Na última década temos visto o crescimento do processo colaborativo de desenvolvimento de software através dos princípios do movimento do Software Livre no Brasil e no mundo. É praticamente inconteste que esse crescimento é sólido e constante.

Seja pelos seus critérios éticos e morais, seja pela sua forma pouco ortodoxa de desenvolvimento ou ainda pela primazia nos resultados, o Software Livre, a cada dia, angaria mais e mais seguidores e até mesmo fanáticos.

*Entendendo a idéia*

As quatro liberdades definidas pela FSF – Free Software Foundation são de fato o baluarte da nova ordem tecnológica mundial e pode-se resumí-las em algo bem simples: não tome para si o que é dos outros, em termos de software, ou seja, você não tem o direito de se beneficiar do trabalho alheio para ganhos pessoais. Parece “papo” de comunista, mas não é.

Se você foi capaz de desenvolver uma nova rotina computacional, perceba que ela não era tão nova assim. O seu brilhantismo só foi possível graças ao acúmulo de conhecimentos de diversas áreas que lhe foram ensinadas na escola ou de forma auto-didata. Mas é quase inconcebível que algo 100% novo e puro surja, de uma mente humana que não tenha nenhuma informação prévia sobre nenhum tema.

Se lhe parece razoável que o seus conhecimentos não passam de acúmulo do conhecimento humano em uma determinada área, então a conclusão fica ainda mais clara: se você pôde aprender e deter o conhecimento de outros humanos para ter uma “brilhante” e “inovadora” idéia, porque essa idéia pertence a você? porque ela não pertence à humanidade como um todo?

Esse é o conceito primário sobre o que vem a ser o Software Livre, no que diz respeito a programas de computadores. Entretanto o raciocínio acima vale para qualquer conhecimento, ou seja, para tudo.

As pesquisas científicas tem muito disso. Não é 100%, mas está bastante evoluído, afinal de contas uma nova fórmula química ou um novo procedimento operatório só terá respaldo da comunidade científica mundial, se forem fornecidas todas as informações para que esses procedimentos e fórmulas possam ser testados à exaustão nos mais diversos ambientes. Está claro que o autor da idéia, da fórmula ou do procedimento terá os créditos, levará os louros pela sua “genialidade”, mas, uma vez que a forma de sua concepção foi mostrada para o mundo, todos os humanos se beneficiam. Tanto pelo seu uso direto, quanto pela possibilidade de acúmulo de conhecimento para que novos avanços sejam alcançados.

Então podemos dizer que é éticamente correto explicar aos outros como um programa de computador está escrito para que outros entendam como se faz e possam aprender e melhorar os seus programas. E se o mundo atual é tecnológico e seguindo a mesma linha de raciocínio, todas as tecnologias deveriam estar disponíveis para estudos e para um maior avanço da humanidade como um todo. Mas não estão.

Mais de 90% de todas as tecnologias desenvolvidas e consumidas no mundo não disponibilizam seus métodos e suas rotinas. Por trás desse “esconde-esconde” há muito mais do que consegue perceber sua vã filosofia. Interesses corporativos por lucro desmedido. Interesses governamentais de exploração e controles geopolíticos. Interesses científicos por reconhecimento e glória. Interesses acadêmicos por aparecer como o melhor centro catedrático.

A pergunta básica é: porque as pessoas de bem no mundo não fazem nada para impedir que esse controle seja mantido dessa forma?

*Sobre mim*

Meu primeiro contato com o Software Livre e sua filosofia foi em 1996 quando visitei a INFOR -NORDESTE, na época a segunda maior feira de tecnologia do Brasil. Por favor seja literal no entendimento da palavra “feira”. Não passava de centenas de stands querendo comercializar todos tipo de equipamentos e artigos ligados à tecnologia: desde descansos de mouse até computadores portáteis. Todos devidamente importados e com longos históricos de proibição de acesso ao conhecimento. De fato como são todas as feiras de tecnologia ao redor do mundo.

