Pessoal, estamos teorizando demais a respeito do que tem valor e o que
não tem valor, o que deve ser respeitado o que não deve, o que deve
ser obrigado e o que não deve.

Como estas questões já foram resolvidas antes. Como vários assuntos já
foram misturados, vou organizar a resposta refazendo as perguntas e
respondendo depois, para ficar mais fácil de acompanhar.


Vamos lá:

Pergunta: É errado forçar uma pessoa a ser virtuosa.

Resposta: depende.
--
Pergunta: Do que depende ser errado forçar uma pessoa a ser virtuosa.

Resposta: As ações virtuosas causam bons resultados para a pessoa que
as pratica, nunca mal resultados. Se a pessoa que estiver sendo
forçada a ser virtuosa não sofrer de muita ignorância e for capaz de
reconhecer os bons resultados das suas ações virtuosas, e lhe ocorrer
o seguinte pensamento "isto está acontecendo a mim porque certa vez
fiz tal coisa virtuosa". Levada por este entendimento, a pessoa entra
numa corrente que a levará para fora da ignorância. Dessa maneira, é
correto forçar uma pessoa a ser virtuosa.
--
Pergunta: E de que forma não é correto forçar uma pessoa a ser ser virtuosa?

Resposta: Quando você força uma pessoa à virtude e o motivo é que você
tem  medo que os resultados das ações negativas dessa pessoa afetem
você, e não por compaixão pela pessoa, o ensinamento do que é correto
é corrompido por culpa. Desta forma, atenção da pessoa sendo forçada
se distrai dos benefícios que a ação virtuosa traz para ela mesma.

Dessa forma, mesmo que a ação traga bons resultados, por estar
distraída, ela não as percebe. Assim atribui os bons resultados à sua
esperteza, caindo numa corrente de experiências boas e más, nunca
conseguindo fazer uma ligação correta entre os efeitos e suas causas.

A pessoa afundanda cada vez mais na ignorância. Não tendo outro motivo
para praticar boas ações, a pessoa abandona os bons hábitos assim que
acabam as pressões externas. Quando não resta mais nenhuma sabedoria
na pessoa, nada mais no mundo passa a fazer sentido, pois ela perdeu a
capacidade de diferenciar as ações que causam mais sofrimento, e as
que afastam do sofrimento. Esta pessoa torna-se perigosa, pois os bons
resultados da suas ações positivas continuam amadurecendo durante um
tempo, mesmo depois de ter deixado de criar causas para experienciar
bons resultados, até de cessam de repente após todas as suas boas
ações terem amadurecido e consumidas. Isto explica algumas pessoas más
passarem por experiências boas, até que ao atingir uma posição de
poder continuam a aproveitar bons resultados, até que terminem de
consumir todo o mérito.
--
Pergunta: De que maneira a liberdade individual da pessoa deve ser respeitada?

Resposta: Da maneira que o mal uso da liberdade não venha a prejudicar
a pessoa. Quando uma pessoa, por ignorância, faz mal uso da liberdade,
deve-se impedi-la de prejudicar-se ainda mais. Tendo forçadamente
abandonado as ações prejudiciais por um tempo, a sabedoria da pessoa
retorna, tornando-a apta novamente a fazer uso da liberdade.
--
Pergunta: Mas de que forma o fato de alguém fazer uma modificação a um
software e usá-la apenas internamente leva a sociedade, ou, que seja,
apenas eu, pra baixo do zero?

Resposta: Não compartilhar é uma ação egoísta e traz muitos maus
resultados. Estes maus resultados demoram para amadurecer. Porém, por
ignorância, as pessoas que observaram o acontecimento podem jugá-lo
errado, e considerá-lo bom, como um criador de galinhas que, para sair
de uma crise, mata ou vende todas as galinhas, não tendo mais como
renovar sua criação. Estes resultados podem ser apresentados como boas
práticas, quando na verade, seus resultados não foram observados por
tempo suficiente.

Uma sociedade que enxerga benefícios no não compartilhamento, não
recrimina, não desaconselha ou tem dúvidas sobre seus efeitos
negativos é uma sociedade que considera boa uma coisa que na verdade é
má. É como uma pessoa que cria uma cobra venenosa como se fosse um
bicho de estimação e pensa "A cobra protege a casa, e também come os
insetos!", e depois perde um ente querido que foi mordido pela cobra.

Se esta pessoa fosse do tipo que conta vantagens, os visinhos teriam
feito o mesmo. De repente em todas as casas morreriam pessoas mordidas
de cobras. Os sobreviventes aprenderiam a lição e fariam de tudo para
proibir as pessoas de terem cobras em casa. Algumas seriam presas por
terem cobras em casa e lutariam por esta liberdade.
--
Pergunta: Como é possível que eu ou a sociedade acabemos numa situação
pior do que antes por não ter acesso a uma coisa que, se nunca
houvesse sido criada, também não teríamos?

