Ser� que o povo brasileiro perdeu a
sensibilidade? Onde foi parar nossa caracter�stica de religiosidade; nossa
solidariedade, mesmo que motivada apenas pela como��o coletiva; onde est�
aquele nosso sentimento mais nobre para com o pr�ximo, que pelo nosso
simples ato de doa��o pode faze-lo voltar a uma vida normal atrav�s de um
transplante de rim ou c�rnea? Se voc� quer uma resposta, eu ouso dizer que
pode existir.
O povo brasileiro ainda preserva tudo
isso, sim. Ent�o porque negar um �rg�o que, com a morte oficializada, a
terra ir� de comer? Mesquinhez? Burrice?
Ego�smo?
Talvez essa hist�ria, que contarei
agora – e que gerou uma desconfort�vel, por�m saud�vel pol�mica -
ajude a conhecer um pouco do como e porqu� um povo pode agir. Na sua
ignor�ncia ou na sua sabedoria. Se certo ou errado, n�o sabemos. Mas toma
suas decis�es.
No final do ano passado o "Jornal
Nacional" fez uma reportagem que ningu�m assistiu. Nem eu, nem
voc�. Quem revela � o articulista do "Observat�rio de
Imprensa", Victor Gentilli.
Foi mais ou menos assim: a fam�lia de
um doador de �rg�os, que n�o conseguia ter o seu desejo satisfeito, devido
� inefici�ncia do sistema de capta��o, encontrou naquele programa
jornal�stico um �timo parceiro para a solu��o do caso.
A equipe foi pra l�. E veio a
surpresa. O hospital que diagnosticara morte cerebral, portanto apto para
a retirada de �rg�os, anunciava na manh� seguinte que o paciente
manifestou sinais vitais. "O morto estava vivo!", escreve Gentilli. O "JN"
anuncia com discri��o e passa pelo caso sem aprofundar-se. Mais um dia se
passa e vem outra nota do hospital: "o diagn�stico do dia anterior estava
errado: o paciente tivera mesmo morte cerebral".
A quest�o da morte cerebral est� longe
de ser uma unanimidade. Segundo o advogado Celso Galli Coimbra, em
coment�rio sobre o caso, informa que at� a comunidade cient�fica tem suas
d�vidas e merece "revis�o dos crit�rios �diagn�sticos� da morte
encef�lica, absolutamente carentes de fundamentos providos da menor
seriedade com a vida humana".
O racioc�nio � simples: se eles n�o se
entendem, que diremos de n�s, doadores de carteirinha, com motivos de
sobra para n�o confiar no nosso sistema de sa�de. Sobre o tema, ainda
segundo Galli, o Conselho Regional de Medicina do Estado de S�o Paulo
(Cremesp) legitimou a discuss�o p�blica do assunto. O conselheiro da
entidade, neurologista C�lio Levyman, em longo debate na TV Cultura
afirmou que o teste de apn�ia – desligar o aparelho respirador para
confirmar ou n�o a morte do paciente- n�o durava dez minutos, mas sim dois
ou tr�s. "Se durasse dez –tempo estipulado pelo CFM - seria um desastre
para a vida do paciente".
Mesmo, em sua imensa maioria, existindo
bons, importantes e �ticos servi�os de transplantes, a quest�o da doa��o
de �rg�os no Brasil n�o passa pela falta de solidariedade de um povo, mas
sim pela gritante aus�ncia de credibilidade de um sistema.
S� lembrando que os �rg�os humanos s�o
bem cotados no mercado negro internacional. �ndia e Brasil est�o entre os
importantes fornecedores dessa mat�ria-prima. O filme "Central do
Brasil" d� um toque legal, embora n�o o priorize, sobre esse tipo de
tr�fico. Crian�as s�o, geralmente, as maiores vitimas deste com�rcio
duplamente criminoso. Est� mais do que na hora de discutirmos
isso.