Ufa escreveu:
Galera,
a Receita negou os pedidos de impugnação do edital, se baseando em um estudo que
ela fez em 2005(!!) com o Openoffice 1.1(!!!).
Pelo q eu li do documento q vc enviou, eles falam apenas de 3 solicitações de impugnação. Me parece q isso não cobre a solicitação indicada pelo Teza. Em todo caso, o relatório da COTEC da RFB está um primor de prepotência. Tbém, no país do rabo preso, acho q só a PF é mais temida do q ela.

Alguns trechos interessantes (grifo meu):

(1) "A alegação de que outros órgãos públicos migraram ou estão migrando para soluções abertas deve ser analisada levando-se em conta o contexto de cada realidade, enfatizando que as especificidades da Receita Federal e de seus resultados *não permitem nenhuma margem a aventuras* que possam pôr em risco a arrecadação federal, conforme se verá a seguir."

- Caramba! De cara ele coloca as iniciativas do Serpro, CEF, BB, etc como "aventuras". Tivesse encerrado o argumento até a primeira vírgula, seria algo irrefutável. Agora, com esse linguajar dá uma certa impressão q rolou uma "emoção" nessa resposta.

(2) "Parece **falar por si só o fato de que, mesmo sendo uma solução gratuita, o OpenOffice / BrOffice não venha conseguindo penetração expressiva no mercado**: as organizações públicas e privadas preferem pagar por uma solução confiável a ter que conviver com problemas de incompatibilidade que, por mais pontuais que sejam, acarretam pesadas perdas de produtividade. Vide gráfico acima, disponível em www.fgvsp.br/cia/pesquisa, consultada em 28/08/2007."

- Engraçado. A referida pesquisa da FGV refere-se apenas a empresas de capital PRIVADO. Sendo a RFB um órgão do Ministério da Fazenda de natureza puramente "governamental" (ou assim deveria ser), não seria uma comparação mais "justa" citar uma pesquisa que contemplasse a adoção de OO.o/BrO.o em órgãos de governo? Os já citados Serpro, CEF, BB, etc não apresentam desafios mais similares ao da RFB do q, digamos, uma locadora de veículos (por explo, não vi a lista de empresas)?

- Além disso, no PDF disponível no url da FGV citado pela RFB *não* aparece o gráfico colocado na resposta. Há um relativo apenas a planilhas, com proporções similares ao colocado no documento da RFB. Porém, o q eles deixaram de fora é q logo depois há outro gráfico com a evolução da participação de mercado ao longo do tempo. Ainda q o Excel domine 92% do mercado, o gráfico temporal mostra o *CRESCIMENTO* do OO.o/BrO.o. E a tendência indicada para os próximos anos é justamente de continuidade deste crescimento. Conforme o esperado, realmente não saíram por aí "queimando" suas cópias de MS Office, mas isso não indica q o produto é o "fim da história" no mercado de "Office suites". BTW, pra quem tiver interesse, a pesquisa indica crescimento similar qto ao Linux (ok, gnu/linux).

(3) "O já mencionado relatório em anexo, baseado em publicações independentes como o Gartner Group e a Forrest Research - e não em publicações vinculadas a qualquer dos lados - é conclusivo no sentido de que, pelo menos neste estágio das chamadas 'tecnologias abertas', não é possível substituir o pacote de produtividade Microsoft por supostos similares gratuitos, sob pena de danos irreparáveis ao erário, visto que diversas aplicações simplesmente não poderiam ser executadas com o uso de pacotes abertos como o BrOffice. Em outras palavras, pelo menos no caso da Receita Federal e no atual estágio da tecnologia, não se está falando de pacotes equivalentes de fato, dada a incompatibilidade do OpenOffice / BrOffice com relação a algumas aplicações críticas."

