Re: [naval] FDT Estaleiros no Brasil

1999-12-11 Por tôpico Dario Renato

Pedro,

Concordo que o dinheiro investido pelo governo é muito mal gerênciado. O
investimento na EMBRER foi um desperdício e prova disso é que a empresa só
deslanchou com capital e controle privado. Mas até que ponto o investimento
na produção agrícola seria melhor gerenciado? A dívida dos grandes
produtores é prova de que este capital, se investido de forma insensata no
campo seria igualmente um desperdício. A maior dificuldade de qualquer
governo é criar mecanismos de controle e gerenciamento de verbas. Vamos
inverter o tabuleiro um pouco: calcula-se que a estação espacial
internacional vai custar, ao todo, 100 bilhoes de dólares. Existem grandes
controvérsias com relação ao resultado deste investimento se comparado ao
infinitamente menor investimento em sondas e estações automáticas para fazer
a mesma coisa. Você mesmo concorda que o orçamento das forças armadas
americanas é estratosféricamente maior que o necessário e muito mal
gerenciado também, qual o motivo disto? Política. Assim como o foi também o
investimento na EMBRAER ou na Ferrovia do Aço ou nas usinas nucleares de
Angra. qual a vantagem de investir dinheiro que o governo não tem na
indústria naval? 40.000 mil empregos podem ser o exemplo de um bom motivo
político. Certo ou errado, não sei se não investir seria uma opção muito
melhor, não. Depende da ótica.

---
DR

- Original Message -
From: Pedro M. Calmon [EMAIL PROTECTED]
To: [EMAIL PROTECTED]
Sent: Thursday, December 09, 1999 12:55 AM
Subject: Re: [naval] FDT Estaleiros no Brasil


  Se em 1969, o governo não entrasse na jogada
  seguramente não seria nenhum pouco aconselhável a um
  grupo privado produzir aviões aqui, e hoje nada
  disto
  existiria. Foi subsidio? Claro que sim, valeu a
  pena?
  Tem brasileiros que acham que sim, outros que não.

Realmente Koslova, se nao fosse o investimento
 estatal, provavelmente, hoje nao teriamos a Embraer.
 Em 1969, nenhum grupo privado de san consciencia
 investiria em uma fabrica de avioes. A economia
 brasileira sempre cresceu dentro das chamadas "bolhas
 de desenvolvimento". O Brasil pegava dinheiro
 emprestado, esse dinheiro artificialmente criava uma
 classe media consumista, a bolha estourava e
 entravamos em um periodo recessivo. Esse ciclo se
 repetiu varias vezes durante o seculo vinte. Nessas
 circunstancias de crescimento nao sustentavel baseado
 nos gastos estatais, simplesmente nao oferecia um
 cenario favoravel para o desenvolvimento de uma
 industria aeronautica local. Devido a nossa
 concentracao de renda, apenas uma minoria podia voar
 de aviao. Isso significa que o mercado de aviacao
 civil no Brasil e' pequeno. Restava entao abastecer o
 governo (FAB), mas todo mundo sabe que so' empreiteira
 sobrevive tedo o governo com cliente exclusivo. Sendo
 assim, ninguem quis entrar nesse negocio. Mas pensando
 estrategicamente, o governo decidiu investir (o nosso
 dinheiro, e' claro) em um arriscado negocio o qual a
 iniciativa privada nao queria nem saber. Segundo eles,
 era importante e estrategico para uma potencia
 emergente como o Brasil, dominar os segredos da
 industria aeronautica.  Foi criada entao a EMBRAER e
 as suas agregadas (ITA, CTA, etc...) para dar ao
 Brasil o acesso a esse conhecimento estrategico do
 qual a nossa soberania nacional tanto dependia. Bom 30
 anos e varios bilhoes de dolares depois(nosso
 dinheiro), a EMBRAER se encontrava inchada,
 deficitaria e atolada na lama. De positivo, adquirimos
 o dominio das tecnologias de fabricacao de aeronaves.
 O beneficio que o descomunal investimento  no dominio
 dessa tecnologia "estrategica" trouxe para os
 boias-frias, favelados, meninos de rua, retirantes
 nordestinos, empregadas domesticas e sem-terras e'
 discutivel, mas pelo menos serviu para inchar o o
 nosso raquitico orgulho nacional. No final da
 historia, a EMBRAER foi vendida a um preco bem proximo
 do valor minimo do leilao, pois ninguem estava
 disposto a investir muito em um negocio tao arriscado.

   O curioso e' que recentemente, eu conduzi um estudo
 para uma rede de supermercados local sobre o potencial
 brasileiro para a exportacao e frutas tropicais. Me
 surpreendi ao descobrir que, se o governo brasileiro
 tivesse oferecido durante os anos 70, uma infima
 parcela do que foi gasto com a EMBRAER e suas
 agregadas a pequenos agricultores rurais no agreste
 nordestino (na forma de emprestimos, educacao e
 treinamento, instalacao de infra-estrututa e a
 construcao de uma unidade de tratamento sanitario), o
 Brasil hoje teria o dominio praticamente exclusivo do
 mercado internacional de frutas tropicais frescas
 (algo com o valor estimado em 17 bilhoes de dolares ao
 ano). Isso sem contar com o impacto social favoravel a
 nacao, na forma da manutencao de pequenas propriedades
 rurais, reducao no exodo rural, preservacao do meio
 ambiente, melhor distribuicao de renda, etc...
   Infelizmente a escolha que a nacao fez nao foi essa.
 Exportar caja', tamarindo e manga nao da'

Re: [naval] FDT Estaleiros no Brasil

1999-12-08 Por tôpico Pedro M. Calmon

 Se em 1969, o governo não entrasse na jogada
 seguramente não seria nenhum pouco aconselhável a um
 grupo privado produzir aviões aqui, e hoje nada
 disto
 existiria. Foi subsidio? Claro que sim, valeu a
 pena?
 Tem brasileiros que acham que sim, outros que não. 