Mas havia uma exceção: o Gnu/Linux que estava sendo apresentado em um dos stands. Com alguns anos como professor decidi entender o seu conceito e não demorou para que ficasse claro que esse era um bom caminho a seguir. É claro que essa conclusão passava diretamente pela minha profissão, afinal de contas é isso o que um professor faz: repassar conhecimento. É claro que estou me referindo aos professores de verdade e não a corja de acadêmicos imprestáveis que infestam à universidades tupiniquins.

Já em 2000, entusiasmado pela filosofia iniciei meu próprio projeto Software Livre, erroneamente batizado de MyConfigurator 2000 que tinha por objetivo facilitar a configurações de serviços básicos no então cru ambiente do Gnu/Linux. Já em 2002 decidi criar algum tipo de software que me permitisse controlar servidores com total mobilidade. Assim nasceu o LESP-CEL, um programa que permite controlar computadores com Gnu/Linux conectados na Internet, através de um simples aparelho celular. Já em junho de 2004 nasceu o JeguePanel (http://www.jeguepanel.net <http://www.jeguepanel.net/mambots/editors//>) uma interface de administração de servidores de e-mail e Samba.

Todos os projetos foram devidamente licenciados pela GPL – General Public Licence e sempre acessíveis ao mundo, visando atender aos princípios filosóficos do Software Livre, ou seja, doar à humanidade o meu pouco conhecimento e minhas poucas idéias.

Concomitantemente também me dei ao trabalho de realizar dezenas de palestras filosóficas sobre a viabilidade econômica e a necessidade moral e ética do Software Livre, culminando com uma palestra intitulada “Complexo de Formiga” onde se discutia exatamente a apatia do terceiro mundo no aceite das regras comerciais, educacionais, culturais e tecnológicas impostos pelos países do primeiro mundo.

*Profissionalizando o Software Livre*

Todo esse trabalho foi feito nas minhas horas vagas, ou seja, quase como um “hobby”. Eu tinha empregos regulares onde o expediente estava bem definido e a remuneração era compatível com o tipo de trabalho desempenhado. Dediquei-me integralmente, inclusive de forma profissional, ao Software Livre.

Tanto que em novembro de 2006 decidi tentar provar que o Software Livre poderia, além de sua filosofia, ser uma boa forma de renda. Decidi encarar o mercado e buscar formas de viabilizar o projeto de maior visibilidade – o JeguePanel – para que se torna-se sustentável. Os custos iniciais são os de sempre: servidor para hospedagem da página do projeto, conexão à internet, telefone e muitas horas de dedicação exclusiva ao seu desenvolvimento e aprimoramento.

A idéia era simples: disponibilizar os fontes e buscar mercado para a prestação de serviços envolvidos na instalação, configuração, personalização e capacitação envolvidos no uso de servidores de e-mail e rede. A velha “cantiga de ninar” de que Software não é produto e sim serviço.

Além do mais o trabalho seria “compartilhado”, afinal de contas esse é o espírito do Software Livre: a comunidade colabora no desenvolvimento, documentação e tradução.

Com bastante esforço e dedicação alcançamos alguns clientes importantes, especialmente Universidades no Brasil e no exterior. Provedores de Internet, fábricas e órgãos do governo também aderiram ao uso do JeguePanel. Infelizmente a grande maioria não colabora de nenhuma forma, ou seja, não nos enviam relatórios de erros, não realizam contribuições de código, não colaboram com a documentação, não contratam nossos serviços e sequer são capazes de colaborar fazendo doações em dinheiro para o sustento do projeto. Na verdade não somos nem informados de que eles estão usando o JeguePanel.

Sabemos que a licença não obriga nenhuma das empresas que usam o JeguePanel a nos informar o que quer que seja, nem a colaborar ativamente de nenhuma forma. Entretanto entendo que sem nenhuma colaboração o princípio de funcionamento, ou seja, a força motriz do Software Livre não existe.

Assim o ano de 2007 foi realmente muito decepcionante, em todos os aspectos. Por alguma razão, além da minha compreensão, nada pareceu dar certo, apesar do JeguePanel ter sido baixado por mais de 3.400 pessoas e empresas ao redor do mundo.