- O tal relatório "em anexo" é de 2005. Em "internet time" 2 anos equivalem a quase 2 décadas em termos de evolução. O Gartner (q já deixou de se chamar "Group" há algum tempo) ainda estava descobrindo o software "open source" em 2005. E, curiosamente, apresentava relatórios positivos com relação a FLOSS *no governo*. E, mais especificamente, nenhum relatório do Gartner sobre open source e OO.o diz q vc *não* deve migrar. Em todos eles chama-se a atenção de q se trata de uma situação caso a caso e q um estudo sério de custo/benefício precisa ser realizado, pois - como todos sabemos - não há compatibilidade completa, tampouco as funcionalidades se equivalem 1 a 1. O q a RFB está dizendo é q eles teriam perda de produtividade de 40 MILHÕES DE REAIS se migrassem para OO.o. Será q eles *realmente* fizeram um estudo tão detalhado à luz do q temos *hoje*?

- Quais serão as tais "aplicações críticas"? Parece até FUD da MS: o Linux infrige minhas patentes, mas eu não digo quais são. No caso da RFB: o OpenOffice.org não roda minhas aplicações críticas, mas eu não vou dizer quais são! ;-)

(4) "Conquanto a questão de compatibilidade entre o Office 2007 e suas versões anteriores seja uma realidade, inclusive relatada por instituições isentas como o Gartner Group, é ilustrativo o fato de que o próprio Gartner Group mantenha sua recomendação para que usuários migrem para a nova versão, notadamente aqueles que ainda utilizam o Office 2000, como é o caso da Receita Federal. O Gartner Group, cuja credibilidade e isenção são inquestionáveis, parece ser uma fonte mais confiável do que informações coletadas em sites vinculados a software livre, como os citados pela impetrante."

- O q ele esquece de avisar, novamente, é q o relatório do Gartner q recomenda q os usuários de Office 2000 migrem para 2007 diz isso baseado no ciclo de vida das versões do MS Office. Quem não migrar agora, estará perto do fim do suporte à versão 2000, o q justifica o período escolhido para uma migração tranqüila. O relatório q eu imagino q ele usou não diz respeito a usar um ou outro, diz respeito a qto tempo vc deve ficar com cada versão do MS Office. TODOS OS RELATÓRIOS DO GARTNER SÃO IDENTIFICADOS. Citar conclusões soltas sem dizer de onde foram tiradas me parece mais ou menos como escrever uma dissertação de mestrado sem citar as referências.

- Qto à "insenção e credibilidade" do Gartner, cabe um parentêses:

Acabei de voltar de um evento deles em São Paulo, a "XII Conferência sobre o Futuro da Tecnologia". Lá, participei de um almoço onde eles explicavam o processo seletivo dos analistas. Basicamente, os selecionados costumam ser profissionais com um certo tempo de estrada, já com seus cabelos brancos abundantes (qdo ainda há cabelo). Em q isso pese na confiabilidade dos analistas, por outro lado, EM MINHA OPINIÃO, tende a gerar um certo "atraso" no reconhecimento de coisas novas q ainda estão começando a surgir. Qdo o assunto "software livre" e "open source" começou a esquentar na mídia mundial, lá por 2002/2003, eles ainda estavam "tateando" no escuro.

Perguntas sobre o assunto em 2004 costumavam ser respondidas com algo similar a "estamos nos inteirando sobre o assunto" (e eu ouvi isso justamente na versão 2004 da conferência q eu fui este ano). Inclusive, um dos motivos pelos quais eu acho a empresa confiável está justamente nessa de admitir qdo um assunto ainda é emergente e eles ainda não têm dados suficientes para oferecer previsões ou tendências.

Em 2005 começaram a surgir os primeiros relatórios mais "consistentes" sobre o assunto. Curiosamente, quem escrevia boa parte deles na época era um jovem analista (pelo menos parece ser jovem) *brasileiro*. Inclusive, a visão dele sobre o assunto parecia ser bastante favorável ao lado "open source", em q pese a visão conservadora dos clientes do Gartner. Hoje esse analista está escrevendo sobre outros lances mais "modernos", como mundos virtuais, colaboração, etc. Novamente, parece q o Gartner levou uns 2 anos para entender os "memes" da Web 2.0 (pelo menos tive essa impressão no evento deste ano).

