On Mar  6, 2009, Marcus Diogo <mvdiog...@gmail.com> wrote:

> Eu sempre busco ler o que o Oliva tem a dizer porque ele sabe o que é
> bom, ele é o cara.

Menos, menos!  Assim eu me empolgo :-) :-)

Valeu a força e a confiança.

> Eu acho que a pergunta não seria qual a distro é livre mas o que
> devemos fazer deacordo com a direção do nosso amigo Oliva para que
> todas as distros fiquem 100%,

Pois esse é justamente o dilema sobre o qual pretendo falar daqui a
pouco mais de duas semanas, na LibrePlanet 2009.

O problema em questão é uma variante do dilema dos prisioneiros.  Sabe,
aquele, da teoria de jogos?  Dois sujeitos são presos por porte ilegal
de arma.  A polícia sabe que eles cometeram um crime, mas não tem provas
aceitáveis no tribunal.

Os interrogadores propõem um acordo aos dois, cada um numa sala de
interrogatório separada, sem que possam se comunicar: se você trair o
seu comparsa e testemunhar contra ele no que diz respeito ao crime
maior, a gente libera você da pena menor do porte ilegal de arma.

Há um diagrama e uma explicação mais detalhada num artigo antigo que
escrevi, e na palestra correspondente, a respeito de outra tese, apoiada
nos mesmos princípios de teoria de jogos:
http://www.lsd.ic.unicamp.br/~oliva/papers/free-software/BMind-slides.pdf
http://www.lsd.ic.unicamp.br/~oliva/papers/free-software/BMind.pdf

Enfim...  O ponto é que as distros buscam popularidade porque isso lhes
traz mais usuários, mais colaboradores, mais vantagens.  Alcançam
popularidade oferendo conveniência para os usuários, mesmo que isso
sacrifique a liberdade dos usuários e torne a distro não-Livre.

Agindo racionalmente, mas com pensamento imediatista, agem da mesma
forma que a ação racional do prisioneiro confrontado com o dilema acima:
trair seu comparsa sempre traz um melhor resultado imediato para si
mesmo, independente do que o comparsa faça.

Isso, generalizado para muitos participantes, conduz à tragédia do bem
comum (também discutida no artigo acima; vai rolar um cut&paste legal
:-)

A forma de evitar essa tragédia é um compromisso confiável entre os
participantes, para que façam um pequeno sacrifício e abram mão da
estratégia dominante que lhes traz vantagem imediata em detrimento da
coletividade.  No artigo, o compromisso confiável é o copyleft forte.
No caso do compromisso de distros com a liberdade, o compromisso não
existe, e por isso prevalece a tragédia do bem comum: cada um usa
processos poluentes baratos porque é o que os concorrentes estão usando,
e usar os processos limpos, mais custosos, os colocaria em desvantagem.

É o mesmo desastre que pode ocorrer no dilema do prisioneiro iterado
(isto é, um experimento teórico em que os prisioneiros são confrontados
repetidamente à mesma escolha), por outro lado, tem como melhor
estratégia conhecida a da cooperação inicial seguida de retribuição: (i)
manter-se fiel ao comparsa na primeira iteração, aceitando o sacrifício
da pena por porte ilegal, a fim de evitar o pior caso para os dois e
(ii) a partir daí retribuir a jogada anterior do comparsa.  Corre-se o
risco de sair perdendo e não conseguir recuperar essa desvantagem, caso
os outro sempre o traia, mas é a estratégia com o melhor resultado médio
conhecido, e a com o melhor resultado para todos quando todos jogam de
forma cooperativa.

Mas como induzir as distros a não fazerem esse sacrifício?

Parece-me que a resposta é sempre a mesma: do mesmo jeito que tentamos
induzir fornecedores de software em geral a respeitarem nossa liberdade:
se não respeitam, não aceitamos, não compramos, não promovemos, não
recomendamos, não induzimos ninguém a usar.

Só isso, me parece, pode desequilibrar a percepção de que incluir
Software não-Livre é vantajoso para a distro, e alterar o balanço em
favor de todos, em favor da cooperação contra os inimigos da liberdade,
ao invés da traição mútua em detrimento da comunidade e em favor dos
inimigos.

Então, gente, vamos usar e promover as distros 100% Livres.  Pode até
ser que a gente precise se sacrificar um pouco pra isso, abrindo mão de
funcionalidades, escolhendo computadores com cuidado, ou até preservando
e mantendo algum componente de Software não-Livre que usávamos antes,
mas não me parecem sacrifícios tão grande para evitar a tragédia do bem
comum.

-- 
Alexandre Oliva           http://www.lsd.ic.unicamp.br/~oliva/
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