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From: Adriano Belisário
To: submidialo...@lists.riseup.net


Hermeto Pascoal tem 72 anos e não passa mais de 24 horas sem rabiscar novas
combinações de notas musicais e símbolos de percussão em pilhas de
partituras. A única diferença para os tempos de criança é o papel. Na
Alagoas dos anos 30, o pequeno Hermeto já compunha todo dia, em rios,
árvores, na companhia dos passarinhos. Curiosamente, porém, o “Beethoven do
século 20” (como o define o acordeonista Sivuca) nunca volta para rever as
tais notas escritas. “Minhas músicas são pétalas soltas, estão voando por
aí.”

E, assim, Hermeto deixou suas pétalas ao vento. Desde novembro, abriu mão
das licenças pela internet e liberou para uso de qualquer músico todas as
composições registradas em seu nome. Nesta semana, promete disponibilizar
parte da imensa e riquíssima discografia (são 34 álbuns) para download
gratuito, num processo que chegará em alguns meses à totalidade da produção
formal.

Internet é um assunto até certo ponto desconhecido para Hermeto. Foi a
parceira musical, espiritual e amorosa Aline Morena a fonte de influência
digital do compositor. Quando começaram a namorar, em 2002, ela não se
conformava que um artista do porte de Hermeto (referência internacional,
inovador, vanguardista) não tivesse sequer um site próprio. Na lista de
“desleixos” estava também a desorganização dos registros de músicas (que fez
com que ele nunca ganhasse dinheiro com vendas de discos e CDs – só com
shows).

Aline resolveu o problema da comunicação e criou quatro sites, um para cada
tipo de apresentação de Hermeto (com a Big Band, o Grupo, orquestras
sinfônicas e para o duo com ela) e plantou na cabeça genial do compositor
algumas sementes de cultura livre. Seria difícil o conceito não germinar. Em
1973, o visionário alagoano já batizava um álbum de A Música Livre de
Hermeto Pascoal.

A ideia de liberdade já estava desde então algo relacionada com a
disseminação, a distribuição, a pulverização das composições. Um jargão
famoso de Hermeto é a frase “tudo é música”. Se qualquer um faz música com
qualquer coisa (objetos, plantas, voz, etc.) – e portanto as músicas dele
são livres por natureza –, temos uma espécie de música de “código aberto”,
colaborativa, termos comuns para leitores do noticiário de tecnologia e que
desapareceram da música comercial antes do MP3.

Isso tanto é transformador que a música livre evoluiu para o que hoje a
dupla Hermeto Pascoal e Aline Morena chama de “música universal”. Nada a ver
com a “world music” disseminada por aí, e que significa apenas a forma de as
culturas dominantes globais aceitarem regionalismos como o brasileiro e o
indiano, por exemplo. Música universal não é isso. É o que há de universal,
primordial, anterior e essencial na música.

Hermeto e Aline não usam idiomas conhecidos para compor canções sob o
estigma universal. É uma letra formada por palavras inventadas sob uma
lógica própria, não necessariamente com significados. É a busca da dupla
pela sonoridade, por fonemas que provocam sensações – cuja liberdade também
inclui a de interpretação. Assim, a composição da música universal só
termina no momento em que ressoa nos tímpanos.

Essa abordagem “alinguística” também faz parte das pesquisas mais avançadas
hoje em artes cênicas. O diretor inglês Peter Brook chegou a algo parecido à
música universal de Hermeto com o teatro rústico, nos anos 1970. Brook e os
atores de diversas nacionalidades do Centre International de Recherche
Théâ-trale (Cirt) parisiense passaram três meses de 1974 em tribos africanas
para entender o que havia no teatro que se comunicava com qualquer cultura
(gestos, sons, expressões, ritmos). A pesquisa fez avançar as descobertas
contemporâneas de linguagem – equivalente ao que o brasileiro Hermeto fez na
música.

A última criação organizada do compositor foi Chimarrão com Rapadura, CD e
DVD de 2006 em dupla com Aline Morena. Imagine a dificuldade de selecionar
19 canções e melodias entre as centenas criadas diariamente. Nesse álbum,
Hermeto toca cavaco, pandeiro, surdo, escaleta, piano com fita crepe, caixa,
zabumba, triângulo, baixo, flauta doce, viola caipira, fole, flauta-baixo,
percussão com teclas, flugelhorn, iefone, brinquedos, balde, garfo, faca,
trumpetinho, chavozeleira, piano, porta, copos de plástico e mangueira. O
detalhe é que nem tudo é instrumento.

Apesar da variedade de artefatos sonoros, Hermeto Pascoal não se encantou
ainda pelos sons fabricados. Não há quase nada sintético na obra que já dura
53 anos, mesmo com a invasão de aparelhos eletrônicos dos últimos 30. “Nada
contra esse tipo de música. Mas, para mim, os sons devem ser naturais. Têm
mais sabor.”

Nascido na roça alagoana, ele morou mais de 20 anos em São Paulo, gravou nos
Estados Unidos com Miles Davis, influenciou Beatles com o Quarteto Novo, é
festejado por onde passa no mundo. Prega a música aberta. Hoje mora em
Curitiba e nunca deixou de fugir do sol. A pele albina sofre, os olhos
também. É só o que há de hermético em Hermeto Pascoal.

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