Enfim, sem questionar a "confiabilidade" do Gartner, acredito q há algumas situações onde eles ainda estão tentando entender o q o mercado está fazendo a respeito de um tópico. A linha de pesquisa "open source" é relativamente recente na empresa e na época do relatório da RFB (2005) eles ainda estavam no início dos trabalhos sobre o tema (pelo menos com a importância q ele tem hoje na base de dados deles).

Um outro fenômeno interessante está também na "audição seletiva" dos clientes: neste evento, na keynote de abertura, foi citado q o mercado de software open source tende a crescer, PORÉM o de software proprietário continuaria maior e a crescer tbém. Em suma, um modelo não eliminaria o outro, e o mercado de FLOSS, ainda q menor, movimentaria algumas dezenas de BILHÕES de dólares. O analista q apresentou isso (um "das antigas") destacou bastante q o FLOSS não tomaria o lugar do SProprietário, e q o Gartner acreditava q havia um lugar para cada modelo.

Olhei para a platéia e vi aquele monte de cabeças balançando em uníssono um "SIM" silencioso. Quase aliviadas pelo q estavam ouvindo. Pra mim, foi um dado positivo para o FLOSS e uma indicação de uma baita oportunidade para empreendedores nesse mercado. O próprio Gartner tinha um relatório q dizia claramente q vc tinha de ter uma estratégia a respeito de FLOSS, uma vez q era praticamente *inevitável* q ele viesse a fazer parte do seu portfólio tecnológico. Para os q estavam balançando a cabeça era um indicador de q adotar SProprietário era uma boa e q "esse negócio de software livre" não iria mais importar. Sei disso pq ouvi as conversas e alguns conhecidos q tinham passado por certas "pressões" p/ adoção de FLOSS vieram tirar uma onda comigo: "vc viu o q o cara disse? Esse povo do software livre q ficava tentando enfiar isso na marra no <instituição governamental de determinado poder da república> não tá com nada!" (ou algo bem próximo a isso).

BTW, Serpro, BB e CEF são *grandes* clientes do Gartner. Será q eles não tiveram acesso aos mesmos relatórios q a Receita e decidiram ir adiante em seus processos de migração/adoção de OO.o/BrO.o? Ou eles ignoraram as recomendações e se "aventuraram", como disse a COTEC? ;-)

Assim, o mesmo relatório do Gartner pode ser usado tanto para apoiar uma decisão qto para negá-la. E uma vez q a quem questiona a Receita só chega uma conclusão, sem sequer a citação dos documentos q a embasam, fica complicado saber como a informação foi usada. Às vezes acho q a Associação Software Livre devia assinar um dos serviços do Gartner para ter acesso às mesmas bases de dados e poder questionar mais abertamente essas afirmações. Vale lembrar q até o TCU hj em dia usa o Gartner como referência.


Bom, o reply acabou ficando longo (e já devo estar escrevendo há algumas horas). Acredito q dificilmente alguém conseguirá questionar a Receita a respeito desta licitação. A instituição, como pode ser observado no documento encaminhado pelo Ufa, tem uma certa "arrogância", certamente nascida do fato de q são seus recordes sucessivos de arrecadação q sustentam os governos q entram e saem do Planalto. Sem falar na ameaça velada de uma auditoria, pesadelo de certos figurões de "rabo preso" e uma pertubação sem fim mesmo para quem não deve nada a ninguém. No mais, esperam-se respostas como essa: citações vagas a números apresentados parcialmente; afirmações eloquentes sobre a importância de manter a arrecadação alta; recomendações relativas de consultorias apresentadas como a verdade final sobre as coisas.

[ ]s,

olival.junior
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