Tá, vou ficar com o dedo coçando se não escrever algo antes de dormir...
  É difícil mantermos esse debate porque partimos de premissas teóricas
diferentes.
  Mais de um aqui na lista deve considerar o capitalismo um estado de
espírito, uma ética, ou mesmo uma relação natural entre os seres humanas.
   Para mim (segundo a visão marxista, da qual comparto), o capitalismo
é um modo de produção histórico, que surgiu da decomposição do
feudalismo. Sua característica principal é que ele transforma a lógica
da produção em uma lógica de produção de mercadorias. Ou seja, a
produção não é feita sob a lógica de atender necessidades sociais, e sim
sob a lógica de gerar lucro para um ente privado.
   É um modo de produção baseado na divisão da sociedade em classes
sociais (assim como o feudalismo e o escravismo), onde a própria força
de trabalho se converte em mercadoria ...
 Como modo de produção real (formação social), e não ideal, ele convive
com outros modos de produção. Sabemos que em nosso país, por exemplo,
ainda existe trabalho escravo, e outras relações de produção
(principalmente no campo) pré-capitalistas. Porém isso não leva a
ninguém a dizer que não vivemos sob a égide desse modo de produção.
Assim como a produção de mercadorias também existia antes do mundo se
tornar capitalista. Na Roma escravista existia salários (no exército, de
onde vem a palavra, pois o pagamento era feito com sal), existia
mercadorias, porém esse não era o aspecto predominante daquela formação
social, o que predominava era o trabalho escravo nos lartifundios.
   Antes que alguém afirme que isso está OT: Nesse movimento de
transformar tudo em mercadoria, a classe burguesa tenta transformar em
mercadorias o que antes não era. Assim, vemos a educação virar
mercadoria, o software virar mercadoria (não se esqueçam que o software
em suas primeiras décadas era 100% livre). Logo mais o ar vira
mercadoria também. Patenteia-se hoje o DNA de uma semente (trangênicos),
receitas, etc..
  Marx e Engels já colocavam isso no manifesto comunista:
/
/

    / ...A burguesia despojou de sua auréola todas as atividades até
    então reputadas veneráveis e encaradas com piedoso respeito. Do
    médico, do jurista, do sacerdote, do poeta, do sábio fez seus
    servidores assalariados. A burguesia rasgou o véu do sentimentalismo
    que envolvia as relações de família e reduziu-as a simples relações
    monetárias....
    /

/    /Porém a classe burguesa não dita as regras como um ser onipotente.
Ela tenta colocar suas posições como posições dominantes, mas enfrenta
resistências. É a lógica da luta de classes. Então, mesmo os mais pró
capitalistas da lista, sem saber, tomam uma parte neste aspecto dessa
luta de classes.
       Assim como todos concordamos que o conhecimento não deve ser uma
mercadoria e sim um direito social, alguns vão mais além e afirmam: a
moradia de uma pessoa não deve ser uma mercadoria, e sim um direito. A
alimentação de uma pessoa também. Seu acesso a cultura também. Seu
vestuário também... E como conseguir isso? Com o reconhecimento por
parte da sociedade de que esses produtos do trabalho humano não devem
ser apropriados por meia dúzia de burgueses, em nome do lucro e de uma
liberdade que só existe para eles... Gosto muito de uma parte do
manifesto que afirma :

/
/

    / Horrorizai-vos porque queremos abolir a propriedade privada. Mas
    em vossa sociedade a propriedade privada está abolida para nove
    décimos de seus membros. E é precisamente porque não existe para
    estes nove décimos que ela existe para vós. Acusai-nos, portanto, de
    querer abolir uma forma de propriedade que só pode existir com a
    condição de privar a imensa maioria da sociedade de toda propriedade./

    / Em resumo, acusai-nos de querer abolir vossa propriedade. De fato,
    é isso que queremos. Desde o momento em que o trabalho não mais pode
    ser convertido em capital, em dinheiro, em renda da terra, numa
    palavra, em poder social capaz de ser monopolizado, isto é, desde o
    momento em que a propriedade individual não possa mais converter-se
    em propriedade burguesa declarais que a individualidade está
    suprimida. Confessais, pois, que quando falais do indivíduo, quereis
    referir-vos unicamente ao burguês, ao proprietário burguês. E este
    indivíduo, sem dúvida, deve ser suprimido./

    / O comunismo não retira a ninguém o poder de apropriar-se de sua
    parte dos produtos sociais, apenas suprime o poder de escravizar o
    trabalho de outrem por meio dessa apropriação. Alega-se ainda que,
    com a abolição da propriedade privada, toda a atividade cessaria,
    uma inércia geral apoderar-se-ia do mundo. Se isso fosse verdade, há
    muito que a sociedade burguesa teria sucumbido à ociosidade, pois
    que os que no regime burguês trabalham não lucram e os que lucram
    não trabalham. Toda a objeção se reduz a essa tautologia: não haverá
    mais trabalho assalariado quando não mais existir capital./

