Toda Brisa Tem o seu Dia de Ventania
 
Alessandro Buzo
 
 
    O Itaim Paulista dorme. � noite no �ltimo bairro da Zona Leste de S�o Paulo.

     Assim que o sol nascer ser� mais uma quinta-feira, dia de trabalho. Se for verdade que o paulistano � viciado em trabalho, Andr� � um desses man�acos. Que acredita na for�a do trabalho, que acredita estar no caminho certo, acredita que um dia a vida dura vai melhorar, mas at� chegar esse dia n�o se cansa de trabalhar. Pula da cama �s 5 da madrugada todo dia e s� volta da lida com a lua no c�u.
 
     Nem para pagar as contas o dinheiro d�, ent�o hora extra para completar. Deus aben�oa n�o ter que pagar aluguel, mora com mulher e filho nos fundos da casa da m�e, a pequena casa de dois c�modos. N�o falta amor e as necessidades e dificuldades s�o encaradas de frente. Andr� ultimamente anda meio puto da vida com uma porrada de coisa que v� no dia-a-dia. N�o entende como tem tanto pobre num pa�s t�o rico.
 
 
    Como tantos pol�ticos s�o corruptos, s� pensam em roubar. Como tantas bandas boas ralam no sub�rbio e s� artista queridinho da m�dia vai repetidamente nos programas.
 
 
    Outra coisa que faz Andr� perder o sono � a respeito de como o seu patr�o trata ele e seus amigos de trabalho. O coreano trata a todos aos berros, nunca deve ter ouvido falar em respeitar para ser respeitado. Andr� acha que, at� pelo fato de o patr�o ser estrangeiro, deveria ter educa��o com seus funcion�rios. Todos brasileiros. Todos baianos, pernambucanos, mineiros, paulistanos, todos filhos desta terra amada. Mas a qualquer atraso de um funcion�rio o patr�o j� esculachava no meio da loja, na frente de qualquer um, aos gritos.
 
     Outro fato que enchia Andr� de indigna��o era o coreano falando mal do Brasil o tempo todo. Reclama daqui, critica dali, mas ir embora que � bom, nem pensar. Tamb�m no seu pa�s de origem dificilmente ele teria uma mans�o como aqui, casa na praia e carro de luxo que, por seguran�a, ele mandou blindar. Se j� n�o bastasse o mau trato do patr�o, � tarde quem chegava era a patroa e os tr�s filhos. Os moleques mexem com um e outro, destratam o cortador, incomodam as vendedoras e ningu�m fala nada, pela frente, � claro, porque por tr�s falam o bicho dos tr�s monstrinhos, digo, filhinhos do patr�o. Andr� � estoquista, no meio da bagun�a organizada do estoque ele sabe onde est� tudo, grita l� de baixo que o Andr� manda. Os cortes certos, as pe�as corretas. H� dois anos Andr� presta servi�os na loja e aguarda o aumento salarial que o coreano lhe prometera se ele tiver um pouco mais de paci�ncia.
 
     Quinta, 3 de maio de 2001, Andr� pula da cama ao som do despertador, os ponteiros marcam 5 horas da manh�, quase que automaticamente ele toma banho, prepara uma mamadeira para quando o filho acordar. Um beijo na esposa, que lhe deseja um bom dia, ele o mesmo, e parte. O sol ainda n�o est� no c�u, a escurid�o ainda prevalece, mas, como milhares de trabalhadores, ele nem tomou caf� da manh�, e na bolsa carrega a marmita, j� pensa no almo�o antes mesmo do caf�. Andr� acha que toda empresa deveria dar t�quete-refei��o.
 
     Na bolsa, tamb�m, v�o dois livros, um que ele est� acabando de ler e outro que n�o v� a hora de come�ar. Apesar do sal�rio baixo e de todas as dificuldades, sempre que sobra algum, Andr� passa num sebo e adquire um livro. Seu passatempo predileto nas condu��es � ler, do Itaim Paulista ao Br�s s�o quarenta minutos di�rios de leitura na ida e outros quarenta na volta. Isso, quando amigos n�o chamam para jogar uma sueca, o jogo oficial da linha variante dos trens da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos). Seis horas e Andr� v� um tumulto na frente da esta��o do Itaim, os trens, para variar, est�o com problemas. Segundo um cartaz, um trem tinha descarrilado e os outros circulavam com atraso e maiores intervalos nas esta��es.
 