   Realmente Koslova, se nao fosse o investimento
estatal, provavelmente, hoje nao teriamos a Embraer.
Em 1969, nenhum grupo privado de san consciencia
investiria em uma fabrica de avioes. A economia
brasileira sempre cresceu dentro das chamadas "bolhas 
de desenvolvimento". O Brasil pegava dinheiro
emprestado, esse dinheiro artificialmente criava uma
classe media consumista, a bolha estourava e
entravamos em um periodo recessivo. Esse ciclo se
repetiu varias vezes durante o seculo vinte. Nessas
circunstancias de crescimento nao sustentavel baseado
nos gastos estatais, simplesmente nao oferecia um
cenario favoravel para o desenvolvimento de uma
industria aeronautica local. Devido a nossa
concentracao de renda, apenas uma minoria podia voar
de aviao. Isso significa que o mercado de aviacao
civil no Brasil e' pequeno. Restava entao abastecer o
governo (FAB), mas todo mundo sabe que so' empreiteira
sobrevive tedo o governo com cliente exclusivo. Sendo
assim, ninguem quis entrar nesse negocio. Mas pensando
estrategicamente, o governo decidiu investir (o nosso
dinheiro, e' claro) em um arriscado negocio o qual a
iniciativa privada nao queria nem saber. Segundo eles,
era importante e estrategico para uma potencia
emergente como o Brasil, dominar os segredos da
industria aeronautica.  Foi criada entao a EMBRAER e
as suas agregadas (ITA, CTA, etc...) para dar ao
Brasil o acesso a esse conhecimento estrategico do
qual a nossa soberania nacional tanto dependia. Bom 30
anos e varios bilhoes de dolares depois(nosso
dinheiro), a EMBRAER se encontrava inchada,
deficitaria e atolada na lama. De positivo, adquirimos
o dominio das tecnologias de fabricacao de aeronaves.
O beneficio que o descomunal investimento  no dominio
dessa tecnologia "estrategica" trouxe para os
boias-frias, favelados, meninos de rua, retirantes
nordestinos, empregadas domesticas e sem-terras e'
discutivel, mas pelo menos serviu para inchar o o
nosso raquitico orgulho nacional. No final da
historia, a EMBRAER foi vendida a um preco bem proximo
do valor minimo do leilao, pois ninguem estava
disposto a investir muito em um negocio tao arriscado.

  O curioso e' que recentemente, eu conduzi um estudo
para uma rede de supermercados local sobre o potencial
brasileiro para a exportacao e frutas tropicais. Me
surpreendi ao descobrir que, se o governo brasileiro
tivesse oferecido durante os anos 70, uma infima
parcela do que foi gasto com a EMBRAER e suas
agregadas a pequenos agricultores rurais no agreste
nordestino (na forma de emprestimos, educacao e
treinamento, instalacao de infra-estrututa e a
construcao de uma unidade de tratamento sanitario), o
Brasil hoje teria o dominio praticamente exclusivo do
mercado internacional de frutas tropicais frescas
(algo com o valor estimado em 17 bilhoes de dolares ao
ano). Isso sem contar com o impacto social favoravel a
nacao, na forma da manutencao de pequenas propriedades
rurais, reducao no exodo rural, preservacao do meio
ambiente, melhor distribuicao de renda, etc...
  Infelizmente a escolha que a nacao fez nao foi essa.
Exportar caja', tamarindo e manga nao da' o mesmo
status que exportar caca AMX e EMB-145. A EMBRAER hoje
exporta pouco mais de 1 bilhao de dolares por ano,
isso depois de consumir recursos publicos por quase 30
anos.  A industria de frutas tropicais, por nunca ter
sido considerada estrategica (producao e exportacao de
frutas e' coisa de colonia), nunca recebeu um centavo
de auxilio do governo, isso apesar de requerer um
investimento infinitamente menor, ter um potencial de
exportacao 17 vezes maior que o da EMBRAER e poder
empregar centenas de milhares de pessoas de pequena e
baixa renda. Dizem que a EMBRAER e' estrategica. Para
mim, estrategica e' uma industria que poderia ajudar a
combater o crescimento desordenado das grandes cidades
e todas as mezelas trazidas por esse fenomeno
(criminalidade, pobreza, prostituicao infantil, etc..)
Se em 1969, tivessemos dado prioridade a industria
agricula no nordeste ao inves da EMBRAER  CIA,
provavelmente nao teriamos o EMB-145, o VLS e o
Piranha. Acho tambem que nao teriamos o poligono da
maconha (verdadeira ameaca a seguranca nacional) e o
nordeste provavelmete seria uma regiao muito
diferente. Hoje, exportamos EMB-145, mas a maior nacao
tropical do mundo exporta apenas 50 milhoes de dolares
em meloes frescos ao ano, quando poderia estar
exportanto 17 bilhoes em frutas. 
 E' uma pena realmente ver a industria naval morrendo.
Mas triste ainda e' ver uma industria de frutas que
tanto prometia, mas que nunca chegou a nascer.




=
Pedro M. Calmon
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