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CORRIDA TECNOL�GICA Ant�nio Brasil (*)
Cerca de 125 milh�es de americanos acessam diariamente a internet, a rede criada para sobreviver a todas as guerras. Metade deles tamb�m j� se utiliza prioritariamente dessa nova tecnologia para obter not�cias de �ltima hora. Mas, segundo artigo do Los Angeles Times, ap�s os recentes ataques terroristas aos EUA muitos internautas j� est�o repensando a morte t�o anunciada e inevit�vel de uma velha tecnologia, a televis�o.
As imagens instant�neas geradas pelos canais de TV como CNN e seus concorrentes demonstraram de forma indiscut�vel sua for�a e agilidade como meio de comunica��o de massa. Mas tamb�m foi poss�vel notar os efeitos de uma verdadeira revolu��o de linguagem televisiva: a revolu��o do v�deo na m�o dos videojornalistas ou de v�deoamadores. Alguns deles, travestidos de bombeiros ou param�dicos, produziram uma verdadeira avalanche de imagens "quase ao vivo" que insistiam em surgir de todos �ngulos, a todos os instantes. Uma profus�o de novas imagens acompanhadas quase sempre de nuvens de fuma�a e de destro�os, que ilustravam de maneira assustadora o pavor causado pela realidade cinematogr�fica.
Apesar do medo e da m�o tr�mula de quem n�o est� necessariamente acostumado a testemunhar a hist�ria, esses "ca�adores de imagens" se arriscavam perigosamente numa jornada por �ngulos nunca dantes fotografados, criando uma alternativa poderosa �s c�meras pesadas e est�ticas das grandes emissoras. Mas o mais importante � que essas novas imagens ofereciam uma resposta � j� t�o criticada e decantada falta de informa��es por parte dos rep�rteres. Muitos deles insistiam em narrar aquilo que n�o se sabe e, pior ainda, abusavam de interjei��es emocionais do g�nero... Oh My God... Holy smoke (sic) [santa fuma�a] etc.! Essas explos�es ret�ricas se misturavam a compara��es a filmes-cat�strofe ou simplesmente ilustravam uma recusa em aceitar o que as imagens teimavam em mostrar, ou seja, os fatos.
Se � verdade que numa guerra a verdade nunca resiste, est� cada vez mais claro que as imagens lutam bravamente para resgatar pelo menos alguns resqu�cios dessa verdade. Da realidade para a fic��o, c�meras pequenas e �geis, nas m�os de gente como a gente, transformaram a vis�o de uma trag�dia num filme ainda mais real do que qualquer filme. Um aviso, um grito de alerta sobre os perigos de um estado de guerra que persiste e ultrapassa os videogames e o cinema-cat�strofe, invadindo um jornalismo t�o despreparado quanto os �rg�os de seguran�a e intelig�ncia que deveriam prever essa realidade.
Surpresa e despreparo
� claro que no momento de uma transmiss�o de TV dessas propor��es � imposs�vel fazer an�lises mais profundas, como declarou o jornalista ingl�s Chris Chramer, presidente da CNN International, em entrevista ao jornal Valor Econ�mico. "A efici�ncia da cobertura jornal�stica desse tipo de acontecimento se deve aos recursos tecnol�gicos utilizados pela CNN", disse. "H� v�rios anos, a empresa usa telefones via sat�lite e c�meras de v�deo muito leves, e o avan�o da tecnologia permite resultados impressionantes." O que fica ainda mais claro para Chramer � o destaque do elemento humano nessa revolu��o na produ��o de uma nova linguagem televisiva. "O avan�o da tecnologia permite resultados impressionantes, os v�deos amadores apresentados durante a programa��o foram feitos por pessoas que estavam perto do local do acidente e por cinegrafistas de pequenas ag�ncias de not�cias."
Dessa forma, nota-se que a �nfase, tanto no jornalismo como no terrorismo, n�o est� mais somente no acesso a grandes tecnologias mas, principalmente, na ousadia do ser humano. Essa mudan�a estrat�gica � emblem�tica de uma nova situa��o pol�tica internacional, em que os limites do terror superam n�o s� a tecnologia de defesa como a pr�pria imagina��o do p�blico.
