Hudson Lacerda wrote:
Ricardo L. A. Banffy escreveu:
Hudson Lacerda wrote:

Minha opinião é a de que ao menos existe a _possibilidade_ de que uma estatal possa ser usada em favor do povo. (Para isso é necessário haver pressão da sociedade, fiscalização, etc. Esse é outro problema.)


Explique como uma empresa privada não beneficia o povo de um país.

Utilizando recursos naturais do país como se fossem propriedade legítima da empresa.

Há setores fundamentais -- saúde, educação e previdência -- em que a ``iniciativa privada'' atrapalha muito, com influência para que os serviços públicos não funcionem.

Mas há muitos setores em que não é necessário nem desejável haver participação estatal.

Onde você trabalha?

Trabalho numa escola estadual (pública) e numa fundação (particular), além de estar trabalhar em projetos ``avulsos'' e dar aulas particulares.


A re-estatização é um passo (necessário mas não suficiente) para a nacionalização. A privatização é um passo para trás.


Eu fui dono de um pouco da Vale (que, aliás, era de capital misto, não uma estatal "pura"). Vendi minha parte há pouco para comprar ações de outras empresas igualmente privadas e mais interessantes por hora. Eu sou menos dono das empresas do que seria se elas fossem um apêndice do governo?

Acho que não.

Mas que ela é melhor gerenciada, isso ela é, sem sombra de dúvida. E é assim porque não há espaço na iniciativa privada para o grau de parasitismo que você vê em qualquer estatal em qualquer parte do mundo. Governos são acionistas muito descuidados e complacentes, coisa que investidores profissionais não são nem um pouco.

Os detendores da ``iniciativa privada'' mamam sim.


Não sei se você sabe, mas na iniciativa privada se trabalha, e bastante.

Sim, funcionários trabalham duro para sobreviver enquanto enchem os bolsos dos donos, gerentes e acionistas.

Não sei o que você conhece e experimenta, mas os donos e gerentes normalmente trabalham bastante. Os acionistas trabalham um pouco menos diretamente na empresa, mas emprestam seus recursos para que ela funcione e possa investir mais.

Qual era seu trabalho na CVRD quando você era acionista dela? O que você produzia lá? Quantas horas de trabalho você dedica por semana às empresas das quais você é acionista? O que você efetivamente produz nelas?

Nenhuma. Em compensação, não uso o dinheiro investido nelas pra trocar meus móveis, jantar fora ou fazer outras coisas que seriam divertidas. Para fazer essas mesmas coisas sem usar esse dinheiro, eu tenho que trabalhar um pouco mais. É aí que meu trabalho se converte em benefício pra, por exemplo, a Vale.

E não pense que eu sou um grande acionista. Eu costumo brincar que sou "acionista infinitesimal", o que é uma descrição correta.

Pense bem: Um comprador diz quanto vai pagar por algo que não é dele. Se o vendedor não quiser, o comprador pode usar de violência e tomar o bem que ele quer, alegando que ele tem um direito natural de fazê-lo.

Isso é justo?

Pra ser justo mesmo, deveríamos passar a conta pro FHC pagar. :-)

Não se desvie da pergunta. É justo quando é o governo que usa de sua força (e do seu monopólio sobre o uso da violência) para atingir seus objetivos?

Arrã. Mostre um caso.

Reconheço não saber de um caso (o fascismo ainda reina...). Mas creio ser menos difícil democratizar uma empresa estatal do que democratizar uma grande empresa privada.

Compre ações, filie-se a associações de acionistas. Se você fica de fora por escolha, não reclame por estar de fora.

A ausência do estado e a interferência da grande iniciativa privada na formação e operação deste pode levar à ditadura, mas duvido que Chomsky concorde com sua generalização.

Dentro das empresas, todas as políticas emanam do controle vindo de cima. Qualquer tentativa de mudança sofrerá a reação dos de cima, totalitários que se consideram ``donos legítimos'' da empresa.

Não. Em empresas bem estruturadas existem pesos e contrapesos que impedem que os seus presidentes se tornem "senhores absolutistas". É normal que os acionistas possam votar a destituição de qualquer um a qualquer tempo.

Chomsky se referia, em uma entrevista, a uma empresa específica: a General Electric. No entanto, creio que ele citou a GE como _apenas um exemplo_ de tirania empresarial.

O trecho é interessante:

Veja bem que, no caso, ele fala da influência da GE corrompendo o governo e influindo na aplicação seletiva de leis, não na iniciativa privada em si.

Note também que uma empresa desse porte, principalmente nesses tempos de SOX, tem muitos mecanismos de auto-regulação (me dói a cabeça só de pensar neles). O presidente da empresa não é um imperador imbuido do direito divino de gerenciar, mas responde ao conselho e, em última instância, aos acionistas que, se não estiverem satisfeitos com a atuação dele (ou do conselho), podem removê-los em assembléia.

Em Cochabamba, na Bolívia, chegaram a privatizar todos os recursos hídricos -- incluindo a água da chuva. As pessoas pobres que não podiam pagar pela água encanada foram proibidas de coletar água da chuva. Isso podia até ser legal (estar dentro da lei) mas não era de modo algum legítimo (socialmente/moralmente correto). A insatisfação e pressão popular foi tamanha que a empresa brindada com a concessão (Bechtel, dos EUA) ``desistiu do negócio''.

E eu lamento profundamente que Evo Morales seja um progresso em relação aos seus antecessores. Só posso me sensibilizar com sofrimento do povo boliviano.

E, provavelmente, a lei que permitiu isso deveria ferir algum princípio constitucional. Ou isso, ou a constituição deles não vale o papel em que foi escrita.


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