É baseado nessa experiência que decidi escrever este texto enumerando as dificuldades que tenho encontrado. Quem sabe na busca de soluções reais e factíveis.

*Entendendo os sintomas do problema*

*Comunidade*

A comunidade brasileira de Software Livre é inepta quando se trata de desenvolvimento de Software Livre. Na verdade quando se trata de qualquer trabalho voluntário que esteja diretamente relacionado com o software em si. Com raríssimas exceções, a maioria esmagadora dos que realmente atuam em pró do Software Livre no Brasil estão focados na organização de eventos.

As razões dessa concentração em eventos devem ser várias:

       * É muito mais fácil aparecer como “expoente” do Software Livre
         organizando eventos do que desenvolvendo software;

       * As pessoas que realmente entendem a idéia do Software Livre,
         na minha percepção, são mais velhas e portanto se dedicam mais
         à organizar os conceitos filosóficos do que o desenvolvimento
         de software;


       * Brasileiro adora uma “boa farra” e no fundo, um evento não
         deixa de ser uma farra!


       * Todos acreditam que os eventos realizam o seu papel de
         disseminadores da filosofia do Software Livre, o que
         terminaria por estimular as pessoas a participarem no seu
         desenvolvimento.


O fato é que o uso de Software Livre no Brasil tem crescido muito e não tenho dúvidas de que um dos motivos é o grande número de grandes eventos que temos em nosso país continental. Entretanto, aumentar o número de usuários não deveria, jamais, ser o suficiente.

Como disse antes há exceções. Estes brasileiros de destaque no cenário mundial do Software Livre e que realmente se dedicam ao desenvolvimento de software, sofrem de outro mal: “o querer aparecer no mundo”.

A grande maioria deles se preocupa, e talvez com razão, em escolher projetos internacionais e/ou já solidificados no mercado. É uma excelente forma de utilizar nosso brilhantismo tupiniquim para “fazer seu nome” lá fora e ser reconhecido mundialmente. Nesse ponto está claro que projetos nacionais, mesmo que sejam muito bons não tem o mesmo atrativo.

A consequência direta é que os projetos nacionais, não somente o JeguePanel, mas muitos outros, simplesmente não recebem ajuda dos poucos desenvolvedores disponível no Brasil.

O clássico exemplo é o do Kurumim do guerreiro Carlos Morimoto, que terminou graças ao descaso da comunidade brasileira de Software Livre. “Quem nunca usou o Kurumim que atire a primeira flecha!”

E como se não bastasse a não colaboração, ainda somos alvos de agressões e ofensas pessoais gratuitas. Permitam-me explicar: há um componente do JeguePanel que integra-se com servidores Windows que utilizam Active Directory. Este componente não é fornecido gratuitamente. Sua licença é GPL e portanto nos permite cobrar monetariamente pela sua distribuição.

Portanto, para se ter acesso ao componente, é necessário pagar. Isso enfureceu algumas pessoas e fomos alvos de diversas mensagens eletrônicas contendo todo tipo de palavreado de baixo calão, inclusive com referência a parentes e entes queridos.

Definitivamente essa foi a mais desgastante prova da falta de reconhecimento e maturidade da comunidade de Software Livre Brasileira.

*Academia*

A academia brasileira é provavelmente o setor mais desinteressado de todos. Eles parecem não entender o valor do Software Livre e de sua filosofia para os estudantes e para o futuro do Brasil. Eles me lembram muito aos políticos demagogos que sabem fazer lindos discursos sobre a educação, mas depois de eleitos nada fazem para que ela mude, visando manter seus currais eleitorais.

A academia se mantem firme no propósito de concentrar conhecimento em vez de disseminá-lo, fazendo contratos de colaboração tecnológica com as grandes do setor tecnológico. O que “per si” é uma dicotomia total e absoluta, uma vez que essas “grandes” jamais ensinam nada aos estudantes. Esses contratos de colaboração visam sempre manter o “status quo” de adestramento no uso de seus produtos e tecnologias e nunca de estimular o raciocínio e o conhecimento de fato.