Resposta: Se o advento desta coisa nova vem junto com a popularização
do não compartilhar, a sociedade perde da seguinte forma: a sociedade
ganha um cacareco qualquer que não tem muita importância, e perde o
hábito de compartilhar, esse sim muito importante.

Ora, se eu ganho o Windows Vista, por exemplo, que é algo que
facilmente se vive sem, mas devido ao seu uso a o modelo imposto para
o seu uso, EULAS e , DRM e as pessoas passarem a achar natural o não
compartilhar, leis forem escritas incentivando o não compartilhar,
modelos de negócios forem construídos no não compartilhar, pessoas
sendo empregadas por gigantes do não compartilhamento difundindo a
idéia de que compartilhar é roubar, o balanço final será Windows Vista
X Não compartilhar.

Uma sociedade pode viver sem um produto, mas não pode viver sem
compartilhar. Não compartilhar torna tudo muito mais difícil do que já
é. Uma sociedade que acha que não compartilhando estará contribuindo
para o surgimento de coisas novas está sofrendo de muita ignorância.

É desta maneira que eu ou a sociedade acabemos numa situação pior do
que antes por não ter acesso a uma coisa que, se nunca houvesse sido
criada, também não teríamos. É quando a criação desta coisa acaba com
um bom hábito, fundamental para uma sociedade.
--
Pergunta: O que podemos dizer sobre o endividamento e o compartilhamento?

Resposta: Endividamento é dever algo para alguém. Deter algo que é
devido de outra pessoa. Logo se vê que qualquer modelo que promova o
compartilhar não deve se articular em termos de endividamento. Dádiva
é incompatível com dívida. Então o compartilhamento combate o
endividamento, o endividamento combate o compartilhamento.

On 5/12/07, Alexandre Oliva <[EMAIL PROTECTED]> wrote:

Mas de que forma o fato de alguém fazer uma modificação a um software
e usá-la apenas internamente leva a sociedade, ou, que seja, apenas
eu, pra baixo do zero?  Como é possível que eu ou a sociedade acabemos
numa situação pior do que antes por não ter acesso a uma coisa que, se
nunca houvesse sido criada, também não teríamos?

O que me ocorre é se a existência dessa nova modificação oferecesse
algum impedimento para um desenvolvimento independente dessa mesma
modificação.  Como, por exemplo, uma patente de software.

Mas, sobre patentes de software, suponho que temos consenso neste
fórum de que são um problema, mas que também não são o único caso, nem
o caso mais comum, de uma modificação não distribuída como fonte de
prejuízo para o autor original ou para toda a sociedade.  Devo então
supor que há algo que ainda me escapa, ou que não há prejuízo de fato.

Vejo duas possíveis conseqüências desse endividamento:

1. uma sociedade que reconhece e perdoa esse endividamento, como forma
  de investimento de longo prazo em artistas que, espera-se, venham a
  desenvolver seu talento ao longo do tempo e então quitar seu
  compromisso com a sociedade.  Artistas, por sua vez, em sua maioria
  endividados à sociedade, no afã de quitar sua dívida, produzem mais
  e mais.

  a. Pode ser uma utopia, em que todos se vêem induzidos (mas não
  forçados) a contribuir cada vez mais, criando um ciclo virtuoso de
  endividamento para com a sociedade que leva ao enriquecimento do
  todo, ou

  b. uma distopia, em que a incapacidade de quitar a dívida induza à
  frustração pessoal, em que o artista deixe de experimentar prazeres
  na criação de suas obras, pois assim se endividaria menos, talvez
  sem perceber que essa frustração provavelmente se reflete na obra e
  a torna ainda menos valiosa.  Perde a sociedade.

2. uma sociedade que cobra a dívida, gerando semelhante frustração em
  autores, mas que, dada a obrigação de pagar a dívida, preferem
  deixar de criar para não mais se endividarem, e então buscar quitar
  sua dívida de outra forma.  Perde a sociedade.


Parece-me que 1a seja o único cenário desejável, pois fomenta e
incentiva a criação, sem porém exigir a "devolução".  Promover o
conceito moral da busca do bem comum, como forma de suscitar a
sensação de endividamento, ainda que não exigível, parece-me (do alto
de minha ignorância e da minha inexperiência com o assunto ;-) a
fórmula para conduzir a esse objetivo desejável.

Já a promoção da idéia de obrigação parece-me criar justamente o
efeito contrário, extinguindo a publicação, a colaboração e a cultura
por matar a criatividade.


Faz algum sentido isso?

--
Alexandre Oliva         http://www.lsd.ic.unicamp.br/~oliva/
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A ignorância é um mecanismo que capacita um tomate a saber de tudo.


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Glauber Machado Rodrigues
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