Mais uma vez, investe-se tanto em t�cnicas e ferramentas sofisticadas e t�o pouco na forma��o do homem de informa��o, seja ele jornalista ou encarregado dos �rg�os de intelig�ncia, investe-se pouco em "intelig�ncia"! Acabamos vendo e sofrendo com tudo aquilo que n�o entendemos, que n�o nos explicam e, ainda pior, acabamos sendo v�timas de tudo daquilo que n�o se consegue evitar. Quem deveria explicar, reportar e acrescentar informa��es est� t�o surpreso e despreparado quanto os pr�prios telespectadores. Nesta confus�o de falta de informa��o, o rep�rter se confunde com a audi�ncia e fica hipnotizado pelo poder das imagens.
A grande rede falhou
Na TV ao vivo, a tecnologia tem privilegiado a imagem e a sua transmiss�o, mas tem sido muito cruel com a informa��o. As c�meras ficam menores e est�o em todos os lugares. No entanto, alguns rep�rteres das grandes redes est�o cada vez maiores! Eles cresceram tanto, s�o t�o importantes que n�o podem mais se afastar das reda��es sem o risco de se tornarem, eles mesmos, v�timas da not�cia.
� compreens�vel que, no calor da luta jornal�stica, da morte sendo transmitida ao vivo, n�o seja f�cil acrescentar uma informa��o adicional � imagem. Como n�o se investe no trabalho de produtores de not�cias que possam garimpar os fatos enquanto eles se desenrolam, tamb�m fica dif�cil indicar os culpados e os motivos dos fatos, por exemplo. Mas nada supera a for�a da especula��o e das contradi��es que superam sempre o valor da informa��o.
Talvez esse crescimento desproporcional das imagens, indo agora a lugares nunca dantes navegados, nos ajudem a pensar de uma forma um pouco mais cuidadosa sobre as nossas diferen�as. N�o s� as diferen�as entre os profissionais da imagem e os profissionais da palavra no jornalismo, mas principalmente sobre as muitas diferen�as que nos levam, cada vez mais, ao desespero de matar e morrer em frente �s c�meras.
Enquanto isso, no para�so prometido dos benef�cios universais do ciberespa�o, a m�e de todas as redes, instalada para sobreviver � hecatombe nuclear, esta, sem d�vidas, n�o passou no teste da realidade versus fic��o. Os principais portais de comunica��o e jornalismo ficaram totalmente bloqueados por um congestionamento-monstro jamais previsto. Sites milion�rios de jornalismo como os da CNN, do NYTimes, da MSNBC ou do Yahoo simplesmente se tornaram inacess�veis para os internautas.
A hora da realidade
Analistas reconhecem que a nova tecnologia ainda n�o est� preparada para enfrentar o peso da responsabilidade de uma hegemonia da informa��o. Num cen�rio em que todos buscavam informa��es r�pidas e seguras sobre aquilo que n�o poderia estar acontecendo, a grande rede dos megaportais entrou em colapso. Mas foi a internet nanica, aquela dos pequenos sites pessoais, dos conhecidos bloggers, que demonstrou a sua for�a. Sites pequenos e �geis mantidos por gente comum que se contenta em descrever diariamente suas exist�ncias comuns entraram em a��o numa verdadeira corrente de informa��es e, principalmente, numa corrente de solidariedade.
Assim como os pequenos cinegrafistas amadores buscavam a for�a das grandes imagens numa tentativa de explicar o inexplic�vel com palavras, eram as mensagens dos bloggers que procuravam solucionar problemas pr�ticos e objetivos de quem precisava entender que tudo aquilo n�o era, pelo menos ainda, necessariamente o come�o do terceira guerra mundial ou o come�o do fim do mundo.
A combina��o dos grandes meios com os pequenos indiv�duos pode ainda ser algo ut�pico no nosso dia-a-dia de um jornalismo de mercado sempre em busca de grandes lucros e grandes audi�ncias. Mas, para todos aqueles que vivenciam, estudam e pesquisam o telejornalismo, os �ltimos dias nos trazem grandes li��es n�o s� sobre as perspectivas �tico-profissionais do nosso meio, mas sobre o verdadeiro sentido e o futuro da nossa dif�cil presen�a, ainda t�o recente, neste velho planeta. Dessa forma, como numa terra de cinema e fic��o, para evitarmos um dia encontrar alguns peda�os do que um dia foi uma Est�tua da Liberdade numa esp�cie de Planeta dos Macacos, acreditando que a Odiss�ia de 2001 est� s� come�ando, e para evitar que tudo se torne o Apocalipse Now, talvez seja hora de investir um pouco menos nos sonhos e dar um pouco mais de aten��o � nossa pr�pria realidade.
(*) Jornalista e professor de telejornalismo da Uerj
Observat�rio da Imprensa
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/ter190920018.htm _____________________________
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