Portanto, a colaboração da academia para o Software Livre é extremamente limitado aos poucos heróicos professores que, de forma isolada e muitas vezes sob pressão político-acadêmica, insistem em disseminar o conhecimento.

*Mercado*

O mercado é o mais aproveitador de todos. O objetivo dele é um só: redução de custos a todo custo! Alguém conhece algum banco que invista diretamente em Software Livre ou em sua comunidade? Até mesmo o Banco do Brasil que está implementando (olha aí mais um caso de uso e não de desenvolvimento) Gnu/Linux em todas suas agências, consegue ser controverso.

Faz algumas semanas o Banco do Brasil tornou pública uma iniciativa chamada http://www.tecnologiasabertas.com.br <http://www.tecnologiasabertas.com.br/> que tem por objetivo fornecer ambientes de teste e homologação para desenvolvedores de Software Livre. São mais de 60 servidores, com alto poder computacional, que podem ser utilizados para ajudar a comunidade de Software Livre, entretanto eles pecam mais uma vez: pessoas físicas não podem participar.

Contraditório, uma vez que a “comunidade” é formada, em sua imensa maioria, por pessoas físicas e não de empresas e ONG's, ou seja, que tipo de ajuda é essa que não ajuda a quem deveria ajudar? Qualquer semelhança com a ONU não é mera coincidência.

Outro caso gritante é o da Google. Sim, a gigante dos sistema de buscas é uma das maiores utilizadoras de Software Livre do mundo. Mantém praticamente tudo sobre plataforma GPL, e não devolve nada para a humanidade. Aproveitando-se de uma brecha legal, que diz que as modificações feitas em softwares licenciados sob GPL somente tem que ser entregues se o software for distribuído, eles não mostram nenhuma das melhorias que andam fazendo. Afinal de contas eles não distribuem software, nós os usamos nos servidores deles.

Legalmente impecável. Moral e eticamente reprovável.

Um aspecto que o “mercado” ainda parece não entender é que o Software é livre, mas que os serviços envolvidos não são gratuitos. Muito comum recebermos mensagens de insulto por cobrarmos para prestar serviços de instalação e configuração. Que absurdo!!!!

No demais é o de sempre: sugar até onde for possível, gastando, sempre que der, nada. Por incrível que pareça o projeto JeguePanel nunca recebeu qualquer tipo de doação ou contribuição de nenhuma empresa, ONG, órgão do governo ou pessoa física.

*Conclusão*

Projetos de Software Livre, no Brasil, sem apadrinhamento financeiro estão fadados à falência. Infelizmente o JeguePanel está a ponto de não ser mais mantido por falta de ajuda comunitária, voluntária, de mercado e especialmente financeira.

A partir deste momento estou procurando emprego regular para poder sustentar o JeguePanel como “hobby” até o dia em que o projeto consiga pagar as contas de casa. Afinal de contas trata-se de Software Livre e não de software+desenvolvimento+correção de bugs+personalização+documentação gratuitos.

Acredito plenamente na filosofia do Software Livre, mas depois de toda a experiência adquirida não vejo como projetos pessoais baseados nela conseguirão se manter e crescer. Especialmente com o comportamento de “Gerson” que ainda persiste em nosso país.

Apesar de ser constrangedor, este também é um pedido de emprego. Definitivamente não consigo mais sustentar a situação e o projeto nas condições atuais. Portanto se você sabe de alguma empresa precisando dos serviços de um experiente administrador de redes, por favor me avise. Segue:

E-mail: [EMAIL PROTECTED] <mailto:[EMAIL PROTECTED]>

Curriculum Vitae: http://tinyurl.com/3cg569

Saudações Livres,

Anahuac

JeguePanel – http://www.jeguepanel.net

--

Projeto JeguePanel http://www.jeguepanel.net

_______________________________________________
PSL-Brasil mailing list
PSL-Brasil@listas.softwarelivre.org
http://listas.softwarelivre.org/mailman/listinfo/psl-brasil
Regras da lista: 
http://twiki.softwarelivre.org/bin/view/PSLBrasil/RegrasDaListaPSLBrasil

Responder a