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Direito_Sa�de - 29.mai.2001
From: Celso Galli Coimbra
Subject: [Direito_Saude] Ela veio para ficar
============================================= Ela veio para
ficar
28.Mai.2001 www.no.com.br
Como poliglota, o presidente Fernando Henrique Cardoso tem o privil�gio de ver o mundo desancar o Brasil em v�rias l�nguas, agora que o pa�s "mergulha no grande blecaute", segundo o jornal italiano Corriere della Sera, e "S�o Pedro � inocente", para a revista inglesa The Economist. Mas, para um soci�logo com seu pedigree acad�mico, � uma pena que tenha de ouvir de segunda m�o, traduzida por rep�rteres estrangeiros, a opini�o sobre a crise energ�tica brasileira de um especialista no assunto como o professor Ad�lson de Oliveira, que o tempo todo esteve � disposi��o dos interessados no Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Economista especializado em energia, ao contr�rio do governo ele observa h� muitos anos a chegada inevit�vel do racionamento, anunciada p! elo sumi�o da �gua e dos investimentos nas usinas geradoras de eletricidade. E avisa que, enquanto Bras�lia improvisa um remend�o de emerg�ncia, o pa�s deve se preparar para alguns anos de apertos e m�s not�cias em suas contas de luz, como explica nesta entrevista a no.: A crise o pegou de surpresa, como ao presidente? Ad�lson de Oliveira - Ela n�o surpreendeu nem a mim nem ao presidente, porque em 1999 o governo fez um Plano Emergencial de Energia El�trica, para enfrentar a crise j� ent�o prevista para 2001. A amea�a de racionamento j� estava ali, por escrito, naquele documento oficial. Todos sab�amos que, se as usinas t�rmicas n�o ficassem prontas a tempo, haveria racionamento este ano. Esse "todos" inclui o Minist�rio das Minas e Energia, a Ag�ncia Nacional de Energia El�trica, as distribuidoras, todo mundo que trabalha com energia. Tenho at� gr�ficos mostrando que isso era inevit�vel. Como? Oliveira - Os gr�ficos que registram ano a ano, com n�meros oficiais, o descompasso entre o consumo e a produ��o de eletricidade, por exemplo. Ou a redu��o progressiva da margem de seguran�a nos reservat�rios, porque h� anos o sistema vinha gastando mais �gua do que podia. Para alimentar as hidrel�tricas, as represas s�o projetadas para operar as �guas em seu n�vel m�nimo, exatamente porque n�o se pode contar com a abund�ncia das chuvas. Num ano chove muito, no outro chove pouco e n�o se pode desenhar um sistema hidrel�trico para funcionar s� quando a �gua est� sobrando. Mas este ano a seca exagerou, n�o? Oliveira - H� uma certa quantidade de �gua que cai quase inexoravelmente. � com ela que se deve contar para gerar eletridade. O excedente se armazena. E no caso nosso, desde 1994 todo ano fomos usando um pouco dessa reserva, para manter as turbinas funcionando com uma carga que compensasse o d�ficit de gera��o de energia causado pela falta de investimentos na expans�o do sistema. Resultado: veio um per�odo mais seco e n�o t�nhamos nos reservat�rios �gua suficiente para enfrent�-lo. � poss�vel acompanhar ano a ano, nos gr�ficos, o esgotamento de nossos reservat�rios. A margem de seguran�a acaba de 1997. Dali para a frente, o d�ficit aumenta anualmente. Drenando os reservat�rios al�m da conta, chegou-se em 2001 ao m�nimo poss�vel. Nesse caso, a �nica d�vida poss�vel � que, se chovesse muito este ano, talvez n�o houvesse racionamento j�. Mas ele viria quase fatalmente no ano que vem. Ms o presidente diz que, se chovesse, estar�amos salvos. Oliveira - � o que eu disse. Se tivesse chovido muito, a amea�a de apag�o n�o estaria bem � nossa frente. Mas era quest�o de tempo. N�o se pode arriscar a vida de um pa�s deste tamanho numa loteria meteorol�gica. Por que se foi t�o longe? Oliveira - Preocupado as metas e os compromissos internacionais de seu programa econ�mico, o governo segurou ao m�ximo os investimentos p�blicos no setor, esperando que investimentos privados viessem compensar esse atraso. Mas n�o criou regras nem pre�os atraentes para investidor. As empresas privadas foram proibidas de investir em produ��o de energia e as