 
    Mesmo n�o estando em condi��es de prestar um bom atendimento ao usu�rio, a CPTM n�o abre m�o de cobrar a passagem. Alguns v�o para o ponto de �nibus. Como de �nibus era certeza de atraso, Andr� apostou no trem e embarcou. O trem que ele pegou ficou de quinze a vinte minutos sem sair do lugar e, nesse tempo, toda a composi��o superlota, o �nimo para ler o livro que est� na bolsa vai embora, n�o d� mais nem para pegar a bolsa. A viagem de quarenta minutos chega, nesse dia, a uma hora e meia. No meio da viagem, Andr� se pergunta por que a CPTM n�o utiliza os trens de doze vag�es, j� que est�o com problemas no percurso, mas parece que, de prop�sito, s� circula trem de seis vag�es, como se o pobre merecesse sofrer. A pessoa sente-se numa lata de sardinha.
 
     Cansado, desanimado, amassado e humilhado, Andr� desembarca no Br�s, �s 8 da manh�. Nem o cansa�o, nem a irrita��o pela p�ssima viagem fazem Andr� esquecer o coreano. Ele caminha rapidamente, passa as catracas, desvia dos que andam vagarosamente, desvia das pessoas paradas vendendo passe em frente � esta��o, desvia das in�meras barracas dos camel�s, cruza como um raio o largo da Conc�rdia, e �s 8 e 10 entra na loja, que fica na rua Maria Marcolina.
 
     O coreano olha automaticamente para o rel�gio na parede, quarenta minutos de atraso. O patr�o dispara uma metralhadora girat�ria:
 
     — Atrasado de novo, Andr�, pelo amor de Deus! Ser� que eu falo grego, n�o vou permitir atrasos, acorde mais cedo, mude de condu��o, fa�a o que voc� quiser, mas chegue no hor�rio. Vai dizer que foi o trem? De novo o trem? Ou sua v� morreu de novo?
 
     O coreano n�o parava de falar, nem se importava com a presen�a de tr�s fregueses, nem muito menos com os demais funcion�rios que olhavam para Andr�, que estava ali parado, s� ouvindo. Todos esperando suas explica��es. Surpreendentemente Andr� gritou:
 
     — Cheeegaaa...!!!
 
     O queixo do coreano quase caiu, seus olhos se arregalaram, ele n�o pensou duas vezes e disse que Andr� estava despedido. Andr� riu, come�ou a rir muito, quase chorou de tanto rir. Depois falou:
 
     — Antes de ir embora, gostaria de lhe falar.
 
 
     Subiu no balc�o e pegou o rel�gio na parede, voltou as horas para 5 da manh�, tacou o rel�gio no ch�o, de modo que ele quebrou com os ponteiros marcando 5 horas. Andr� prosseguiu. Frente a frente com o patr�o, que estava sem rea��o, come�ou a falar:
 
     — Agora, voc� vai ouvir tudo que eu passei das 5 da manh� at� agora...
 
 
     O coreano tentava se safar e Andr� o segurava pelo colarinho. A plat�ia aumentou e todos ouviam as explica��es de Andr�, o coreano n�o falou mais uma palavra. Quando Andr� terminou, o patr�o falou:
 
     — Esquece isso, Andr�, e vai trabalhar.
 
     — Trabalhar? Eu me demito, ouviu, eu n�o serei nunca humilhado por voc�, eu me demito. Me demito... Me demito!!!
 
     Ent�o, virou as costas e partiu, pegou o trem, tirou o livro que lia, parece que s� os textos de Jo�o Ant�nio o compreendem, ele chega em casa e, mesmo desempregado, � recebido com um sorriso pela mulher e com festa pelo filho.
 
 
 
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Alessandro Buzo � autor de O Trem Baseado em Fatos Reais, Editora Scortecci. Itaim Paulista - SP
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