On Feb 15, 2010, Pablo Sánchez <phack...@gmail.com> wrote:

> Era apenas uma afirmação de que agora o Oliva está 100% de acordo com
> seu próprio discurso, entende?

Eu não faço muito discurso a respeito de privacidade, faço?

Costumo defender que o usuário de um programa tenha controle sobre o que
o programa faz, mas os serviços que eu usava do Google não eram
programas, eram serviços.

Não acho que seja algo essencial eu ter o controle sobre o software que
terceiros usam para prestar alguns serviços para mim.  Os usuários,
nesses casos, são eles, não eu.

Outros serviços são coletivos, então nem faz sentido eu querer esse
controle só pra mim, ainda que eu ache que a comunidade de usuários
deveria ter controle conjunto (se é que isso faz sentido).

Também já fiz discurso e palestra sobre a perda de controle na rede
(veja http://fsfla.org/blogs/lxo/pub/isca-anzol-rede), e meu desconforto
com o uso do Google tinha um pouco a ver com isso.

Mas a gota d'água foi a quebra da confiança por causa da quebra da
privacidade.  Foi ver que o Google, embora provavelmente seja melhor que
muitos outros provedores de serviços através da rede, e demonstre que
tem alguma consciência ao tentar evitar novas vítimas dos problemas que
introduziu, representa ainda um risco talvez maior hoje do que antes.
Talvez a tendência seja que fique cada vez pior, à medida que a
competição por visibilidade de acirre ainda mais.  Pra que correr o
risco de pegar uma bala perdida no tiroteio entre esses “peixes
grandes”?  (err...  pescadores grandes, né?)

> É que como ele sempre questionou o IR livre GPL que não existe, ficava
> estranho ele aceitar outras licenças como as do Google...

Não aceitei licença para usar software privativo do Google, seja
software instalável no computador, seja software transmitido através da
rede, com exceção de um caso, em que aceitei a licença do Google Doc
para saber o tamanho do blob de Obfuscript que ele mandaria pro meu
navegador.  Você parece estar confundindo licença com termos de uso.

Licença de software é assim: “eu lhe permito fazer, com essa cópia do
programa que é sua, isso e aquilo, que você não teria permissão para
fazer sem minha licença”

Termos de uso são assim: “eu só deixo você entrar se você se comprometer
a não fazer essas coisas que, sem sua anuência, você poderia fazer uma
vez que tivesse acesso.”

Percebe a diferença?

As duas somam, mas aquela se aplica a algo que é meu, enquanto esta se
aplica a algo que é do prestador do serviço.

Algumas licenças são concedidas através de contratos formais, que
estabelecem obrigações em contrapartida à concessão da licença.

A indústria de comercialização de software privativo tenta confundir as
coisas, chamando EULAs de licenças, mas são *acordos* de licenciamento,
isto é, contratos com contrapartida, não licenças puras, que no Brasil
são contratos benéficos.

As obrigações estabelecidas em contratos formais, bilaterais,
plurilaterais ou mesmo de adesão, podem impedi-lo de fazer coisas que,
antes de aceitar o contrato, você teria pleno direito de fazer.

Jamais aceitei do Google qualquer contrato que me impedisse de fazer
algo que eu já poderia fazer antes.  Aceitei, porém, condições que
julguei razoáveis que limitavam os usos que eu poderia fazer dos
serviços que me eram oferecidos.

> Obs: eu sou BSD, vou continuar usando o Gmail,

Gmail não é BSD.

> até porque não escrevo nenhum email que não seja o que eu sou, e para
> mim, tanto faz como tanto fez

Eu também.  De fato, jamais planejei usar o Gmail para nada além de
arquivar listas públicas que eu assinava.

Mas pessoas começaram a me mandar mensagens instantâneas e e-mail, tendo
descoberto o endereço através dos contatos do Orkut.

Eu acessava as mensagens instantâneas via Pidgin (antes Gaim), e os
e-mails via IMAP.  Por vezes, eu mesmo respondia usando o endereço do
gmail.

De repente, percebo que Google andou publicando coisas que ninguém
esperava que publicasse, e me dei conta de que um montão das minhas
conversas particulares estava lá, nos arquivos internos do Google,
prontinhas para uma publicação “acidental”.

Pra que correr o risco de que viessem a ser publicadas por outro engano
do Google?

(Pô, acabei de lembrar que houve outro caso recente em que arquivos
particulares armazenados no Google ficaram visíveis durante um tempo
através do serviço de busca do Google!  Pena não ter lembrado disso na
hora que escrevi a carta :-(

Não que eu tenha algo nas conversas particulares que me causaria grandes
transtornos ou embaraço se viesse a público.  *Acho* que nada assim
estaria lá.  Mas, sei lá, não acho que ninguém mereça ter de ficar se
preocupando com isso, ou temendo o dia em que o Google vai lhe causar
transtorno (acidental, planejado ou coagido), seja por bloqueio,
exposição ou perda de informação.  Se for pra eu arcar com consequências
de erros, que os erros sejam.

> Enquanto não interferirem na minha comunicação, acho que vou tolerar o
> Google

Boa sorte, torço para que você não tenha motivos para se arrepender :-)

-- 
Alexandre Oliva, freedom fighter    http://FSFLA.org/~lxoliva/
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