empresas privadas n�o investiram porque o mercado estava mal organizado. O pa�s tem hidrel�tricas estatais muito tentadoras. O governo anunciou que iria privatiz�-las, sem ter condi��es pol�ticas de levar o programa at� o fim. � �bvio que, diante do impasse, os grandes investidores pararam para esperar o que ele faria com as empresas estatais, porque em vez de gastar um bilh�o de d�lares para fazer hidr�ltrica � sempre melhor comprar uma que j� est� pronta. Assim, desde 1996, quando come�ou o processo de privatiza��o, os investimentos ficaram muito aqu�m das necessidades do pa�s durante v�rios anos. Somando-se tudo isso - a falta de regras claras no mercado atacadista, a proibi��o dos investimentos estatais, o esgotamento dos reservat�rios de �gua - basta uma estiagem longa para precipitar a crise. Se a crise foi feita aos poucos, por que apareceu de repente? Oliveira - Porque at� os anos 80 a capacidade instalada estava superdimensionada, podia cobrir as novas necessidades do sistema por v�rios anos. Em outras palavras, come�amos essa hist�ria com eletricidade de sobra. Mas no sistema el�trico � preciso ter uma margem de seguran�a, uma capacidade ociosa, para enfrentar problemas, como uma usina quebrar, ou uma estiagem mais longa. Como todo desperd�cio, manter esta sobra � caro. Portanto, acho razo�vel mant�-la no m�nimo indispens�vel. Uns 10% s�o aceit�veis. Mas � interessante ver nos gr�ficos que, em 1994, as linhas que medem o produ��o e o consumo se cuzaram. Ou seja, a partir deste ponto de inflex�o, a capacidade instalada ficou abaixo da necess�ria para atender o mercado com 10% de garantia. Desde ent�o, s� aumentou a margem de risco. � isso que vinha acontecendo no Brasil desde 1994. E agora? Oliveira - Agora o governo ter� que cuidar da escassez. N�o h� mais tempo para ele fazer grandes coisas no setor el�trico. Se conseguir remendar mais ou menos bem o racionamento, j� ter� feito um grande servi�o. E conv�m saber que um bom remendo sai caro. Por que? Oliveira - N�o h� outra alternativa poss�vel sen�o reduzir o consumo de energia el�trica. A partir do ano que vem, se os cortes este ano atingirem as metas necess�rias e se contornar o pior da crise, ser� preciso fazer com que os reservat�rios voltem ao n�vel adequado. O que levar� uns dois anos. � preciso n�o esquecer que, mais do que uma crise de energia, essa � tamb�m uma crise do abastecimento de �gua. E a gest�o das �guas mal come�ou no Brasil. Acaba de ser criada a Ag�ncia Nacional das �guas. No Nordeste todo o pessoal que trabalha com irriga��o est� correndo um risco muito grave de colapso. E eu acho que alimenta��o � mais importante do que a energia. Ali�s, eu me expliquei mal. Queria dizer que existem outras alternativas para gerar energia, que n�o pelo uso intensivo dos mananciais, mas a alimenta��o depende da �gua vitalmente. Logo, a �gua � mais importante para gerar alimentos do que energia el�trica. O pa�s deve apressar a privatiza��o das hidrel�tricas? Oliveira - N�o. Nunca fui favor�vel � privatiza��o das hidrel�tricas. E n�o se trata de posi��o ideol�gica. Elas podem ser privatizadas mais tarde, quando o Brasil tiver uma pol�tica de �guas eficaz. N�o est�vamos preparados para privatizar nossas usinas hidrel�tricas. A prova est� a�. Qual a alternativa? Oliveira - Se forem constru�das muitas termel�tricas agora, � poss�vel que em um ano e meio ou dois, se o clima ajudar, restabele�a-se a margem de seguran�a nas represas. Como h� temel�tricas j� programas, previstas para entrar em funcionamento l� para mar�o do ano que vem. Apertando muito os prazos, talvez d� para trazer esse prazo para janeiro, oferecendo b�nus aos fornecedores que se anteciparem �s metas do contrato. � poss�vel, mas n�o � f�cil, porque o momento n�o � prop�cio. O governo Bush acaba de lan�ar um plano monumental de constru��o de termel�tricas. Teremos que disputar com o governo dos Estados Unidos a aten��o dos fornecedores. Trabalhando-se bem, ganha-se um ou dos meses. E a ess�ncia do problema n�o muda. Teremos que restringir o consumo. O programa de racionamento � exequ�vel? Oliveira - Em