Hudson.

Não disse que não devemos ter o código-fonte, ele deve estar lá para quem
quiser e entendo o que ele implica e a liberdade que advém disto. O que eu
disse é que o simples fato de ter o código disponível não garante que os
alunos vão aprender lendo ele e nem que vão ler. Se eu tiver o código de um
driver não quer dizer que eu vá estuda-lo e escrever um, mas posso se assim
desejar, poderei me basear neste código e escrever o meu driver (facilitaria
muito as coisas) mas posso escrever estudando outras fontes (livros,
internet).

Não sei pq vc discorda de usar o computador como ferramenta. É isso que ele
é, e nada mais, serve para diversas coisas? Serve. Mas é uma ferramenta que
serve para várias coisas, e devemos ensinar as pessoas usar o computador com
responsabilidade para diversas finalidades.

Não sei se todo mundo deveria saber programar, mas acho que todo mundo que
quiser aprender tem que ter condições para isso.

On 4/16/07, Hudson Lacerda <[EMAIL PROTECTED]> wrote:

Jefferson Santos escreveu:
> Infelizmente somos seres limitados e não podemos entender tudo de tudo.
> Eu realmene não sei como funciona várias tecnologias que uso hj, nem
fiquei
> lendo o fonte do kernel antes de usar.
> O fato de disponibilizar o fonte do sitema que as crianças vão usar na
> escola não garante que elas vão entender oq tem lá e nem que o Brasil
vai
> ser avançar na proução de software por isso. Obviamente que com isso vc
> aumenta as possibilidades, porém não significa que sem o mesmo elas não
> existam.

Penso que você parte de um pressuposto errado: o de que o código-fonte
aberto e livre só é útil para usuários que efetivamente lerão o código.
Isso é falso e prejudicial.

Código-fonte aberto e livre garante transparência (eu não confio em
software cuja licença proíbe que se estude como ele funciona; todos os
dias temos notícias de que há espiões embutidos em software proprietário
de tudo quanto é tipo), independência tecnológica (não sei programar
kernels e drivers, mas sou livre para contar com/contratar pessoas
capazes de fazê-lo), e a valorização de princípios éticos e morais
positivos (compartilhar, construir coletivamente, combater a escassez
artificial etc.), pra citar algumas vantagens.

Esse argumento de que ``o usuário não precisa do código-fonte'' é um
ponto crucial da minha reflexão que iniciou esta trilha de mensagens. O
argumento é usado para *promover a ignorância* e reduzir os usuários de
TICs a *meros consumidores passivos*, prontos a aceitar que os
dispositivos eletrônicos não possam ser programados para fazer o que os
usuários querem. No máximo, eles podem escolher entre configurações
pré-determinadas, vendidas separadamente como ``ad-ons''.

Estamos rodeados de máquinas de Turing castradas e travestidas de
telefones, tocadores de música, etc. Esses aparelhos geralmente são
computadores, controlados por software, mas que não é
manipulável/editável pelo usuário. A programabilidade, que é a
característica central dos computadores, está progressivamente sendo
negada, com a crescente oferta de dispositivos portáteis que -- apesar
de tecnicamente capazes -- não podem ser programados pelos usuários.

No mundo em que tudo está sendo integrado e controlado através de
dispositivos eletrônicos, em que ``código é lei'' (Lessig), ser capaz de
dominar esse código não é assunto específico de técnicos, mas
pré-requisito para cidadania plena. Num sentido mais amplo, escreveu
Carl Sagan (O Mundo Assombrado pelos Demônios):

``Nós criamos uma civilização global em que elementos cruciais - como as
comunicações, o comércio, a educação e até a instituição democrática do
voto - dependem profundamente da ciência e da tecnologia.
       Também criamos uma ordem em que quase ninguém compreende a
ciência e a tecnologia. É uma receita para o desastre. Podemos escapar
ilesos por algum tempo, porém mais cedo ou mais tarde essa mistura
inflamável de ignorância e poder vai explodir na nossa cara.''

>
> Acredito que o principal, é ensinar a criança usar o computador como uma
> ferramenta, para poder buscar informações, para poder conversar, para
poder
> disputar uma vaga de emprego. É dar a ferramenta e ensinar usar direito
e
> com responsabilidade, ensinar a criança a não se perder no meio de tanta
> informação que existe na Internet e ter um olhar crítico sobre esta
> informações e também sobre o mundo.

Novamente discordo, embora eu não tenha achado claro esse parágrafo.

A questão é: para que serve um computador?

Qualquer resposta do tipo ``para escrever texto'', ``para pesquisar na
internet'', ``para se comunicar em rede'' é limitadora.

Por quê? Porque o computador não é uma ferramenta para usos específicos.
O computador é uma ferramenta de uso geral, ele serve para *qualquer
tarefa* para a qual seja _programado_. Um usuário de computador deveria
ser, antes de tudo, capaz de programar. Nem que seja programar scripts
para manipular seus arquivos ou personalizar seu sistema. Num mundo
informatizado, ser capaz de programar não deveria ser habilidade de
apenas uns poucos. Ser capaz de programar e ser livre para instalar
quaisquer programas significa ter o controle sobre o próprio computador.

Por isso penso que é *irresponsável* a educação tecnológica que não dê
as bases para que os alunos sejam iniciados em programação de
computadores, ou pelo menos dominem todos os conceitos necessários para
aprender a programar.

As crianças de hoje em dia têm grande facilidade de se familiarizar com
dispositivos eletrônicos. Têm curiosidade de aprender a dominá-los.

No entanto, o que o mundo acaba ensinando a elas é que elas não devem se
aventurar em entender como esses dispositivos funcionam: elas têm que se
acostumar à idéia de que um computador não passa de um vídeo-game que se
conecta à internet, e que ninguém além de uns poucos técnicos -- que
concordem com termos de não divulgação de informação (NDAs) -- deve
aprender como funciona. Querer aprender a programar ou entender como os
softwares usados no dia-a-dia funcionam é associado a ser um ``cracker''
ou ``pirata'', ao invés de ser a mais natural das faculdades de um
usuário de computador.

Usar informática na educação ``como ferramenta para...'' é importante.
Mas penso ser indispensável a consciência de que a informática é uma
ferramenta para *desenvolver ferramentas*.

Posso ter talvez supervalorizado a importância de ser capaz de
programar, mas o mais importante é combater a ``cultura'' comodista de
que seria sempre conveniente delegar a outrem o controle informático de
nossas vidas.

Até mais,
Hudson

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