Jefferson Santos escreveu:
Infelizmente somos seres limitados e não podemos entender tudo de tudo.
Eu realmene não sei como funciona várias tecnologias que uso hj, nem fiquei
lendo o fonte do kernel antes de usar.
O fato de disponibilizar o fonte do sitema que as crianças vão usar na
escola não garante que elas vão entender oq tem lá e nem que o Brasil vai
ser avançar na proução de software por isso. Obviamente que com isso vc
aumenta as possibilidades, porém não significa que sem o mesmo elas não
existam.

Penso que você parte de um pressuposto errado: o de que o código-fonte aberto e livre só é útil para usuários que efetivamente lerão o código. Isso é falso e prejudicial.

Código-fonte aberto e livre garante transparência (eu não confio em software cuja licença proíbe que se estude como ele funciona; todos os dias temos notícias de que há espiões embutidos em software proprietário de tudo quanto é tipo), independência tecnológica (não sei programar kernels e drivers, mas sou livre para contar com/contratar pessoas capazes de fazê-lo), e a valorização de princípios éticos e morais positivos (compartilhar, construir coletivamente, combater a escassez artificial etc.), pra citar algumas vantagens.

Esse argumento de que ``o usuário não precisa do código-fonte'' é um ponto crucial da minha reflexão que iniciou esta trilha de mensagens. O argumento é usado para *promover a ignorância* e reduzir os usuários de TICs a *meros consumidores passivos*, prontos a aceitar que os dispositivos eletrônicos não possam ser programados para fazer o que os usuários querem. No máximo, eles podem escolher entre configurações pré-determinadas, vendidas separadamente como ``ad-ons''.

Estamos rodeados de máquinas de Turing castradas e travestidas de telefones, tocadores de música, etc. Esses aparelhos geralmente são computadores, controlados por software, mas que não é manipulável/editável pelo usuário. A programabilidade, que é a característica central dos computadores, está progressivamente sendo negada, com a crescente oferta de dispositivos portáteis que -- apesar de tecnicamente capazes -- não podem ser programados pelos usuários.

No mundo em que tudo está sendo integrado e controlado através de dispositivos eletrônicos, em que ``código é lei'' (Lessig), ser capaz de dominar esse código não é assunto específico de técnicos, mas pré-requisito para cidadania plena. Num sentido mais amplo, escreveu Carl Sagan (O Mundo Assombrado pelos Demônios):

``Nós criamos uma civilização global em que elementos cruciais - como as comunicações, o comércio, a educação e até a instituição democrática do voto - dependem profundamente da ciência e da tecnologia. Também criamos uma ordem em que quase ninguém compreende a ciência e a tecnologia. É uma receita para o desastre. Podemos escapar ilesos por algum tempo, porém mais cedo ou mais tarde essa mistura inflamável de ignorância e poder vai explodir na nossa cara.''


Acredito que o principal, é ensinar a criança usar o computador como uma
ferramenta, para poder buscar informações, para poder conversar, para poder
disputar uma vaga de emprego. É dar a ferramenta e ensinar usar direito e
com responsabilidade, ensinar a criança a não se perder no meio de tanta
informação que existe na Internet e ter um olhar crítico sobre esta
informações e também sobre o mundo.

Novamente discordo, embora eu não tenha achado claro esse parágrafo.

A questão é: para que serve um computador?

Qualquer resposta do tipo ``para escrever texto'', ``para pesquisar na internet'', ``para se comunicar em rede'' é limitadora.

Por quê? Porque o computador não é uma ferramenta para usos específicos. O computador é uma ferramenta de uso geral, ele serve para *qualquer tarefa* para a qual seja _programado_. Um usuário de computador deveria ser, antes de tudo, capaz de programar. Nem que seja programar scripts para manipular seus arquivos ou personalizar seu sistema. Num mundo informatizado, ser capaz de programar não deveria ser habilidade de apenas uns poucos. Ser capaz de programar e ser livre para instalar quaisquer programas significa ter o controle sobre o próprio computador.

Por isso penso que é *irresponsável* a educação tecnológica que não dê as bases para que os alunos sejam iniciados em programação de computadores, ou pelo menos dominem todos os conceitos necessários para aprender a programar.

As crianças de hoje em dia têm grande facilidade de se familiarizar com dispositivos eletrônicos. Têm curiosidade de aprender a dominá-los.

No entanto, o que o mundo acaba ensinando a elas é que elas não devem se aventurar em entender como esses dispositivos funcionam: elas têm que se acostumar à idéia de que um computador não passa de um vídeo-game que se conecta à internet, e que ninguém além de uns poucos técnicos -- que concordem com termos de não divulgação de informação (NDAs) -- deve aprender como funciona. Querer aprender a programar ou entender como os softwares usados no dia-a-dia funcionam é associado a ser um ``cracker'' ou ``pirata'', ao invés de ser a mais natural das faculdades de um usuário de computador.

Usar informática na educação ``como ferramenta para...'' é importante. Mas penso ser indispensável a consciência de que a informática é uma ferramenta para *desenvolver ferramentas*.

Posso ter talvez supervalorizado a importância de ser capaz de programar, mas o mais importante é combater a ``cultura'' comodista de que seria sempre conveniente delegar a outrem o controle informático de nossas vidas.

Até mais,
Hudson

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