On May 30, 2008, Julian Carlo Fagotti <[EMAIL PROTECTED]> wrote:

> Deveríamos valorizar a agenda positiva, mais do que os percalços.

Não dá pra esquecer nenhum dos dois.  Comemorar que conseguimos chegar
até a base da montanha é bacana, parabenizar quem chegou primeiro
também, mas se o objetivo é chegar ao topo, lembrar que ainda tem
muito que subir é necessário.

Sem falar que, especialmente em se tratando de iniciativas do poder
público, os avanços são não mais que cumprimento de obrigações legais
e morais que vinham sendo descumpridas e desrespeitadas há muito
tempo.

Não quero dizer que não haja mérito em corrigir os erros, e entendo
perfeitamente a frustração: era comum eu ouvir, ao chegar da escola
contente com o boletim, um "não fez mais que a obrigação, mas por que
esse nove não foi também um dez?".

Nota zero em psicologia motivacional, e infelizmente é bem difícil a
gente se libertar de comportamentos incutidos por imitação de modelos
paternais desde a mais tenra infância.

Agora, imagina o seguinte...  (Lá vou eu em mais uma metáfora.  Nunca
na história desse país se usaram tantas.  De fato, eu ia usar uma
hipérbole envolvendo tortura, mas vou me ater ao desrespeito verbal
pra comparação desproporcional não virar o tema da discussão).


Suponha que tem uma turba xingando você, desrespeitando, abusando
mesmo...  Comportamento inaceitável, na fronteira entre o legal e o
ilegal, mais pro lado do ilegal.

Aí um dos membros da gangue fala pros companheiros: "pô, gente, pega
leve, isso não se faz!".

O pessoal então passa a usar termos menos desrespeituosos e abusivos.
Continua xingando, desrespeitando e abusando, mas menos.

Você, percebendo a mudança para melhor, congratula a todos pela
melhora de comportamento, e não faz menção alguma ao abuso
remanescente.

Não parece esquisito?


Agora, volta pro mundo do Software Livre.  Alguém manda um patch.
Maravilhoso, lindo, funcionalidade super importante, tudo jóia.

A resposta: "Faltou a entrada pro ChangeLog."

Alguém menos avisado pode pensar: "pô, que cara chato, um detalhezinho
desses...  E o cara nem jogou confete no meu patch maravilhoso :-("

Alguém já escolado no processo entende que é assim que funciona, por
default aquilo que não foi comentado tá bom, o que foi comentado é o
que precisa ou podia melhorar.

Sei que na política e na diplomacia é diferente.  Diz que o sujeito
fede comentando como é forte e agradável o perfume que ele usa.  Manda
o cara à merda de um jeito que ele fica ansioso pra chegar lá.  Posso
até tentar fazer dessas coisas, mas vai soar falso, artificial e, pra
mim o pior, desonesto.

> Transformar nossas pequenas vitórias em grandes derrotas

Mas quem foi que fez isso?  Comunicação tem sempre pelo menos dois
participantes: o que envia a mensagem e o que recebe.  Toda
comunicação é imperfeita.  O que chega nunca é exatamente o que foi
mandado.  Os dois lados precisam se esforçar pra se entenderem.  Os
maiores conflitos provêm de *supor* coisas erradas sobre o que o outro
está pensando, ou quis dizer, ou não quis dizer.

Quando a gente diz "este ponto está ruim", ou não diz "que maravilhoso
isso que vocês fizeram", não quer dizer "tá tudo uma caca", nem quer
dizer "o que os outros estão fazendo ou deixando de fazer está melhor
ou pior".  Esse monte de outras suposições frustrantes são
inteiramente por conta de quem recebe a mensagem e entra na defensiva.
Eu sei porque já estive muitas vezes desse outro lado.  É ruim.  É
preciso saber evitar.  O interlocutor pode ajudar, e, de minha parte,
venho trabalhando e desenvolvendo minhas habilidades nesse sentido.
Mas é difícil quando a escalada do conflito é tão rápida que não dá
tempo de entender como o outro está entendendo diferente a mensagem
que se queria transmitir.

> Sobre as licenças, creio que algumas são mais livres do que outras, mas o
> sentido de compartilhar conhecimento é mais importante.

Nada contra você pensar assim.  Mas daí a dizer que uma licença que
queria ser Livre mas não é é, tem chão.

E dizer que a licença não é Livre não é agressão, é um fato.  Reações
possíveis vão desde "é, sim, sua anta, porque a gente fez pra ser" e
"é, sim, porrque eu definirr o que significa serr Livrre da jeita que
eu querrerr, e Weissfüder!" até "putz, sério?  era pra ser.  deixa eu
ver como arruma isso!" e "hmm, que pena, a gente queria que fosse, mas
arrumar é complicado, vamos tentar".

> Viva nóis, viva tu, viva o rabo do tatu!!!

E tome confete, que é muito mais divertido fazer festa que resolver os
problemas sérios que ainda precisam ser resolvidos!  Né? :-)

-- 
Alexandre Oliva         http://www.lsd.ic.unicamp.br/~oliva/
Free Software Evangelist  [EMAIL PROTECTED], gnu.org}
FSFLA Board Member       ¡Sé Libre! => http://www.fsfla.org/
Red Hat Compiler Engineer   [EMAIL PROTECTED], gcc.gnu.org}
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