Saiu na Folha da "ditabranda":

 Como age o esquadrão caça-pirataria (caça-LIBERDADES!!*)
  http://tinyurl.com/d9kljh

 é uma vergonha, comentem, pls!!
* frase minha


DIÓGENES MUNIZ
editor de Informática da Folha Online



Toda segunda-feira, às 10h, um grupo com meia dúzia de pessoas se
encontra em uma sala do edifício Triunfo, na região da av. Paulista,
para definir as metas de uma cruzada que parece estar cada vez mais
longe de um desfecho vitorioso: o combate à pirataria. Com café e roscas
à disposição no centro de uma mesa retangular, começa mais uma reunião
da APCM (Associação Antipirataria de Cinema e Música), entidade que
defende os interesses dos grandes estúdios e gravadoras junto às
autoridades policiais e judiciais do país e que, por conta disso,
tornou-se a maior vilã da internet brasileira desde a modelo Daniella
Cicarelli, responsável por tirar do ar o YouTube em 2007.

Beatriz Toledo/Folha Imagem
Diretor-executivo da Associação Antipirataria de Cinema e Música,
Antonio Borges Filho coordena ações em território nacional
Diretor-executivo da Associação Antipirataria de Cinema e Música,
Antonio Borges Filho coordena ações em território nacional

Funcionários dos setores de comunicação, "denúncias", jurídico,
financeiro, operacional e segurança on-line debatem a pauta do mês sob a
sabatina do diretor-executivo, Antonio Borges Filho. Os tópicos são
expostos rapidamente. Em 15 minutos, tudo já foi discutido: distribuição
de material de treinamento para polícia, destruição de mídias piratas,
divulgação de apreensões para a imprensa, contatos com delegacias, cerco
às jukebox ilegais e o fim da comunidade "Discografias", do Orkut.

"[Março] foi um mês bastante produtivo", avalia o analista de segurança
da informação Bruno Tarelov, responsável pelo combate à pirataria
on-line na entidade. Borges Filho, um delegado da Polícia Federal
aposentado, 58 anos, sotaque de Juiz de Fora (MG), concorda com o
subordinado. Diz estar de bom humor e arrisca uma piada: "Sabe como
estão chamando a APCM agora? Associação dos Parasitas do Cinema e da
Música." Todos riem.

"É bom", retoma Borges, "isso mostra que estamos fazendo nosso trabalho
direito. Estamos conseguindo incomodar bastante gente". No primeiro
trimestre deste ano, a APCM incomodou mais de 1 milhão de pessoas após a
comunidade "Discografias", a maior do Orkut para troca de músicas, sair
do ar. Em fevereiro, outros milhares se revoltaram com o fechamento de
sites que distribuíam legendas de filmes e séries na rede. Em resposta,
surgiram na web um abaixo-assinado (27 mil adesões), um fórum denominado
"Odeio a APCM" (15 mil integrantes) e um filhote da comunidade abatida
("Discografias - O Retorno!", com cerca de 180 mil membros).

A reunião termina, as risadas continuam. O alvo agora é um protesto
virtual ocorrido em 1º de abril, no qual internautas trocaram de forma
simultânea as fotos de seus perfis no Orkut pelo símbolo da associação -
marcado por uma tarja vermelha.

Fora da sala, cinco pôsteres enfeitam as paredes do QG da associação:
NXZero, Ivete Sangalo, Cláudia Leitte e Metallica. O quinto cartaz não
mostra uma banda. "SEQUESTRO - Comprando DVD pirata você financia o
crime organizado", lê-se, num quadro em que um garoto loiro é arrastado
pelos braços para dentro de um parque escuro.


Arte



APCM, Rota, Deic

A "Discografias" parou de funcionar em março deste ano. Sem sair do
anonimato, os responsáveis pelo gerenciamento da comunidade alegaram
terem sido ameaçados pela APCM --que nega ter feito "ameaças", embora
confirme notificações diárias ao Google acerca do conteúdo do fórum. Em
fevereiro, o órgão pediu (e conseguiu, junto a um datacenter) a retirada
do ar dos sites Legendas.TV, legendando.com.br e insubs.com, todos
responsáveis por disponibilizar traduções de seriados estrangeiros para
o público brasileiro. Em abril, foi a vez do SeriesBR rodar -a página
fornecia downloads de seriados.

Na semana em que a APCM derrubou os sites de legendas, no começo de
fevereiro, a própria página da associação virou um flanco dessa batalha,
sendo invadida ("Viva os downloads!" comemoravam os hackers na
home-page) e tirada do ar logo em seguida. Três dias depois, o endereço
APCM.org.br atingia 4,5 mil visitas em apenas 24 horas --a média mensal
era de 2,5 mil.

Após esse episódio, a empresa destacou uma pessoa para cuidar
especificamente da segurança de seu site."Está bem mais reforçado. Com
monitoramento mais constante, vai ser difícil sua derrubada", desafia
Borges. Com a reclamação dos funcionários de que suas caixas de e-mail
estão entupidas com recados de protesto, o órgão também planeja mudar
seus domínios de correios eletrônicos, o que já aconteceu com o telefone
da entidade. Mesmo sem divulgá-lo, receberam ligações enfurecidas.

