Olá Rafael,

Vou tentar pontuar alguns elementos prós e contras tais criações.

Gostaria de dizer que sou o desenvolvedor do sacix e participante também do
projeto ekaaty e ambos tem conceitos bem diferentes.

Há algum tempo tenho criticado a criação de distros de forma desenfreada,
mas também percebo sua importância em alguns aspectos. Se você for ver, ate
cerca do ano 2000 já tinhamos diversas distros criadas e aparentemente já
supriam todas as demandas: slackware, debian, conectiva, mandrake, red hat,
suse, etc. Para que criar mais uma? O ubuntu veio e fez toda a diferença...

Assim como o google mudou a forma de pensar em máquinas de busca, a criação
desenfreada de distros acaba tendo consequências positivas a longo prazo. E
quais são elas? Além do fato de poderem surgir distros realmente inovadoras,
os caras que criam distros acabam se envolvendo com muitas coisas legais:
aprende a empacotar, criar repositórios, trabalhar com sistemas de controle
de versão, gerar ISOs, mexer em instaladores e muitas vezes acabam
desenvolvendo softaware próprio para sua distro. Dessa forma,
individualmente o cara se torna mais apto a contribuir com outros projetos
quando a sua distro morre. Pois não é tão simples chegar num debian (ou pelo
menos não parece) e sair contribuindo com coisas... até porque muitas vezes
quem tá começando desconhece todo o processo para contribuição.. criando a
sua ele se sente mais a vontade e sem medo de fazer cagada. Com o tempo ele
percebe que pode ajudar outras distros e contribuir mais diretamente.. isso
foi o que ocorreu comigo e conheço vários que seguiram esse caminho..

Um aspecto que acho negativo é a forma que as distros são criadas. No
projeto sacix eu abandonei as idéias convencionais e segui um modelo
simples, útil e eficaz. Eu crio um conjunto de meta-pacotes e pacotes com as
personalizações para o telecentro. Nesse modelo, o cara baixa o Debian lenny
oficial, instala normalmente e logo após a instalação adiciona o repositório
do Sacix no /etc/apt/sources.list e executa o comando

aptitude install sacix

ele irá baixar vários pacotes oficiais do debian e irá baixar também os
pacotes criados por nós com as configurações pertinentes aos telecentros que
usam o sistema LTSP. Dessa forma quem quiser ter um ltsp configurado
rapidamente não precisa ler tutoriais para configurar dhcp, nfs, tftp e o
próprio ltsp. Já disponibilizamos todas essas configurações para o usuário.
Além disso temos pacotes com temas e personalizações do gconf e firefox. Ou
seja, meu trabalho se resume a manter esses pacotes e utilizar toda a infra
que o projeto Debian se propõe a fazer. Não tenho retrabalho em manter
pacotes que o debian já o faz e estou sempre atualizado com o debian. Hoje,
o sacix só morre se o debian morrer, o que eu não acredito que vá acontecer!
:D

A princípio, com poucas modificações eu poderia personalizar o sacix pra
rodar no ubuntu, suse, fedora, etc. Só não o fiz até hoje por falta de tempo
e porque não tive ainda necessidade para tal... mas as confs criadas podem
ser reutilizadas em qualquer lugar... foi a forma que achei mais viável para
contribuir sem criar outra distro do zero...

Nos governos, o que eu vejo é a galera tentando fazer uma distro nova,
mantendo mirror e todos os pacotes. Isso é impraticável, pois o trabalho é
enorme, mas o cara só percebe depois de 1 ano que fez a distro e ela acaba
morrendo. O modelo igual ao sacix é muito mais prático para os governos, que
sempre tem equipe pequnas. Como eu disse anteriormente o cara que tá fazendo
distro no governo, geralmente não sabe como contribuir com outros projetos e
muitas vezes quer aparecer pro chefe dizendo que fez um trabalho enorme que
pode ser utilizado por todo o órgão público. É o que o modelo meritocrático
cria nas pessoas.. um interesse em contribuir pelo retorno pessoal futuro e
não pelo simples fato de contribuir. Mas isso é outro discurso que foge do
tema...

Sobre o Ekaaty, os caras estão com outra proposta: ser uma distro com
grandes diferenciais e não apenas um remake do fedora. Quase o que a
conectiva fez na época e o ubuntu fez nos dias hoje, mas dentro das devidas
proporções. Eu já até falei pros caras o quão complicado é isso e que
podemos inclusive morrer na praia... mas a equipe está aumentando a cada dia
com profissionais de diversas áreas (pedagogia, comunicação, programadores,
artistas, etc) o que me faz crer que o projeto vai alcançar seus objetivos e
por isso estou envolvido com o tal.

É isso...


abraços, global


2009/7/3 Rafael Gomes <rafaelgo...@projetofedora.org>

> Sei que posso parecer chato, mas aproveito esse email para lançar uma
> dúvida que me acompanha desde que ví a primeira distro "criada" pelo
> governo.
>
> Por que criar uma nova distro e não utilizar e ajudar uma distro já
> existente?
>
> É realmente uma dúvida minha, que deve haver uma resposta coerente.
>
> Obrigado,
>
>
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