31/07/2008
O que Gil deixará
Carta Capital -

Com Gilberto Gil, o ministério da Cultura começou a existir. Criada em
1985, a pasta, antes integrada à Educação, foi sempre uma espécie de
patinho feio do governo. Para a sociedade, era uma entidade sem rosto
e sem nome. Com Gil, escolhido no primeiro mandato do presidente Lula,
a contragosto de petistas que haviam idealizado o programa cultural,
essa história começou a mudar. Mudou a ponto de, cinco anos e meio
depois, sua saída virar manchete.

Gil anunciou que deixaria o posto duas ou três vezes. Queria
dedicar-se exclusivamente à carreira artística. Mas, a cada vez que
falava com o presidente, voltava atrás. Agora, vai mesmo. É fato
também que, neste ano (e isso até as paredes do MinC sabem), quem
tocou o Ministério foi Juca Ferreira, secretário-executivo e braço
direito de Gil desde o primeiro dia. Seria ele, inclusive, o
substituto natural do ministro. Resta ver se as peças políticas
permitirão que o tabuleiro se mexa assim.

Para fazer um balanço dessa gestão é possível seguir dois caminhos.
Um, o dos detalhes, comportaria uma série de críticas a procedimentos
administrativos (a burocracia da pasta deixa de cabelos em pé os
produtores culturais), precipitação na divulgação de projetos ainda
crus e idéias difusas que não encontraram lugar no mundo real.

O segundo caminho para o balanço é olhar, historicamente, para o papel
que Gil e sua equipe exerceram. E esse caminho me parece, neste
primeiro momento, o mais adequado. É ele que deve indicar o perfil de
seu sucessor e o status que o governo Lula quer dar à cultura.

Para usar um termo que os integrantes de sua equipe, vira e mexe,
tiram da cartola, é de "protagonismo" que se trata. O novo MinC não
aceitou a miudeza a que esteve sempre relegado. Não conseguiu, até
hoje, o aumento orçamentário que tão necessário se faz. Mas segue
cutucando as áreas econômicas do governo com o pedido. Simbolicamente,
para o País, isso significa dizer que a cultura é, também, uma questão
de Estado. E não tem mesmo de ser?

O MinC também chamou para si áreas que outros ministérios queriam,
como a tevê pública, a questão dos direitos autorais e, até, o destino
da verba de patrocínio das empresas estatais. Foram brigas compradas.
Em algumas delas, Gil recebeu arranhões de amigos antigos, como
Caetano Veloso. Não raro, a pasta foi acusada de autoritarismo.

A atenção dada a manifestações marginais (de folclore a capoeira), que
tanto irrita os bem instalados, gerou produtos, de vídeos a cds, que
ajudam a construir a memória do Brasil. São ações pequenas, pouco
visíveis, mas significativas num país em que a lógica da concentração
de renda se espraia. A gestão de Gil foi, nesse sentido, ideológica.

Ainda nas grandes questões, o que não se cumpriu foi a desde sempre
prometida mudança na Lei Rouanet, o principal mecanismo de incentivo
fiscal à cultura. Para isso, Gil não teve força. Recuou várias vezes.
Com sua saída, deve ser tornar ainda mais difícil mexer nesse pote
cheio de donos.

Neste momento, mais do que apontar as falhas do MinC (que, por sinal,
está com pilhas de projetos à espera de parecer e tem feito produtores
perderem patrocínio), seria importante pensar sobre o papel
empreendedor de Gil. Sobre a ousadia de tratar a cultura como algo
fundamental para o desenvolvimento do País.

http://www.cartacapital.com.br/app/materia.jsp?a=2&a2=10&i=1650


-- 
Fabianne Balvedi
GNU/Linux User #286985
http://fabs.tk
"Mas quando eu crescer não dá, porque aí eu
não vou mais gostar de desenhos animados..."
Eu, com 7 anos de idade, argumentando com
meus pais sobre minha urgência em aproveitar
a infância para poder apreciar animações.
Que pequena preconceituosa era eu.
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