    / As acusações feitas contra o modo comunista de produção e de
    apropriação dos produtos materiais tem sido feitas igualmente contra
    a produção e a apropriação dos produtos do trabalho intelectual.
    Assim como o desaparecimento da propriedade de classe eqüivale, para
    o burguês, ao desaparecimento de toda produção, também o
    desaparecimento da cultura de classe significa, para ele, o
    desaparecimento de toda a cultura. A cultura, cuja perda o burguês
    deplora, é, para a imensa maioria dos homens, apenas um adestramento
    que os transforma em máquinas./

Espero ter posto um pouco de lenha na fogueira :)

[]s
Rafael


\Bruno Salgado escreveu:
> Eu ia falar isso... Não ter resposta não é motivo de vergonha...
>
> Mas não precisar forçar...
>
> Software Livre é bom por causa disso. Mas que um modelo de
> desenvolvimento de software. Mais que um modelo(que destinado assim ou
> não) tem uma maior ênfase no social. Mais que um modelo cultural. Mas
> que um modelo capitalista ou socialista.
>
> Software Livre é melhor(na minha interpretação) que o proprietário em
> 95% dos casos(enfim, sou de segurança, envolve assinaturas diárias,
> manutenção preventiva e ostensiva, e outras baboseiras para a maioria
> dessa lista). Mas enfim, oq interessa são os 95%, o restante deixa
> para os doentes(opa, eu... rs)
>
> Oq é realmente bom no Software Livre, é que além de vc produzir mais,
> vc ainda se diverte muito mais. rs \o/
>
> Longa vida ao Software Livre!
>
> E que o papo não atrapalhe a produtividade! NUNCA! :)
>
> []s Bruno Salgado
>
> 2009/1/17 rafael <rafaelcro...@gmail.com>:
>   
>> Vou ver se escrevo algo melhor com mais tempo. Mas escrevi algo sobre o
>> assunto em 2006 para um jornal comunista... Segue o link:
>>
>> http://www.inverta.org/jornal/edicao-impressa/411/Especial/411sofliv
>>
>> Rafael
>>
>> Glauber Machado Rodrigues (Ananda) escreveu:
>>     
>>> 2009/1/17 Bruno Salgado <brunosalg...@gmail.com
>>> <mailto:brunosalg...@gmail.com>>
>>>
>>>     Ok, vamos partir da premissa que o Software Livre não é compatível com
>>>     o Capitalismo.
>>>
>>>
>>> ... logo ele não deveria surgir em um governo com sistema capitalista
>>> - assim como uma planta que é incompatível com certo solo e clima não
>>> pode se desenvolver em condições que contrariem sua natureza.
>>>
>>> Então não é possível obter lucro desenvolvendo código e licenciando
>>> tudo de forma aberta. Logo meus dois apartamentos, meu carro e minhas
>>> roupas não existem, eu nunca viajei para lugar nenhum e nunca tive uma
>>> festa de casamento. Ou então eu vivo de esmolas bem frequentes, ou
>>> então eu roubo.
>>>
>>> [Detalhe: eu não trabalho para o governo (apenas para particulares)
>>> sou casado (recentemente), não moro com meus pais e ganho cinco vezes
>>> mais que minha esposa (que é enfermeira, uma profissão
>>> reconhecidamente compatível com o capitalismo). Desde de que recusei o
>>> modelo proprietário tenho aturado meus amigos dizendo que eu estava
>>> escolhendo ser pobre. Hoje estou numa situação bem melhor que eles. Eu
>>> não sou nenhum gênio, sou uma pessoa comum (nenhuma referência ou
>>> celebridade em SL), logo não sou nenhuma excessão e acredito que
>>> qualquer profissional de TI possa fazer o mesmo e levar sua vida numa
>>> nice. Tenho certeza que nessa lista tem toneladas de gente para quem o
>>> SL também é uma maneira de colocar comida na mesa. Então para mim esse
>>> negócio de que o SL é incompatível com o capitalismo é uma irrealidade
>>> tremenda e concordo 100% com o Bruno.]
>>>
>>>
>>> --
>>> Glauber Machado Rodrigues
>>> PSL-MA
>>>
>>> jabber: glau...@jabber-br.org <mailto:glau...@jabber-br.org>
>>>
>>> música livre é bem melhor:
>>> http://www.jamendo.com
>>>
>>> ------------------------------------------------------------------------
>>>
>>> _______________________________________________
>>> PSL-Brasil mailing list
>>> PSL-Brasil@listas.softwarelivre.org
>>> http://listas.softwarelivre.org/mailman/listinfo/psl-brasil
>>> Regras da lista:
>>> http://twiki.softwarelivre.org/bin/view/PSLBrasil/RegrasDaListaPSLBrasil
>>>       
>> _______________________________________________
>> PSL-Brasil mailing list
>> PSL-Brasil@listas.softwarelivre.org
>> http://listas.softwarelivre.org/mailman/listinfo/psl-brasil
>> Regras da lista:
>> http://twiki.softwarelivre.org/bin/view/PSLBrasil/RegrasDaListaPSLBrasil
>>
>>     
>
>
>
>   

_______________________________________________
PSL-Brasil mailing list
PSL-Brasil@listas.softwarelivre.org
http://listas.softwarelivre.org/mailman/listinfo/psl-brasil
Regras da lista: 
http://twiki.softwarelivre.org/bin/view/PSLBrasil/RegrasDaListaPSLBrasil

Responder a