termos. � quase imposs�vel as pessoas reduzirem 20% em seu consumo dom�stico de eletricidade. Quem consome at� 300 kw n�o tem tudo isso para cortar sem adotar medidas extremas. E h� coisas que s�o f�ceis de falar que de fazer, como tomar banho frio no inverno. Tamb�m n�o vejo como as empresas possam cortar 20% a curto prazo, sem trocar equipamento, instalar motores mais eficientes, provid�ncias que exigem tempo e capital. No com�rcio, que pode usar menos ilumina��o, baixar o ar condicionado e funcionar de maneira menos fe�rica, d� para reduzir uns 10% sem muito sacrif�cio. Na ind�stria, nem todas as empresas estar�o preparadas para fazer esse esfor�o de repente. Para ela, uns cinco ou seis por cento me parecem fact�veis. Mais, duvido, sem uma queda consider�vel na produ��o industrial. Quer dizer que n�o tem sa�da? Oliveira - O rem�dio talvez seja concentrar o programa nos grandes consumidores de energia, as ind�strias eletro-intensivas, como as f�bricas de alum�nio, a�o ou papel, cuja tarifa de energia � por sinal fortemente subsidiada. Concentrando-se nessas ind�strias, o problema continua s�rio, evidentemente, mas pelo menos se minimiza o risco de desorganiza��o de toda a cadeira produtiva nacional, o que teria custos sociais pesados e exigiria anos para reorganiz�-la. As empresas dessas �reas j� anunciaram que est�o dispostas a parar a produ��o. Inclusive porque para elas parar significa parar por longos per�odos. N�o adiante desligar um alto-forno algumas horas por dia, porque ele leva muito tempo para voltar � temperatura de funcionamento. O fato � que para muitas empresas cortar 20% � sin�nimo de parar a produ��o. Haver� desemprego com o racionamento? Oliveira - Sim. Fala-se em alguma coisa entre 300 mil e 800 mil empregos. E ainda n�o vi o governo, em seu programa de emerg�ncia, mencionar provid�ncias para remediar os efeitos sociais do racionamento. E quando isso tudo vai acabar? Oliveira - Muita coisa vai demorar. O aumento do pre�o da energia, por exemplo, que o governo segurou durante tanto tempo, acabou saindo disfar�ado de medida para desencorajar o consumo. Na verdade, tentou-se fazer a quadratura do c�rculo: aumentar as tarifas sem dizer que elas aumentaram. Na pr�tica, o que est� havendo � tarifa�o. E, a meu ver, se � preciso faz�-lo, � melhor mesmo que seja agora. Mesmo porque se trata de uma simples antecipa��o de aumentos j� combinados. Como? Oliveira - Quem n�o � do setor ignora, mas desde 1998 est� programado um aumento de tarifas depois de 2002. Isso consta do contrato com os operadores do sistema. Em 1o de janeiro de 2003, exatamente o dia em que assumir o pr�ximo presidente da Rep�blica, as empresas ter�o um aumento real - ou seja, acima da infla��o - de 25%. Isso j� est� no papel h� mais de dois anos. S�o aumentos de 25%, sempre em janeiro. Um por ano em 2003, 2004, 2005 e 2006. O pr�ximo governo atravessar� todo o mandato fazendo aumentos reais da tarifa de energia el�trica para os consumidores. Seja quem for o presidente. Estamos fazendo um aumento com racionamento e quando a situa��o come�ar a melhorar em 2002 come�a a temporada de aumentos reais previamente estipulados. ================================== ================================================ INSTRU��ES: ENVIAR mensagem para o grupo use o endere�o: [EMAIL PROTECTED] DESINSCRI��O, enviar mensagem em branco para: [EMAIL PROTECTED] INSCRI��O, enviar mensagem em branco para: [EMAIL PROTECTED] PARA ler os artigos sobre morte encef�lica: http://www.yahoogroups.com/files/direito_saude/ PARA visitar os sites sobre morte encef�lica: http://www.yahoogroups.com/links/direito_saude/ PARA ter acesso a todas as mensagens anteriores: http://www.yahoogroups.com/messages/direito_saude PARA acessar a p�gina principal deste Grupo: http://www.yahoogroups.com/group/direito_saude COMUNICA��O com a Administra��o da lista: [EMAIL PROTECTED] ================================================= ______________________________________ Seu uso do Yahoo! 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Title: no.com.br : Marcos S� Corr�a : Ela veio para ficar

