeira.
[2 comentários <http://todoprosa.nominimo.com.br/?comments_popup=307>]

*Publicado por Sérgio Rodrigues <[EMAIL PROTECTED]> - 3/02/07
12:01 AM <http://todoprosa.nominimo.com.br/?p=307>*
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