Com aparato concentrado principalmente em São Paulo, mas atuação em todo
território nacional, a APCM possui 30 funcionários. Entre seus agentes
estão ex-policiais da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) e do
Deic (Departamento de Investigações sobre Crime Organizado). Eles são
responsáveis pelo serviço de inteligência, ou seja, procuram nas ruas e
na web casos de violação aos direitos autorais. Ao todo, são quatro
agentes em São Paulo; outros Estados têm um cada (Rio de Janeiro, Rio
Grande do Sul, Pernambuco, Santa Catarina e Minas Gerais).

Além do trabalho de investigação, a associação recebe denúncias, ajuda a
polícia nas apreensões e acompanha processos para saber se os infratores
foram condenados. Dão a isso o nome de "suporte logístico".

Quando necessário, são convocados "free-lancers" para manobras braçais
(jogar CDs e DVDs dentro de sacolas na hora do "rapa", por exemplo). A
entidade fornece toda a infraestrutura necessária para a polícia chegar
aos supostos piratas. Há, por exemplo, um galpão mantido pela entidade
na Grande SP de 3.500 m² com 20 milhões de CDs e DVDs piratas. A APCM é
fiel depositária de toda a muamba, deixando-a à disposição da Justiça.

A ajuda também pode ocorrer em menor escala. É famosa nos corredores da
associação a história --confirmada pelo próprio diretor-executivo-- de
uma delegacia que não tinha sequer tinta na impressora para produzir um
Boletim de Ocorrência sobre uma violação de direitos autorais. A APCM
resolveu o caso fornecendo o cartucho para a impressora da polícia.

A parte mais impopular da associação, de enfrentamento na internet,
conta com seis funcionários. Além do coordenador, Bruno Tarelov, são
cinco jovens (todos entre 20 e 30 anos) vindos das áreas de ciência da
computação ou sistema de informações. À primeira vista (camisetas,
jeans, tênis, cabelos espetados), é mais fácil supor serem moderadores
da "Discografias" do que legalistas da indústria do entretenimento. Eles
rastreiam links que abrigam material para download sem o devido
pagamento de direitos autorais.

A busca pode ser feita de forma automatizada ou "no braço", entrando em
cada blog, comunidade ou fórum dedicado a entretenimento. O programa
utilizado para derrubar esses links é o Robo (assim mesmo, sem acento),
produzido pela empresa dinamarquesa Kapow. Segundo o site oficial, a
companhia fornece serviço de captura de informação agregada, "tanto
pública quanto privada". O software promove uma varredura, destacando o
que a APCM quer encontrar (no caso, links que levem ao download de
músicas e filmes). Seu verdadeiro trunfo é descobrir até mesmo os
conteúdos escondidos em cyberlockers (armários virtuais como o
Rapidshare, em que é possível armazenar volumes enormes de arquivos para
downloads).


Arte



Saudades

"Adoro carros Mercedes, mas, quando vejo um modelo desses na rua, não
posso pegar para mim. Não tenho dinheiro para comprá-lo. Agora, qual é a
diferença entre pegar para si um bem material e um bem imaterial?",
questiona o diretor-executivo da APCM, Antonio Borges Filho.

É esse exemplo que Dr. Borges, como é chamado pelos funcionários,
escolhe para começar sua conversa no fim da visita da reportagem à APCM.
Sua sala é adornada com referências policiais, como bonés do FBI
(polícia federal norte-americana), da DEA (Drug Enforcement
Administration, a agência antidrogas dos EUA) e do DPF (Departamento da
Polícia Federal). Um isqueiro cromado, no formato de revólver, enfeita a
prateleira ao lado da porta.

Ele prossegue discursando sobre sua marca de automóveis favorita. "Na
verdade, já tive um Mercedes 94." Acende um cigarro. "Mas me dava muito
trabalho aquele carro."

Borges participou da maior apreensão de cocaína da história da PF,
realizada em junho de 1994, em Tocantins. Foram sete toneladas de coca
pura. Advogado, bacharel em Ciências Contábeis, gosta de assistir a
filmes policias e de suspense. "Não quero que você coloque isso [da
apreensão de cocaína]. Podem achar que quero me prevalecer do fato de
ter feito parte da PF, que é algo que nunca fiz."

O delegado aposentado trabalhou por duas décadas na PF. Está desde 2006
no combate à violação dos direitos autorais, quando começou a prestar
serviços para a extinta Apdif (Associação Protetora dos Direitos
Intelectuais Fonográficos).

Para falar sobre os temas espinhosos que cercam sua função, o
diretor-executivo da APCM prefere metáforas. Critica, por exemplo, a
contumaz desobediência às regras nos aeroportos, onde os passageiros
desrespeitam o aviso de não ligar o celular no avião ("é como se
pedissem para todos ligarem ao mesmo tempo!").

"As pessoas não têm essa conscientização de respeito às normas. Às
vezes, é preciso a repressão para que a coletividade entenda que tem de
respeitar", explica. Quando o assunto é o preço dos bens culturais ao
consumidor final, diz que "adoraria que tudo fosse grátis". "Mas,
infelizmente, não é assim que funciona."

No fim da conversa, Borges diz acreditar "na causa" da APCM. "Tenho um
cunhado que, quando me mostra esses filmes aí [piratas], eu já falo: 'se
você não tirar isso aí de dentro eu vou ter que apagar'", relata.
Questionado sobre o que é mais difícil --trabalhar na APCM ou na PF--,
abre um sorriso e responde na mesma velocidade com que um tira saca a
arma do coldre: "A APCM é mais difícil." Sua voz ganha um tom
nostálgico: "Tenho saudades da polícia. Tenho saudades de prender."


Arte







Marcelo D'Elia Branco 

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