Palestina do Sul

[ 15.Set.2001 ] 

       
Paulo C�sar Teixeira  <[EMAIL PROTECTED]>


CHU� (RS) – Um antigo ditado �rabe afirma que, se um louco joga uma pedra na �gua, s�o necess�rios cem s�bios para traz�-la de volta � superf�cie. A m�xima serve para descrever a preocupa��o dos cerca de 330 mu�ulmanos que vivem no Chu�, a 520 km de Porto Alegre, junto � fronteira com o Uruguai. Eles temem ser alvo de repres�lias a qualquer momento, ap�s a onda de atentados que varreu os Estados Unidos e colocou as comunidades isl�micas sob suspeita em todo o mundo.

Embora apoiem abertamente a causa palestina e satanizem a pol�tica externa americana, os �rabes fincados no extremo sul do pa�s garantem estar solid�rios �s v�timas dos atentados em Nova York e Washington. "Sofremos na carne o racismo e o terror. Todos os dias, inocentes s�o mortos nos territ�rios ocupados por Israel na Palestina. N�o far�amos com os outros o que fazem conosco", diz Abder Rohim El Jundi, 64 anos, presidente da Sociedade Beneficente �rabe Brasileira. Porta-voz do enclave isl�micos no sul do Brasil, Jundin � dono da loja A Barateira, a duas quadras da divisa entre os dois pa�ses.

Em sua maioria palestinos e libaneses, os �rabes representam cerca de 5% da popula��o do Chu� (6,3 mil habitantes), controlam de 30% a 40% do com�rcio local e t�m poder suficiente para eleger o prefeito da cidade, Mohamad Kassem Jomaa, guindado ao olho do furac�o ao ser acusado de envolvimento com o terrorista Osama Abin Laden, suspeito n�mero 1 dos atentados da ter�a-feira 11. A Pol�cia Federal investiga den�ncia do servi�o de intelig�ncia uruguaio de que a "m�fia �rabe" do Chu� estaria envolvida ainda em lavagem de dinheiro e tr�fico de drogas. "Est� na hora de me aposentar e ainda estou aqui, esperando chegar um cliente na loja para ganhar meu sustento. Acha que tenho condi��o de financiar o terror?", diz Jundi.
 
 

Elos v�o se perdendo

A comunidade isl�mica do Chu� acompanha a evolu��o dos acontecimentos no cen�rio mundial em canais de televis�o �rabes (do Catar e da Ar�bia Saudita), captados por antenas nos telhados das lojas, voltadas para sat�lites americanos. O contato com as origens � refor�ado com o envio de jovens a escolas na Palestina e no L�bano. Neste ponto, s�o fi�is a outro antigo ditado: �rabe � o que fala o idioma, n�o � o que descende de �rabe. "Alguns de nossos filhos j� n�o querem estudar no Oriente M�dio. Como n�o h� escolas especializadas aqui, o elo vai se perdendo", lamenta Jundin.

Tamb�m n�o h� mesquita na cidade. A obriga��o do mu�ulmano � rezar cinco vezes por dia em casa, voltado para a dire��o de Meca. Uma vez por semana – ao meio dia de sexta-feira –, h� uma cerim�nia religiosa numa pequena sala atapetada da Sociedade �rabe Brasileira, abrigada num pr�dio inacabado, com as vidra�as das janelas quebradas e sem um m�vel sequer. "Falta dinheiro para terminar a obra", afirma Jundin, ironizando a informa��o de que milion�rio saudita Osama bin Laden, suspeito de planejar os atentados nos EUA, despejaria US$ 2 milh�es para a constru��o de uma mesquita no Chu�.

A primeira leva de mu�ulmanos chegou ao sul do Brasil nos anos 60. "Esta rua onde est� minha loja n�o existia. Era um campo sem planta��o. Era tudo cupim", diz Jundin. Junto � divisa, havia quiosques de madeira que funcionavam s� no ver�o. No inverno, os comerciantes sumiam. O transporte era via fluvial. Quando chovia, levava tr�s dias para se chegar a Pelotas, a 230 km do Chu�. Tratores ficavam a postos nas estradas para desatolar carros, caminh�es e �nibus. A princ�pio, os �rabes abriram pequenas lojas na cal�ada. Logo o neg�cio prosperou e criaram coragem para instalar um supermercado. "Botaram o nome de supermercado para chamar cliente, era novidade. Mas o pessoal atendia no balc�o."

 
Revolta contra os governos �rabes

Jundin, 64 anos, encarna com perfei��o a figura do palestino errante. Nasceu numa aldeia pr�xima � cidade portu�ria de Haifa, no Mediterr�neo, no noroeste da Palestina. "Fui expulso de casa ainda menino. Em 1948, os judeus ocuparam as terras de meu pai para a cria��o de Israel. Escapamos pelas montanhas e nos refugiamos na Cisjord�nia." Aos 18 anos, entrou no Ex�rcito jordaniano. "Era mo�o, tinha a ilus�o de libertar a Palestina. Descobri que as For�as Armadas da Jord�nia n�o serviam para libertar coisa nenhuma, s� para conservar a monarquia do rei Housein." Aos 21, foi expulso da corpora��o. Acusa��o: compl� contra o regime. Continuou sem p�tria. "A maior parte dos governos �rabes s�o fantoches nas m�os dos americanos, de quem recebem armas e dinheiro, em troca do petr�leo."

Em 1960, desembarcou no porto de Santos, sem falar uma palavra em portugu�s e com US$ 100 no bolso. Passou oito dias em S�o Paulo, grudado em dois patr�cios com quem fizera amizade nos 24 dias de viagem num transatl�ntico italiano. "Era c�mico. Onde iam, eu ia atr�s." Tentou ganhar a vida como mascate, mas n�o ag�entou o peso da mala. "� uma profiss�o degradante. A pessoa se sente humilhada." Antes de se instalar no Chu�, em 1970, viveu em Santa Catarina, trabalhando como empregado em lojas de �rabes. Naturalizado, se diz brasileiro "de alma e cora��o, sem esquecer as origens".

A fidelidade ao Brasil �, ali�s, a justificativa para os foguetes que foram ouvidos nos �ltimos dias no lado brasileiro da fronteira, interpretados por um canal de tev� uruguaio como comemora��o dos atentados em territ�rio americano. "Aqui soltam foguetes a toda hora, principalmente por causa do futebol. Se um time de S�o Paulo ganha dos uruguaios, para n�s, � o Brasil que sai vencedor", diz. O rosto de repente se crispa: "Somos v�timas de insinua��es maldosas. Gente que convive conosco h� muito tempo j� nos olha de um jeito estranho, como se tiv�ssemos participado dos atos terroristas", afirma. A pedra jogada na �gua dificilmente voltar� � tona.
 
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